Sete Brasil diz que não se manifestará sobre acusação de pagar propina

Esquema de desvios na Petrobrás teria sido reproduzido em empresa montada pela estatal junto com a iniciativa privada 

FÁBIO GRELLET, O Estado de S. Paulo

27 de março de 2015 | 17h46

A Sete Brasil informou que não vai se manifestar sobre a acusação de envolvimento em pagamento de propina. Segundo a assessoria de imprensa da empresa, todas as pessoas que teriam recebido propina são ex-funcionários.

O lobista Guilherme Esteves de Jesus, preso na manhã desta sexta-feira, 27, pela Operação Lava Jato, é acusado de pagar pelo menos US$ 8,2 milhões em propina em nome do Estaleiro Jurong - de um dos maiores grupos do setor no mundo - por seis contratos para construção de sondas de exploração do pré-sal feitos com a Sete Brasil. Pelo menos US$ 1,7 milhão teriam sido pagos para dois executivos da empresa brasileira, João Ferraz e Eduardo Musa.

A reportagem tentou falar por telefone com João Carlos Ferraz e Eduardo Musa. Na casa do primeiro, ninguém atendeu ao telefone. Na casa do segundo, uma secretária informou que ele não estava nem voltaria nesta sexta-feira, 27.

A Sete Brasil foi um projeto montado no interior da Petrobrás, idealizado, sobretudo, por João Carlos de Medeiros Ferraz. O ex-gerente de Engenharia da Petrobras Pedro Barusco, delator da Lava Jato, afirmou em sua delação que "em todos os contratos, foi acertado o pagamento de propina de cerca de 1%, depois reduzido a 0,9%, dos valores".

Tanto Ferraz como Musa eram funcionários da Petrobrás. "Além disso, o pagamento das propinas comissionadas teria ocorrido no âmbito de contratos destinados à construção de sondas para a empresa estatal", ressalta o juiz federal Sérgio Moro.

O Estaleiro Jurong é uma subsidiária do Grupo SembCorp Marine, companhia de capital aberto de Cingapura e uma grande fornecedora internacional de plataformas e sondas para exploração de petróleo.

"Os pagamentos das propinas, que totalizariam cerca de US$ 8.211.614,00, teriam sido feitas por intermédio de transferências no exterior da conta em nome da off-shore Opdale Industries Ltd, controlada por Guilherme, para contas controladas por Pedro Barusco (offshore Natiras) Renato Duque (offshore Drenos), João Ferraz (offshore Firasa) e para Eduardo Musa (conta não identificada)", registra o juiz, em sua decisão, na quinta-feira, 26.

A Sete Brasil foi constituída com diversos investidores, entre eles a Petrobrás e com recursos provenientes de fundos de pensão da Petros, Previ e Funcef, Valia. Também tem por sócios empresas privadas e instituições financeiras, como os bancos Santander, Bradesco e o BTG Pactual. Em 2011, a Sete Brasil venceu licitação da Petrobras para a operação de 21 sondas do pré-sal. Para executar os serviços, a empresa fechou 21 contratos pelo valor total de US$ 22 bilhões com cinco estaleiros: Estaleiros Atlântico Sul, Estaleiro Rio Grande (ligado à Engevix Engenharia), Estaleiro Jurong, Estaleiro Kepell Fels e Estaleiro Enseada do Paraguaçu (formado por consórcio da Odebrecht, OAS, UTC e Kawasaki).

Uma das pessoas que participou ativamente da formação da Sete Brasil foi Barusco. Cada estaleiro tinha o seu operador responsável pelo pagamento de propinas, afirmou ele. Guilherme Esteves era o operador do Estaleiro Jurong, que ficou com seis contratos dos 21.

Barusco foi indicado Diretor de Operações da Sete Brasil em fevereiro de 2013, mas desde 2011 trabalhava na empresa. Segundo ele, "o esquema criminoso da Petrobras reproduziu-se na empresa Sete Brasil". Sua função na empresa privada "era conduzir o projeto de construção de sondas de perfuração de águas profundas para exploração do pré-sal".

Barusco afirmou à força-tarefa da Lava Jato que a "João Ferraz foram repassados US$ 1.035.996,00 em julho de 2013? e a "Eduardo Musa US$ 786.000,00, também em julho de 2013?. No celular do operador de propina da Jurong, a PF localizou "mensagens de texto, trocadas entre ele e Fabricio Barwinski e Frederico Goldin, sobre pedidos de transferência de valores da conta Opdale para as contas Nebraska, Nave e Firasa, esta última pertencente ao presidente da Sete Brasil, João Ferraz", segundo registra o MPF.

"A Sete Brasil, apesar de ser empresa privada, tem importante participação acionária da Petrobras e de fundos de pensão, com o que não se trata propriamente de lesão unicamente a uma empresa privada", afirmou Moro, em sua decisão de prisão do operador da Jurong.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.