Serra evita atacar Lula, mas já formata discurso para 2010

Governador trata de temas que vão de política industrial a aparelhamento do Estado

Luciana Nunes Leal, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

O tom é professoral. Às vezes tem uma dose de bom humor e, quase sempre, referências pessoais e profissionais. Se está inspirado, conta casos da juventude, da família, dirige-se à plateia. Em outros momentos, sem sorrisos, se restringe ao assunto que o levou a determinada solenidade. É no conteúdo dos pronunciamentos mais recentes, porém, que o governador José Serra (PSDB) começa a construir o discurso para as eleições de 2010. Embora insista que não há definição sobre candidatura à reeleição ou à Presidência da República, o tucano escolhe os temas que levará ao palanque.Mudança radical na política industrial, ataque ao aparelhamento do Estado no governo do PT, preocupação com meio ambiente e sustentabilidade e o já famoso "ativismo governamental" estão entre os assuntos que o governador e futuro candidato quer pôr em discussão. Críticas diretas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva - que mantém a popularidade em alta, apesar do desgaste dos aliados - praticamente não existem. E cobranças dirigidas ao governo federal são acompanhadas de comparações com a administração tucana de Fernando Henrique Cardoso e seus ministros, entre eles o próprio Serra.O site do governo paulista reproduz 52 discursos entre 1º de junho e 27 de agosto. Na sexta-feira, dia 28, foram mais três, dois em Praia Grande e um em Hortolândia. No portal são incluídas apenas as falas do governador em compromissos oficiais . Não estão lá as participações em compromissos partidários, como o discurso feito no Congresso Nacional do PPS, no dia 7 de agosto, no Rio, onde estavam também o governador tucano Aécio Neves, de Minas Gerais, e lideranças do DEM e do PV. Na ocasião, Serra traçou um roteiro de temas cruciais para o discurso da oposição na disputa presidencial de 2010. Um dos pontos mais importantes foi a necessidade de uma política industrial que vá além do cenário atual, onde predomina a exportação de produtos primários. Mesmo sem detalhar propostas objetivas, o governador deixou clara a insistência no estímulo aos setores secundário e terciário, com valorização da indústria e também estímulo à qualificação profissional para ocupação de empregos em serviço e tecnologia. Em 2010, o eleitor vai ouvir a pregação no palanque tucano. "O Brasil está caminhando a passos largos para voltar a ser uma economia primária exportadora. Anterior a 1930. Commodities, minério de ferro, aço, petróleo. Não é isso que vai desenvolver o País." Também haverá comparação com outras economias. "Os dois países que estão se saindo melhor nessa crise - Índia e China - têm políticas nacionais de desenvolvimento. Não ficam só no oba-oba, não ficam só no jogo de otimismo. O Brasil não pode renunciar a ser um país industrial", ensaiou Serra no encontro do PPS. CARGOSA distribuição de cargos por critérios mais políticos do que técnicos é outro tema que o governador aborda com frequência. Serra fala em "estatizar o Estado". "O Estado brasileiro está sendo privatizado. É uma privatização espúria e nefasta", atacou, no Rio. Duas semanas antes, na Associação Comercial de São Paulo, a crítica foi a mesma, com exemplo concreto. O governador falou em medidas de profissionalização dos cargos de confiança e citou sua passagem pelo Ministério da Saúde (1998 a 2002). "O exemplo que me ocorre é o da Funasa, onde, para indicação dos coordenadores estaduais, a partir de uma determinada época, era necessário que eles preenchessem determinados requisitos de qualificação, coisa que foi revogada no segundo, no quarto mês do governo Lula, para que de novo a Funasa virasse um mercado persa que virou."O aparelhamento do Estado, assim como o alinhamento de sindicatos e da União Nacional dos Estudantes (UNE) - presidida por Serra de 1963 a 1964, até o golpe militar - ao governo petista, são críticas prontas. "O movimento estudantil era diferente, não era oficialista como é agora", discursou Serra em Salvador, no dia 10 de agosto. Na semana anterior, o governador fez provocação semelhante. "Sou do tempo que a UNE era independente." Na sexta-feira passada, elogiou a "independência" da União Geral dos Trabalhadores, UGT, durante encontro da central sindical em Praia Grande. "Não é que eu não goste de sindicalistas. Me considero um aliado dos bons sindicalistas", disse a uma plateia de cerca de 500 trabalhadores. Há, porém, um discurso ainda em construção, o do meio ambiente. Com a saída da senadora Marina Silva (AC) do PT e a possibilidade de disputar a Presidência pelo PV, o tema tornou-se inevitável. Até agora, Serra tem citado experiências de sua gestão. É recorrente o exemplo do protocolo firmado com produtores de cana que antecipou de 2031 para 2014 a meta do fim das queimadas geradas na colheita. Ele citou a medida em pelo menos três discursos, entre os dias 1º de junho e 23 de julho. Também fala com frequência a lei estadual antifumo, a mais rigorosa do País, não só pela preocupação com a saúde, mas com a qualidade ambiental. O governador fala em sustentabilidade, mas ainda não apresenta diagnósticos e planos para o meio ambiente em nível nacional, como faz com outros setores. "O meio ambiente é uma coisa que chegou para ficar. Sempre foi fundamental, mas não se dava bola para isso", disse Serra na sexta-feira, ao lado do prefeito petista de Hortolândia, Ângelo Augusto Perugini, durante inauguração de uma estação de tratamento de esgoto. "O tema em que estamos trabalhando e que interessa mais ao Serra é como se constrói a nova economia, é a transição para uma economia com desenvolvimento e sustentabilidade. Todo mundo é a favor do desenvolvimento sustentável, mas ninguém sabe como fazer. Dois temas inevitáveis são o pacto para a Amazônia e a agricultura", diz o secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo, Xico Graziano. Para o cientista político Marcus Figueiredo, do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), especializado em Comunicação Política, Serra "está nitidamente construindo um discurso e testando temas, para saber qual tem mais ou menos apelo e fala sobre o futuro". O professor considera a crítica ao aparelhamento estatal "meramente política" e vê no industrialismo "um discurso paulista, que toca no ponto nevrálgico do Estado". O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), carro-chefe do segundo governo Lula coordenado pela pré-candidata do PT, a ministra Dilma Rousseff, já foi citado por Serra como "uma listagem de obras, poderia ser feito por qualquer governo". A definição, no entanto, não tem sido repetida nos últimos discursos. INTERAÇÃOA um ano da eleição, futuros candidatos estão no momento "de interagir com diversas plateias, de informar o que estão pensando", descreve o cientista político Bolívar Lamounier. O governador Serra, diz ele, "faz uma exploração de ideias que estão na cabeça dele, não como um balão de ensaio, mas falando de coisas em que acredita". Uma segunda etapa será a sistematização das propostas, até a formação de uma equipe de especialistas para montar o programa de governo. "Agora é uma fase mais individual", afirma o professor.Pelo menos na elaboração dos discursos, Serra age sozinho. Nos papeis, leva números e dados técnicos informados pelos secretários e assessores. Lê os relatórios nos deslocamentos de helicóptero. Texto escrito, só em casos excepcionais e extremamente solenes.

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