André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Servidoras e movimentos sociais protestam contra restrição a minissaia na Câmara

Com as cabeças cobertas por lenços, simbolizando burcas, manifestantes alegam que medida que visa restringir o vestuário feminino na Casa é inconstitucional e um 'atraso social e cultural'

DANIEL CARVALHO, O Estado de S. Paulo

09 de setembro de 2015 | 12h33

BRASÍLIA - Servidoras da Câmara dos Deputados cobriram a cabeça e o rosto com lenços que simbolizavam burcas para protestar contra uma medida em discussão na Casa que proíbe que mulheres transitem pelo local vestindo minissaias, transparências, blusas decotadas e até sandálias. O ato, organizado por movimentos sociais, reuniu dezenas de servidoras. No final da manhã desta quarta-feira, 9. Com cartazes nos quais que se lia “#MaisÉtica #MenosEstética”, elas gritavam “Cuide do seu decoro, eu cuido do meu decote”.

“Isso é um absurdo. É inconstitucional. É conservadorismo, atraso social e cultural”, disse Vanda Trigueiro, assessora da liderança do PT e servidora da Casa há 20 anos.

Para uma das organizadoras da manifestação, a assistente social Yvone Duarte, do Movimento pelo Estado Laico, as restrições ferem a autonomia das mulheres. “Tem coisas muito mais importantes para andar no Congresso Nacional. Este assunto é secundário”, disse Yvone.

“(A restrição) está de acordo com o conservadorismo que está presente aqui”, disse Joluzia Batista, do Centro Feminista de Estudo e Assessoria (CFEMEA). Para a ativista, a medida irá restringir o acesso de movimentos sociais à Câmara e cria uma “cortina de fumaça” para encobrir outras questões.

Uma das incomodadas com o estilo das mulheres que transitam pela Casa é a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), que propôs à Mesa Diretora a exigência de roupas sociais e a proibição do uso de decotes ou saias mais "ousadas". O primeiro-secretário da Mesa Diretora, Beto Mansur (PRB-SP), vai apresentar uma proposta para restringir o vestuário feminino. O parlamentar disse que vai se inspirar no "dress code" exigido em repartições do Judiciário e da iniciativa privada para definir as regras de vestimenta do público feminino que circula pelas dependências da Casa. Mansur diz que o objetivo da medida será combater os "excessos" e defendeu que se crie uma regra mínima.

Veja como foi o protesto:

 

As manifestantes disseram que encaminharão uma carta aos líderes partidários se posicionando contra a restrição. “Repudiamos qualquer tentativa de uniformizar a diversidade estética e identitária da população brasileira”, diz um trecho do documento. “Atores importantes para os debates que ocorrem nesta Casa usam vestimentas não contempladas na imposição institucional que ora se repudia”, afirma o texto, referindo-se a quilombolas, índios, ribeirinhos e seringueiros, entre outros.

Como a medida discutida pela Mesa Diretora também traz restrições ao público masculino, servidores engrossaram a manifestação trajando chapéus e calças jeans, itens proibidos pelas novas regras que ainda não entraram em vigor. 


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