Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Serviço ao imigrante em SP ganha reconhecimento da ONU ao acolher refugiados

O Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes já recebeu mais de 20 mil pessoas com atendimento especializado, multilíngue e gratuito

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2021 | 05h00

Viver no Brasil nunca foi o desejo do congolês Grevisse Kalala, hoje com 33 anos. Foi o horror da guerra que fez o engenheiro deixar a família e o trabalho em busca de refúgio e uma esperança de futuro, mesmo que a 8 mil quilômetros de sua terra natal. O ano era 2014 e o destino escolhido foi São Paulo, considerada, desde a semana passada, referência mundial no acolhimento a imigrantes.

Quando Kalala chegou, o principal serviço oferecido pela Prefeitura a estrangeiros ainda não tinha aberto as portas. A inauguração do Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (Crai), na região central, ocorreu alguns meses depois, no mesmo ano.

De lá para cá, a política de recepção e orientação criada pela gestão de Fernando Haddad (PT) foi ampliada pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) e, agora, na administração de Ricardo Nunes (MDB), reconhecida pela ONU como exemplo.

A continuidade do trabalho explica o sucesso. Desde a criação do centro, mais de 20 mil pessoas já receberam atendimento especializado, multilíngue e gratuito – por mês, a demanda aproximada é de 500 pessoas. O público é formado por imigrantes, pessoas em situação de refúgio e apátridas, bem como suas famílias, independentemente da nacionalidade ou situação imigratória.

Instalado em um casarão na Bela Vista, o Crai mais parece um espaço de convivência. Basta abrir a porta para notar que ali é território internacional. Na quarta-feira da semana passada, 10, Yelitza Diaz Perez, de Cuba; e Rebecca Dotse, de Benin (país de língua francesa da África Ocidental); estavam na linha de frente, fazendo a triagem dos recém-chegados.

Com um sorriso no rosto, possível de notar mesmo usando a máscara contra a covid-19, Rebecca dava as primeiras orientações. Assim como Yelitza e Kalala, ela é uma das imigrantes que de atendidas viraram atendentes do centro. 

A diversidade da equipe ajuda no trabalho de acolhida. O espaço presta atendimento em oito idiomas: português, inglês, francês, espanhol, lingala, creole haitiano, kituba e suaíli. Como diz Kalala, só quem é estrangeiro sabe o conforto que é poder conversar em seu idioma. “É uma felicidade”, afirmou o congolês, que aprendeu a falar português em apenas seis meses. 

“Acho que tive facilidade em aprender porque falava francês, um idioma mais próximo. Muitas coisas são próximas pra mim, como a música, a miscigenação do povo e a comida. Também comemos arroz com feijão no Congo, mas feito de outro jeito”, disse.

Naturalizado brasileiro desde 2020, Kalala é o gestor de atendimento do Crai. É ele que orienta os demais colegas a identificar as demandas trazidas pelos imigrantes e a melhor forma de resolvê-las. Na maioria das vezes, a busca principal é por documentação. 

“As pessoas querem saber como conseguir um CPF, onde tirar carteira de trabalho ou ainda como iniciar um processo de naturalização ou refúgio. “Além de prestarmos essas informações, também ajudamos a agendar os serviços e a preencher a papelada”, afirmou a técnica em educação e formação Thamara Marques Thomé, que atualmente é coordenadora substituta do serviço.

Segundo a bacharel em Ciências Sociais, um a cada quatro atendidos hoje é da Venezuela. “Também temos uma procura alta de angolanos, bolivianos e haitianos. Mais recentemente, houve aumento de e-mails enviados por afegãos pedindo informações. Desde 2014, recebemos pessoas de mais de 120 nacionalidades diferentes.”

O formato do Crai deveria ser copiado mundo afora, segundo o alto-comissário assistente de operações da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), Raouf Mazou. “A política local para refugiados praticada na cidade de São Paulo é inédita no mundo e deveria ser adotada por todos os países”, afirmou Mazou durante uma visita ao casarão da Bela Vista.

Mesmo antes do “selo de excelência” concedido pelo Acnur, o centro já despertava interesse de gestores estaduais de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Paraná. Kalala recebeu representantes desses Estados em busca de informações. “Para nós, é motivo de reconhecimento. A visita de Mazou também. Mostrou que aqui se faz política pública por imigrante e para imigrantes. E eu me sinto parte desse trabalho.” 

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