Serra vai a programa em que Ciro chamou ouvinte de 'burro' em 2002

Imagens e áudio do programa acabaram sendo usados na época pela campanha de Serra, que perderia a eleição para Lula

João Domingos, de O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2010 | 17h53

Transmitido ao vivo, com participação dos ouvintes por telefone, o popular programa de rádio do ex-prefeito Mário Kertész, ao qual o pré-candidato à Presidência José Serra (PSDB) deu uma entrevista nesta quarta-feira, 14, costuma ter cascas de banana. Foi nele que, em 2002, o então candidato a presidente pelo PPS, Ciro Gomes, chamou um eleitor de “burro”. Imagens e áudio do programa acabaram sendo usados na época pela campanha de José Serra, que perderia a eleição para Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Ciro estava em Salvador a convite do então senador Antonio Carlos Magalhães, que morreu em 2007. ACM, o então governador Cesar Borges e o senador Paulo Souto, todos do PFL, acompanharam Ciro ao estúdio de Kertész. ACM sofreu um massacre por parte dos ouvintes. Um atrás do outro arrasavam com a figura do velho chefe baiano. E provocavam Ciro, dizendo que ele andava em “péssimas companhias”.

 

Ciro foi ficando irritado com a situação. Perdeu de vez a paciência quando um ouvinte disse a ele que, pelas respostas, dava a impressão de que presidiria a Suíça, caso vencesse as eleições. "A Suíça não tem presidente da República, mas primeiro-ministro", respondeu Ciro, de pronto. E atacou, olhando para ACM, que balançava a cabeça em sinal de aprovação:  "São estes petistas furibundos. Isso é para você deixar de ser burro".

 

Acontece que o ouvinte estava certo e Ciro errado. O regime suíço, em vigor desde o século 19, diz que o presidente da Confederação tem um mandato de apenas um ano e toma posse todo o dia primeiro de janeiro. O presidente é escolhido entre os sete membros do Conselho Federal, que são eleitos a cada sete anos.

 

Na entrevista que concedeu este mês à revista Playboy, Ciro admitiu que errou ao chamar o eleitor de “burro”. Mas não fez menção ao erro histórico sobre a questão do presidente e do primeiro ministro.

 

Estratégia de campanha

 

A entrevista de Serra faz parte da estratégia de campanha que deve ser mantida até o fim da corrida eleitoral: viagens rápidas, com visitas a pontos de grande concentração de pessoas e entrevistas ao vivo a programas de rádio e TV populares, abordando temas locais.

 

"Esse modelo vai se repetir bastante durante a campanha", admite o deputado Jutahy Magalhães (PSDB-BA), um dos articuladores da campanha no Nordeste. "Não queremos repetir o modelo de reuniões políticas e discursos. Vamos fazer algo mais ágil, que mostre contato com a sociedade."

 

Serra seguiu à risca o modelo. Deu uma entrevista, no dia anterior à visita, à Rádio Sociedade, de Salvador. Na viagem, visitou a sede das Obras Sociais Irmã Dulce e o Mercado Modelo. À noite, deu mais uma entrevista, à Rádio Metrópole. Só não conseguiu ser pontual em todos os eventos porque a forte chuva atrapalhou: o avião no qual chegou ficou sobrevoando a cidade por meia hora e o traslado entre o mercado e a rádio durou uma hora e 20 minutos - o normal seria em torno de 30 minutos.

 

Tanto nas entrevistas quanto nas visitas, Serra repetiu os mesmos temas - com as mesmas frases: que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve pontos positivos, mas que o que está sendo discutido "é o futuro, não o passado"; que "o Brasil pode mais", em especial nas áreas de saúde, segurança e da criação de emprego, e que a campanha eleitoral foi muito antecipada - e só vai "pegar" depois da Copa do Mundo. "Eu mesmo vou ficar envolvido com a Copa", disse.

 

Todos os tópicos eram direcionados à realidade baiana - citou os 25% dos jovens de Salvador que não estão empregados, por exemplo.

 

Quando a conversa desviava do "script", o presidenciável não disfarçava o desconforto. "Vocês não querem falar sobre a Bahia, mesmo?", perguntou a jornalistas, por exemplo, durante uma entrevista coletiva na qual o principal tema era a formação das alianças para a eleição.

 

Ao vivo

 

No caso da entrevista à Rádio Metrópole, conduzida pelo o radialista e ex-prefeito da cidade (entre 1979 e 1981 e de 1986 a 1989) Mário Kertész, porém, o roteiro teve de ser quebrado. Depois das perguntas "protocolares" - sobre o histórico político de Serra, por exemplo -, o programa foi aberto para perguntas feitas por ouvintes.

 

Para responder aos ouvintes, Serra teve de falar, por exemplo, sobre a situação do ex-ativista italiano Cesare Battisti. "A Itália é uma bela democracia e um Estado de Direito, então, se ele foi condenado em um processo legal, ele deveria ser devolvido à Itália."

 

Na entrevista, Serra também falou sobre a pesquisa Sensus, que mostrou empate técnico entre ele e a pré-candidata petista, Dilma Rousseff. "Achei natural a subida da Dilma, ela era desconhecida e passou a ser mostrada, mas não comento pesquisa", disse. "Eu não fiz campanha prévia, eu cumpri a lei. Trabalhei fortemente até o último dia no governo de São Paulo, porque fui eleito para isso."

 

Atualizada às 21h39

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