Serra garante que, eleito, ficará 4 anos como prefeito

O ex-senador José Serra disse que o cargo de prefeito da maior cidade do País é mais um desafio que se dispôs a enfrentar em sua carreira política e deixou claro que, se vitorioso, irá cumprir integralmente o mandato. Entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, ele foi textual: "No momento que eu decidi ser candidato, fica implícito, é óbvio, que eu vou ser prefeito quatro anos. E isso não é uma diminuição, porque São Paulo é uma cidade imensa, a maior do Brasil, e eu disse que é a mais brasileira das cidades, porque aqui há gente de todo o Brasil trabalhando."Sobre a sucessão presidencial, em 2006, o ex-ministro da Saúde disse que o PSDB saberá escolher um candidato, já que não lhe faltam nomes, nomeando entre eles os dos governadores Geraldo Alkmin e Aécio Neves, e do senador Tasso Jereissati. E se Fernando Henrique Cardoso entraria nessa lista, respondeu: "Sem dúvida. O PSDB talvez é o partido que tem menos problemas de escolher um bom nome para 2006."AliançasSobre se está buscando aliar-se a outros partidos para a disputa municipal, Serra revelou que o PSDB provavelmente fará coligações, abrindo mão do candidato a vice. "Nós temos interesse, evidentemente, de conversar neste sentido (com outros partidos). Mas não há, até agora, nada definido." Ele só descartou a possibilidade de obter o apoio, já no primeiro turno, da ex-prefeita Luiza Erundina, do PSB. "Ela é candidata, foi prefeita e tem toda a condição de disputar a eleição. Jamais falaria com a Luiza Erundina para demovê-la. Não é só um direito formal, mas inclusive um direito político de ela se apresentar para a eleição."A gestão MartaO presidente nacional do PSDB fez uma avaliação cáustica do governo de Marta Suplicy, acentuando que as receitas da Prefeitura tiveram um aumento real de 30%, descontada a inflação. E, no entanto, esse dinheiro não serviu para equilibrar as finanças municipais. "A relação dívida-receita, ou seja, o que ela deve e o que ela arrecada, saltou de 2,2 vezes para 2,9 nestes quatro anos. Para Serra, apesar do aumento dos impostos e da criação de novas taxas, ao contrário de reduzir, a prefeita conseguiu aumentar o déficit dos cofres municipais, e aumentou o déficit social, especialmente na área da Saúde. "Uma pessoa precisa ter talento para fazer isso."Por quê ser prefeitoSobre seus motivos para aceitar a candidatura, Serra disse que a razão principal foi a de poder ajudar as pessoas. "Se você está na vida pública, você tem que enfrentar os problemas das pessoas, que parecem pequenos para quem não os sofrem". Como exemplo, citou as enchentes, o transporte público, a falta de escola, de emprego, de hospitais e de iluminação nas ruas. Ele lembrou que, em todas as funções públicas que ocupou, sempre teve em vista os problemas concretos das pessoas. Serra explicou que não pretende interromper obras municipais em andamento, e a uma pergunta sobre se demoliria o "Minhocão" - o elevado de concreto que liga as zonas oeste e leste de São Paulo, construído na primeira gestão de Paulo Maluf, e que deteriorou vasta região da capital - sua resposta foi negativa. Disse que sua proposta é pela construção de dispositivos que absorvam e isolem o barulho dos veículos que por lá transitam, e pela recuperação e urbanização de suas partes inferiores. "Não tem porque continuar dessa maneira", afirmou, lembrando o exemplo de Buenos Aires, cujas vias elevadas não enfeiaram e nem degradaram o ambiente. "Você quando está num cargo executivo, você precisa não destruir aquilo que foi feito, porque custa mais caro. A gente pode ter uma ação coerente, serena, equilibrada, mas que faça as coisas funcionarem melhor."O PSDB e o governo LulaDurante a entrevista, Serra ressaltou por várias vezes que o PSDB não faz uma oposição ao governo Lula como o PT fez durante os oito anos do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, base do "quanto pior, melhor". Mas não poupou o atual governo de críticas, enfatizando sua falta de programas e de rumos e do aparelhamento partidário da máquina estatal. Para ele, ou o PT cumpre o que prometeu em campanha, ou a eleição de 2002 foi uma fraude, já que o eleitorado foi iludido em sua boa fé, ao votar na oposição sob a promessa de novos e melhores rumos para o Brasil. "Nós fazemos uma oposição que fiscaliza, que critica com transparência, mas ao mesmo tempo faz propostas e, inclusive, vota em questões que considera que são a favor do Brasil."Erros e virtudes de LulaSegundo Serra, o maior erro de Lula foi de, vencida a eleição, não ter introduzido um modelo minimamente coerente. "Qual a maior virtude? Talvez as boas intenções, porque má intenção (Lula) não tem."O derrotado candidato à sucessão presidencial de 2002, lembrou que, quando do único debate pela televisão que teve com Lula, já no segundo turno, dissera que o PSDB era quem representava a esquerda brasileira, por defender pôr em prática políticas de inclusão social. E que, hoje, está vendo comprovada sua afirmação. "Se você olhar desse lado (da inclusão social), o PSDB está à esquerda do PT."Política econômicaCrítico da política econômica adotada pelo governo Lula, Serra acentuou que o País deixou de aproveitar, no ano passado, o excepcional momento vivido pela economia mundial, e errou gravemente na política de juros. "O Brasil não aproveitou, quando podia, e agora vai ficando mais complicado." E perguntou por que o PT não mudou a política de FHC, que tanto criticava? "O povo elege um governo para o governo mudar as coisas, para resolver os problemas. Ele não elege para que continue olhando no espelho retrovisor, voltado para o passado. O Brasil, e eu dizia isso, e continuo afirmando, tinha grandes possibilidades de retomar o crescimento sustentável, firme, a partir de 2003. Não aconteceu. Ficar olhando para trás, e se desentender nas coisas que tem de fazer, é uma postura que acaba não evoluindo. Vou dar um exemplo: desvincular o salário mínimo das aposentadorias do INSS, é uma idéia, a meu ver, que não tem nem pé, nem cabeça. E nem praticidade."O futuro de LulaSobre suas previsões sobre o futuro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Serra disse que o governo não está em queda livre, mas em mergulho. "Pode até acontecer com o Lula de ele não ter condições políticas e viabilidade eleitoral para se candidatar à reeleição. É uma hipótese, não quer dizer que isso vai acontecer. Eu acho que, do jeito que as coisas vão, pela taxa de desgaste que tem acontecido, pode ser até que ele (Lula) não tenha condições de se candidatar, porque a derrota será uma coisa praticamente inevitável."

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