Sessão escancarou deficiências, mas reflete o que é o País

O dia 17 de abril também vai entrar para a história como o dia em que o brasileiro se olhou no espelho e, pasmem, se viu refletido em um deputado federal. No começo, um reflexo tão distorcido, exótico e inculto que não tardamos a entrar em um estado primário de negação. Quem? O quê? Você ouviu a barbaridade que ele disse? Que ridículo! 

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2016 | 07h57

Pois bem, como de praxe, corremos para as redes sociais e tratamos de rir daquela gente que votava mandando beijinho para a mulher e filhas, que votava cantando desafinado, evocando Deus, comendo plurais ou sendo esteticamente aproximado a uma personagem de ópera bufa. 

Porém, ao apontar o dedo e dedicar merecido escárnio à vossa excelência, a qualquer excelência, nos reconhecemos como iguais. Aquelas caras desconhecidas somos nós. Aquela fila interminável de parlamentares de quem nunca se leu uma linha minguada nos jornais, voalá, também somos nós. Teve golpe, teve sim. Mas um golpe na nossa autoestima.

De certo que não foi uma junta alienígena que os colocou lá. Nosso Parlamento foi eleito pelo voto direto e livre de milhares de brasileiros. Portanto, eles são, sim, nossos representantes legítimos. Ao tirar da frente o discurso da falta de legitimidade (que é bastante confortável), nos resta investigar o que fez desse Congresso aquilo que ele é, aquilo que mostrou ser durante as horas intermináveis desse domingo. 

E quem for no fundo do fundo dessa investigação, vai encontrar o tal espelho do começo desse texto. O nível dos deputados que lá estão corresponde ao apreço e cuidado que temos com o nosso próprio voto. Se hoje (ontem) fizemos piada com a forma e o conteúdo do voto parlamentar, talvez tenha chegado a hora de uma grande autocrítica nacional. Você lembra em quem votou para deputado federal? Votou baseado em quê? Foi um voto ideológico? Foi um voto de protesto ou escárnio? Foi um voto descuidado?

Tente responder honestamente se o seu voto não merece exatamente o que você acompanhou com tanto horror pela televisão. 

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