Serra e Aécio pregam união, mas descartam chapa pura

Governadores trocam elogios em evento e negam tensão no PSDB

Eduardo Kattah, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Os dois pré-candidatos tucanos à Presidência, governadores Aécio Neves (MG) e José Serra (SP), asseguraram ontem que estarão juntos na eleição de 2010, mas descartaram a possibilidade de o PSDB disputar a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com uma chapa puro-sangue. "Nossa proximidade não está restrita à responsabilidade partidária, por sermos do mesmo partido. Temos muitas afinidades pessoais e uma visão de País muito parecida", disse Aécio.O mineiro usou uma expressão do turfe para reforçar a mensagem. "A nossa unidade, estarmos Serra e eu juntos em 2010 é ?pule de dez?", afirmou, referindo-se à designação de que a aposta em determinado cavalo é uma verdadeira barbada.Serra afagou Aécio rejeitando a tese de formação de uma chapa puro-sangue tucana. "Não tem nenhum cabimento discutir que um vai ser vice do outro", afirmou o paulista, destacando que ele e o mineiro têm todas as condições de ser candidatos à Presidência. "Nunca nós dois conversamos sobre essa hipótese."Os tucanos assinaram um protocolo de intenções para acordos que visam a minimizar a sonegação do Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS) nos dois Estados. Foi o primeiro encontro após Aécio reconhecer publicamente que Serra tem maior probabilidade de vencer as eleições, mas ponderar depois que essa é apenas uma avaliação momentânea do quadro. O paulista ressaltou que entre ele e o mineiro "não há tensão nenhuma". "Olha aqui", disse, abraçando o governador de Minas durante a entrevista. "Não vou dar um beijo no rosto do Aécio porque não dá para documentar essas coisas", brincou. O mineiro entrou no clima e continuou a brincadeira. "Isso não vai te ajudar nas pesquisas."Aliados de Aécio afirmam que a relação entre os governadores e pré-candidatos tucanos melhorou bastante a partir do momento em que eles passaram a se reunir reservadamente e expuseram claramente suas pretensões eleitorais.ESCOLAAs juras de unidade também avançaram para o campo administrativo. Em seu discurso no Palácio da Liberdade, Serra disse que já copiou ações do governo mineiro, como o modelo de nomeação de cargos de confiança para algumas áreas. "Hoje Minas é uma escola de quadros para a administração pública brasileira", disse. "Isso sem dúvida tem tido uma importância enorme no papel crescente que o Estado tem assumido no desenvolvimento nacional." O governador paulista ressaltou também que independentemente de quem seja o candidato do PSDB, bandeiras históricas do partido serão mantidas. "Se o Aécio vier a ser presidente, se eu viesse, por acaso, eu não tenho dúvida nenhuma que teremos rumos semelhantes em relação às questões de política fiscal e de responsabilidade fiscal, o que, aliás, eu devo dizer sem qualquer modéstia, é um patrimônio do PSDB."Mais tarde, em Foz do Iguaçu, onde participaram de um encontro regional do PSDB, os dois tucanos rechaçaram os pedidos para que definam rapidamente o nome que vai enfrentar a provável candidata do PT à Presidência - a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que tem percorrido várias regiões do País ao lado de Lula. "Campanha eleitoral não é gincana, graças a Deus", comentou Serra. Segundo ele, por estarem à frente de dois Estados que representam 43% do PIB brasileiro e concentram um terço da população, contribuindo com metade da arrecadação federal, "não tem cabimento" deixar de governar para fazer campanha. "Isso (o processo sucessório) foi exageradamente antecipado", destacou. "Estamos em maio (sic) do ano anterior à eleição. O Brasil tem muitos problemas para ser enfrentados." ESTRATÉGIAPara Aécio, o PSDB não deve moldar sua estratégia a partir do que é definido pelos adversários. Segundo ele, seminários como o feito ontem em Foz do Iguaçu, em que foram discutidos a agricultura e o agronegócio, são fundamentais agora. "O mais importante é o PSDB construir sua proposta e, no momento certo, que certamente não será antes do fim do ano, teremos um candidato com densidade, com apoio das bases, com aliança sólida em torno de um nome e com projeto para o País", afirmou. "Assino embaixo", completou Serra.O governador de Minas considerou natural o crescimento da pré-candidatura de Dilma. "E acho que crescerá um pouco mais", acrescentou. "Está ainda abaixo do patamar natural de uma candidatura do PT com apoio do presidente Lula." Ele ressaltou, no entanto, que o fato de o PSDB não ter anunciado o candidato não significa uma redução das possibilidades de vencer a disputa. "Nós estamos no caminho certo e vamos chegar no ano que vem com um candidato consolidado nas bases do partido, com belíssimo projeto para o pós-lulismo", disse. Entre os partidos que devem caminhar junto com o PSDB na campanha de 2010, o presidente do PPS, Roberto Freire, defendeu a antecipação do lançamento do nome do candidato. "Independentemente de participar de campanha, que é o que a Dilma vem fazendo, se vier a anunciar, o partido terá uma coesão, pode se mobilizar em torno da candidatura", argumentou. Pensamento diferente do presidente do DEM, Rodrigo Maia, que também participou do evento do PSDB. "O tempo ideal é da nossa unidade, pois a unidade vai gerar nossa vitória", afirmou.Tanto Serra quanto Aécio minimizaram a importância da proposta de emenda constitucional do deputado Jackson Barreto (PMDB-SE), que pretende abrir possibilidade de um terceiro mandato para Lula. "É questão fora de lugar, não vai prosperar", afirmou o governador de São Paulo. "Não há tempo hábil nem mobilização política efetiva em direção a isso", reforçou o mineiro.

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