Serra promete baixar taxas que Marta aumentou

Em sua primeira entrevista depois de indicado candidato à Prefeitura de São Paulo, o presidente do PSDB, José Serra, disse que as taxas municipais são altas e garante que, se for eleito, vai reduzi-las. Para ele, o problema da administração paulistana não é de dinheiro, mas de competência e criatividade. Num primeiro momento não quis dar nota para os governos Lula e Marta, embora seja professor. Acabou dizendo que daria para os adversários menos do que a nota média de uma pesquisa que está em mãos do PSDB (na qual Lula recebeu 4,7).Ele entende que o enfrentamento entre PT e PSDB na eleição municipal de São Paulo vai ser um confronto entre duas formas de governar diferentes. De um lado, o PSDB, que ?não apenas quer a mudança, mas sabe como fazê-la?; do outro, o PT, que, a seu juízo, não consegue definir o que é prioritário e o que não é. ?Para eles, tudo é prioritário, logo nada é prioritário.? Serra vai começar a estudar agora seu programa de governo, mas já antecipa que nele saúde e transportes serão prioridades absolutas.Estado ? O senhor sabe onde fica Sapopemba?José Serra ? (risos) Sapopemba nem é tão longe assim. Lembre-se de que eu nasci e morei no alto da Mooca. Então, para mim, Sapopemba é perto.Estado ? Não é paradoxal que o PT, um partido dito operário, tenha uma candidata do Jardim América, e o PSDB, um partido dito das elites, tenha um candidato da Mooca, um bairro operário?Serra? O PSDB não é bem um partido das elites, mas eu acho normal. Ser dos Jardins ou da Mooca não muda muito. O que conta mesmo é a biografia.Estado ? Quando o senhor decidiu ser candidato?Serra ? Fui amadurecendo aos poucos e a decisão foi tomada no último fim de semana. Inicialmente, eu não queria me candidatar porque a campanha de 2002 foi muito intensa e estressante. Depois do ano em Princeton, nos EUA, escrevendo, fazendo palestras, quando voltei ao Brasil pretendia ter um ritmo mais leve. Mas passei a receber muitos estímulos do partido, de amigos e até de pessoas anônimas. Sexta-feira passada eu estava em Vitória com o prefeito Vellozo Lucas e, enquanto tomávamos um café, várias pessoas pararam para pedir que eu fosse candidato em São Paulo. Por outro lado, enfrentar o desafio de administrar a cidade me preenche muito, até pelas dificuldades. Eu sempre gostei de enfrentar desafios. O último deles foi o Ministério da Saúde, a área mais difícil do governo federal.Estado ? As denúncias contra Maluf tiveram algum peso na sua decisão?Serra ? Não. Eu sempre tive como certo que Maluf seria candidato.Estado ? Há pouco tempo o senhor era muito refratário à idéia de se candidatar.Serra ? Eu apenas dizia que não era candidato. No Brasil, se alguém te pergunta se você é candidato e você diz ?vou pensar?, no dia seguinte a manchete é ?Serra é candidato?.Estado ? Sua entrada na campanha dá uma característica de plebiscito à eleição municipal, não é mesmo?Serra ? Os fatores locais são preponderantes. Não passa pela minha cabeça que a eleição possa ser decidida em função de questões nacionais.Estado ? Não se trata de discutir questões nacionais, mas de contrapor estilos e formas de governar.Serra ? Isto sim. A idéia de que o PSDB tem uma forma de governar que se contrapõe ao PT, aí, sim, isso vai acontecer em São Paulo. Nós defendemos a idéia de que não se pode prometer qualquer coisa para ganhar votos, que o candidato deve ter coerência de dizer o que faz, de não apenas querer a mudança, mas saber como fazer a mudança, de fazer uma administração criteriosa, do ponto de vista financeiro e das prioridades de investimento. O PT é um partido que tem problemas com seu passado; o PSDB, não. Não é que tenhamos acertado sempre, mas os acertos e erros estão aí para serem julgados. Nós até achamos que acertamos mais do que erramos. Já o PT renegou seu passado, menos uma idéia ? a de que, para ele, tudo é prioritário. Como tudo é prioritário, nada acaba sendo prioritário, basta olhar as administrações do PT. É até difícil analisar padrão de gastos, não apenas porque não conseguiu gastar, como no caso federal, mas porque você olha para a cidade e não vê qual é o foco, a prioridade. Tudo é prioritário, logo, nada é prioritário.Estado ? O senhor já tem um rumo para São Paulo?Serra ? É o rumo da competência administrativa, de definir prioridades com clareza, de recuperar a área social, de dar um norte para o desenvolvimento do sistema de transportes, que é um problema principal da área de convivência da cidade. E criar as possibilidades para que a cidade encontre seu caminho para o desenvolvimento, para a multiplicação de empregos.Estado ? O senhor acha que as obras viárias que a Prefeitura está tocando não amenizam o problema dos transportes?Serra ? Podem amenizar a curto prazo, para se reproduzirem logo depois. O foco aqui tem de ser o Rodoanel, o metrô, em cooperação com o governo do Estado. Não é possível que o município se afaste da responsabilidade de participar dessas obras definitivas. O Rodoanel é vital para desafogar a cidade.Estado ? E quanto às taxas?Serra ? Isso vai merecer da nossa parte uma revisão. Vamos ter proposta clara nesse sentido.Estado ? O senhor acha que os paulistanos pagam muitas taxas?Serra ? Não há dúvida. O Brasil está no limite da carga tributária, mas no caso de São Paulo fica mais claro que o aumento de imposto não retornou proporcionalmente como benefício.Estado ? O PSDB critica muito o governo, dizendo que o PT não tem um projeto de país. O que é um projeto de país ou, no caso, um projeto de cidade?Serra ? De fato, no governo Fernando Henrique o Brasil tinha um projeto de país ? estabilizar a economia, mudar as formas de atuação do Estado, armar uma grande rede de proteção social e ajustar o País às condições de competição que a globalização exige. O PT chegou lá com um projeto de campanha, que era difícil de sintetizar, abandonou-o e não adotou nenhum outro.Estado ? Pelo menos na área econômica o governo do PT adotou o projeto de Fernando Henrique...Serra ? Nem isso, porque a política econômica do governo Fernando Henrique vinha se desenvolvendo ao longo do tempo e não estaria agora na etapa em que a política econômica de Lula está. Eles retomaram a agenda antiga. O governo deixou de baixar juros quando era possível baixar e a redução não provocaria nenhuma perturbação na economia, e ainda sobrecarregou as exigências de superávit primário. E isso numa conjuntura internacional excepcional.Estado ? O senhor concorda com o senador Arthur Virgílio, que convidou Lula para fazer campanha em São Paulo?Serra ? Arthur Virgílio tem mais liberdade do que eu para fazer esse convite.Estado ? Se Lula entrar na campanha em São Paulo ajuda mais a Marta ou a Serra?Serra ? O PT é que tem de avaliar. A performance do governo federal não vai ser ignorada numa cidade do tamanho e da importância de São Paulo.Estado ? Que nota o senhor daria para o governo Lula e que nota daria para a prefeita Marta?Serra ? Eu não gosto de dar notas. Eu prefiro olhar as notas que as pessoas dão. Numa pesquisa que nós temos, o governo Lula teve uma nota média de 4,7.Estado ? O senhor concorda ou discorda?Serra ? Eu daria até uma nota mais baixa.Estado ? E para o governo Marta?Serra ? A mesma nota.Estado ? O senhor acha que os dois governos são parecidos?Serra ? Têm muitas coisas semelhantes. A falta de prioridades, por exemplo, é a mais grave semelhança. Estado ? O senhor foi ministro da Saúde. Como anda a saúde em São Paulo?Serra ? É óbvio que a saúde andou para trás. Piorou o programa de distribuição de medicamentos, o programa de saúde da família foi estancado, as entidades que estavam intermediando o projeto reclamam... E o mais grave é que as condições para andar para a frente são extraordinárias. Dinheiro não falta. É um caso típico da falta de prioridades.Estado ? Se o senhor for eleito, vai depender, durante dois anos, do governo do PT para conseguir verbas para obras que o senhor considera importantes, como o Rodoanel e o metrô. Acha que vai conseguir?Serra ? Quando eu fui secretário de Planejamento de São Paulo convivi com o governo Figueiredo por dois anos. Se não tive problemas com um governo da ditadura, não acredito que na Prefeitura tenha problemas com um governo eleito democraticamente.Estado ? Mas o governo cassou o visto de um jornalista estrangeiro.Serra ? É a chamada doutrina do tiro no pé. Você vê uma casca de banana do outro lado da rua, atravessa a rua e pisa em cima.Estado ? O governo lida mal com as crises?Serra ? O governo e o PT têm dificuldade de reagir de maneira equilibrada diante de crises ou pressões. No governo Fernando Henrique as crises entravam no Palácio do Planalto de um tamanho e saíam menores. No governo do PT elas entram de um tamanho e saem bem maiores. Diante de um problema, eles agem de duas formas: procuram bodes expiatórios e elevam as pressões.Estado ? O senhor está preocupado com os rumos do governo?Serra ? O governo não está em queda livre, está em mergulho livre. Há uma deterioração muito rápida. É até surpreendente sua incapacidade em enfrentar dificuldades e tensões normais a qualquer governo.Estado ? O senhor não vê possibilidades de uma guinada populista?Serra ? Se houver, será pior. Eles estão diante de um paradoxo: a política econômica existente é ineficiente, mas eles não sabem como mudar. Considerando as expectativas sobre a economia brasileira, não há condições de uma guinada, muito menos uma guinada populista. O povo não quer milagres, quer oportunidades e coerência na administração pública, constata José Serra, candidato do PSDB à Prefeitura paulistana. A despeito de seus muitos anos como parlamentar, diz que administrar é sua maior paixão. Administrar São Paulo é um caso especial: ?Esta cidade é minha vida.? Assegura que, se ganhar, vai ficar quatro anos na Prefeitura.Ele afirma que o PSDB está à esquerda do PT. Ele insiste na tecla de que o PT não tem projeto de País e pratica ?bolchevismo sem utopia?. Para ele, os dois partidos se distanciaram por causa da oposição na base do ?quanto pior, melhor?, que o PT teria praticado contra o governo Fernando Henrique Cardoso.Estado ? Que projeto de cidade o senhor vai propor na campanha?Serra ? Melhorar a vida na cidade, dar uma perspectiva às pessoas, melhorar as condições de diálogo, de aproximação, de verdade. O povo não quer muita coisa: quer oportunidades e um governo que o respeite. As pessoas não esperam milagres. Esperam coerência por parte da administração pública, que as suas oportunidades aumentem ao longo do tempo. Quando olho do passado e vejo a cidade hoje, vejo que muita coisa se perdeu. Eu nasci e cresci num bairro operário e pude chegar à universidade graças a uma escola pública decente, a oportunidades de trabalho, uma certa segurança nas condições de vida da cidade. Nós precisamos devolver isso a São Paulo e a Prefeitura tem papel fundamental. Basta a Prefeitura? Não. É preciso ter também o governo do Estado ? e nós temos um bom governo. A parceria fará uma enorme diferença.Estado ? O senhor fala muito no centro da cidade. O que pretende propor para lá?Serra- Sempre fui um partidário fanático de recuperar o centro. Quando o prédio dos Correios foi esvaziado, eu sugeri a Mário Covas que transferisse repartições para lá. Em seu mandato, o governador Geraldo Alckmin já transferiu algumas secretarias. É um projeto que exige mais dedicação e criatividade do que dinheiro. O centro tem excelentes prédios, dotados de bela estética. Eu sempre sonhei em recuperar as antigas salas de cinema que permaneceram, inclusive para transformá-las em teatros. Isso teria importância do ponto de vista econômico, das oportunidades de lazer e da qualidade de vida.Estado ? O senhor se sentiria à vontade na Prefeitura?Serra ? Eu fui deputado, senador, acho que fui um bom parlamentar, hoje sou presidente do partido, mas eu tenho paixão mesmo é por administrar. Considero que é o meu forte na vida pública até agora. E no caso de São Paulo eu tenho um gosto muito especial porque esta cidade é minha vida.Estado ? O senhor acha que essa campanha vai ter promessas que não poderão ser cumpridas?Serra ? A vitória do PT na eleição presidencial trouxe algumas vantagens para o País. Uma é a dificuldade de que candidatos vendam sonhos impossíveis e, mais adiante, entreguem frustrações. Uma coisa é passar esperança, outra é vender ilusões. Nesse sentido, o que aconteceu na campanha presidencial tem esse aspecto positivo.Estado ? O senhor já tem grupo de trabalho formado?Serra ? Já existe um grupo de cem pessoas que vem trabalhando há alguns meses no programa do PSDB para São Paulo. Ontem (quinta-feira) eu já tive uma reunião de trabalho com os vereadores do partido. E todos sabem que a nossa bancada na Câmara é muito preparada.Estado ? Por que o PSDB e o PT, que têm aspectos ideológicos e programáticos semelhantes, acabaram em lados opostos?Serra ? Os conceitos de direita e esquerda hoje são muito mais complexos do que no passado. Genericamente se diz que a esquerda é a favor da inclusão social e a direita não incorpora esse conceito. Segundo esse conceito, o governo do PT está à direita do PSDB. Os governos do PT incluem bem menos, além de não terem um projeto de desenvolvimento para o País ou para as cidades que governam. Um exemplo é a idéia, defendida por eles, de que o crescimento econômico vai ser puxado pelo capital estrangeiro. É uma idéia ingênua. O capital estrangeiro entra quando as coisas vão bem e vai embora quando as coisas vão mal. É um elemento pró-cíclico, não puxa o ciclo. Então, o PT engoliu e esposou como sua a tese mais tradicional que a direita brasileira formulou, do ponto de vista econômico.Estado ? E ideologicamente, há diferenças gritantes? Serra ? O PT nasceu como um partido de esquerda ortodoxa, com conotações de natureza bolchevique, que mantém até hoje. Daí minha observação de que o PT, na verdade, pratica um bolchevismo sem utopia. A utopia era o lado bom do bolchevismo. Essa questão sempre dificultou aproximações. Foi ela que gerou a oposição ?quanto pior, melhor?, que cavou um fosso entre nós. Agora, a inépcia administrativa, a quebra da aura ética para quem se julgava um zeloso guardião da ética, tudo isso são questões que vão nos afastando. Mas há mais. Não vou citar nomes, mas eles se aliaram com o que tem de mais atrasado e com uma forma de dependência que nunca chegou nas franjas do governo Fernando Henrique. Por fim, têm feito uma cooptação na troca de cargos, coisa que vinha melhorando e, de repente, sofreu uma reversão terrível.Estado ? Suponhamos que no segundo turno sobrem Serra e Marta. E Maluf, com seus 20% de votos, fica fora. O senhor pediria apoio a Maluf?Serra ? Minha experiência é que o eleitorado no segundo turno não se orienta por lideranças. Eu constatei que os índices de rejeição dos dois são parecidos e equivalem a três vezes o meu, embora haja um nível de conhecimento semelhante, por parte do eleitorado. Então são situações diferentes.Estado ? O senhor é candidato a governar São Paulo por dois, quatro ou oito anos?Serra ? Para governar por quatro anos, que é o mandato de prefeito. Tenho uma posição, que é pessoal, nem é do meu partido, de que não deveríamos ter mais reeleição para prefeito, governador e presidente. No caso de presidente, o mandato seria de cinco anos.

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