JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Morto com uma flechada de índio isolado, sertanista queria um Brasil preservado

Nos últimos meses, Rieli Franciscato, de 56 anos, tentava impedir um conflito entre índios isolados e não-indígenas em Rondônia

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 10h23

BRASÍLIA - Num vídeo feito recentemente na floresta de Rondônia, um integrante de uma expedição pergunta ao sertanista Rieli Franciscato qual o Brasil que ele queria para o futuro. Exausto após subir um morro, o paranaense de 56 anos – destes, 30 de serviços prestados à proteção de índios isolados na Amazônia –, hesita por um momento, diz que ainda está sem ar. Indígenas que o acompanham começam a rir. Ele olha, então, para a imensidão da mata abaixo e comenta: “O Brasil que quero é que isso aqui seja preservado não só para os índios, mas para toda população do entorno que é beneficiada pela reserva”.

O discurso pacificador de Rieli diante da câmera de Roberto de Barros Ossak, amigo e morador do município Seringueiras, tinha bases concretas. Na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau onde foi realizada a gravação, nascem rios que abastecem de água potável boa parte da população do Estado. Rieli estava ali para vistoriar a situação das aldeias isoladas que enfrentam uma ofensiva de grileiros e todos os tipos de invasores. Foi um índio isolado e acuado que, na tarde desta quarta-feira, 9, acertou o sertanista com uma flecha num sítio na divisa da reserva, no município de Seringueiras. Rieli não resistiu ao ferimento no tórax e morreu horas depois.

Como passou a fazer com muita frequência nos últimos meses, Rieli tentava impedir um conflito entre índios isolados e não-indígenas da região. Também estava preocupado com a possibilidade da pandemia da covid-19 atingir o grupo. Os isolados podem não suportar uma gripe de vírus comum. Em abril, a liderança indígena Ari Uru-eu-wau-wau, que denunciava extração ilegal de madeiras, foi assassinado com golpes na cabeça, em Jauru, também em Rondônia.

Reli coordenava a Frente de Proteção Etnoambiental Uru Eu Wau Wau, uma das unidades de proteção a aldeias de índios sem contato com não-indígenas na Amazônia. A precariedade da Fundação Nacional do Índio (Funai) era visível na ação. O sertanista não tinha assistentes – a onda de desligamentos no órgão só aumenta. Após receber uma notícia da presença de isolados no sítio, Rieli foi acompanhado apenas por dois policiais militares e um amigo. Os isolados reagiram com flechadas à chegada da missão indigenista. Os policiais e o amigo do sertanista conseguiram se proteger atrás da viatura. Atingido no tórax, Rieli foi levado ainda com vida para o hospital da cidade.

Um dos policiais contou em áudio o que ocorreu: "O Rieli começou a subir um morrinho assim, aí a gente só escutou o barulho da flecha, pegou no peito dele. Aí ele deu um grito, 'oi'... arrancou a flecha, e voltou para trás correndo. Ele conseguiu correr de 50 a 60 metros e já caiu praticamente morto".   

Num áudio divulgado pelo portal Amazônia Real, Rieli comentou com a amiga Ivaneide Cardozo ter recebido a informação da presença de isolados do Rio Cautário, um curso da reserva indígena, no sítio de Seringueiras. “Acabei de receber informação que os índios apareceram na (linha) 6 e vou ver essa situação. Não vou ter nem gente para colocar lá. O Clayton (servidor da Funai) está acamado. Possivelmente esteja com covid”, afirmou Rieli na conversa.

A eterna política do Estado de não reconhecer populações isoladas, o sucateamento atual da Funai e o discurso do governo de Jair Bolsonaro de incentivo ao desmatamento tornaram os sertanistas que ainda restam no País uma nova classe de acossados da floresta. São profissionais que tentam evitar o avanço da grilagem em mais de cem áreas da Amazônia Legal onde há registros de índios sem contato com não-indígenas.

Companheiro de décadas de Rieli, o sertanista Sydney Possuelo desabafou. “A circunstância  da sua morte demonstra o descaso e a irresponsabilidade do governo Bolsonaro em relação às questões indígenas que envolvem os índios e os funcionários das Frentes de Proteção Etno-Ambientais, que são a vanguarda dos trabalhos na selva", afirmou em nota. "A culpa é da incompetência dos que hoje orbitam em volta do presidente da Funai e do coordenador de Índios Isolados”, ressaltou. "Rieli pediu auxílio à polícia porque não tinha funcionários para acompanhá-lo."

Beto Marubo, membro da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, no Amazonas, é um integrante da nova geração de ativistas da floresta que aprendeu com Rieli atuar na defesa de comunidades sem-contato com não-indígenas. “Rieli foi um grande amigo e um grande professor”, disse. “Tudo o que sei de índios isolados foi ele quem me ensinou”, completou. “Trabalhamos por um bom tempo no Javari e na Madeirinha, em Mato Grosso.”

Em nota, a Funai informou que acompanha o caso da morte do sertanista. “Rieli dedicou a vida à causa indígena. Com mais de três décadas de serviços prestados na área, deixa um imenso legado para a política de proteção desses povos”, ressaltou o coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, Ricardo Lopes Dias. “A fundação lamenta profundamente a perda e manifesta solidariedade aos familiares e colegas do servidor. As equipes da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato e das Frentes de Proteção Etnoambiental se despedem de Rieli com carinho, respeito e admiração.” O delegado federal Marcelo Augusto Xavier, presidente da Funai, não tinha se pronunciado até o início desta manhã.

 

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