Serra tem fama de rigoso e "descascador de abacaxis"

José Serra tem experiência em descascar abacaxis. Aprendeu ainda na infância, quando ajudava o pai, imigrante italiano, na banca em que vendia a fruta, no Mercado da Cantareira. Adaptou o método na política: ganhou fama de "descascador de abacaxis". Também é conhecido como executivo resolutivo, criativo e rigoroso. Os amigos de longa data lhe atribuem dois méritos: uma sólida formação intelectual e uma inesgotável vontade de fazer coisas. "Ele já nasceu com a idéia da participação política", diz Benedito Nicotero, o Tota, que o sucedeu na União Estadual dos Estudantes, em 1963, quando Serra foi eleito presidente da UNE. "No exílio, no Chile, vimos que ele é extremamente generoso e solidário", menciona a ex-primeira-dama Ruth Cardoso. Princípios"É um político racional e de princípios rígidos", afirma o deputado Aloísio Nunes Ferreira Filho. "Estamos juntos até hoje", assinala o ex-deputado carioca Marcelo Cerqueira, que era seu vice-presidente na UNE e fugiu com ele no golpe de 1964."É um patriota, um homem de ideais", afirma a renomada atriz Beatriz Segall, que escondeu Serra em sua casa, em 1965, quando ele voltou clandestinamente ao Brasil para tentar reorganizar a Ação Popular. "É um homem muito correto e muito aplicado na preparação acadêmica", diz Armênio Guedes, antigo líder comunista que conviveu com ele no Chile. "Além de bom amigo, é afetuoso e familiar", conta outro amigo, o ex-embaixador Andrea Matarazzo.Apesar de relativamente jovem, 62 anos, é um dos políticos brasileiros há mais tempo em atividade; a despeito de pertencer a um partido social-democrata, tem forte marca ideológica de esquerda; esteve preso no aterrador Estádio Nacional de Santiago em 1973 e foi perseguido pela ditadura militar brasileira.No meio político, ganhou fama de mal-humorado. Mas quem o conhece de perto afirma que a fama não é justa e alegam que ela decorre da aversão de Serra ao assédio de políticos clientelistas. Segundo eles, antes de ser antipático, Serra é um negociador difícil de enfrentar. E alinham argumentos para mostrar por que, na arena política, ele é duro de enfrentar: 1) tem uma sólida formação intelectual; 2) tem uma memória prodigiosa; 3) argumenta bem; 4) defende encarniçadamente suas posições; 5) resiste bravamente a fazer concessões políticas em troca de apoio.Tudo isso junto lhe assegura um forte poder de persuasão, mesmo contra adversários, diz Aloísio. Matarazzo completa: "Ele se prepara muito para defender suas posições e as defende com alma. Fica difícil ganhar dele nas discussões políticas."ClientelismoSerra ganhou consistência de político sério, mas muita gente o acusa de ser pouco concessivo. Não é dado a aceitar nomeações e favores em troca de apoio político. Assim foi no Ministério do Planejamento e no da Saúde, onde recusou todos os pedidos para cargos-chave da Fundação Nacional de Saúde e para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. "Se eu nomear, a política do governo perde o rumo", justificava. A fama de durão lhe restringiu apoios, como aconteceu na eleição presidencial de 2002.Além disso, é direto, o que às vezes reforça a fama de antipático. Em 1963, então presidente da UNE, com 21 anos de idade, discursou em um comício para criticar o presidente João Goulart, que estava a seu lado. Foi o mais jovem a falar no famoso Comício das Reformas, no Rio de Janeiro, em março de 1964.Muito tempo depois, manteve o estilo: ninguém criticou mais as políticas cambial e de juros da primeira fase do governo FHC do que ele, que era ministro. Os amigos também destacam sua capacidade de manter o foco dos objetivos. Lembram que, na Constituinte de 1988, foi o deputado que teve o maior índice de aprovação de emenda - 130 das 208 que apresentou. Ressaltam ainda que, no Ministério da Saúde, comprou brigas ingratas de sustentar - medicamentos para aids, a quebra das patentes, genéricos - e ganhou todas.A despeito da resistência que costuma encontrar à esquerda e à direita, sempre foi cotado para cargos de primeira linha. Começou como secretário de Economia e Planejamento do governador Franco Montoro, em 1983. Em 1989, foi convidado a assumir o Ministério da Fazenda pelo então presidente Fernando Collor, mas recusou; depois do impeachment, que apoiou, Itamar Franco também o queria no Ministério da Fazenda, mas prevaleceu o veto do PMDB, que ele tinha trocado pelo PSDB.CinemaA leitura é uma obsessão de Serra. E cita de memória trechos inteiros de romances e tratados econômicos. "Ele compra mais livros do que pode carregar. Acaba distribuindo para os amigos", diz Tota, que menciona outro prazer de Serra - um bom vinho e um bom prato, principalmente da cozinha italiana.Sua aversão mais conhecida é a cebola e alho. Como pode um filho de italianos calabreses de Cosenza ter aversão a cebola e alho? Tota dá uma pista: quando Serra era menino, a família morava numa casa muito pequena, no Ipiranga. Ele tinha de estudar - e estudava muito - na cozinha, que recendia a cebola e alho, que o pai, Francesco, adorava. A cozinha, a primeira sala de estudos de Serra, era uma câmara de aroma de cebola e alho.Mas gosto mesmo Serra tem por cinema. Cinéfilo compulsivo, sabe títulos de filmes e nomes de diretores, atores, roteiristas, em especial do neo-realismo italiano. "É o assunto que mais o mobiliza, fora da vida pública", subscreve Ruth Cardoso. "Muitas vezes ele nos empresta fitas de filmes antigos."AllendeEle assistiu a um filme de horror no Estádio Nacional de Santiago, para onde foi levado, em companhia de milhares de esquerdistas, após o sangrento golpe militar que matou o presidente Salvador Allende. Casado com Mônica Allende, prima do presidente assassinado, Serra era um prisioneiro visado pelos golpistas."Ele teve muita coragem e serenidade, que, aliás, salvaram sua vida", garante hoje Ruth Cardoso. Serra saiu do Estádio Nacional por pressão da embaixada italiana e foi fazer doutorado na Cornell University. O exílio, depõem os conhecidos, não deixou-lhe amargor; antes, foi oportunidade para aprender a se expressar em várias línguas e lhe deu uma ampla dimensão de mundo.Mesmo assim, não perdeu suas raízes. Filho único, todo domingo, chova ou faça sol, vai visitar a mãe Serafina e as tias Carmelita e Teresa, que até hoje moram na Mooca.

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