Serra desafia PT a dizer que não tem vínculos com as Farc

'Você viu algum petista, inclusive a Dilma, explicando porque o PT é ligado às Farc, ou negando isso?', questionou o tucano

Elder Ogliari, de O Estado de S.Paulo / PORTO ALEGRE,

22 Julho 2010 | 20h30

O candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, provocou sua concorrente Dilma Rousseff e o PT a dizerem explicitamente que não têm vínculos com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), durante entrevista à Rádio Guaíba, nesta quinta-feira, 22, em Porto Alegre.

 

Garcia: Índio 'é perturbado' e cairá no 'anonimato'

 

Perguntado pelo jornalista Juremir Machado da Silva sobre a "derrapagem" que seu vice Índio da Costa (DEM) teria cometido ao tentar vincular o PT ao grupo guerrilheiro colombiano, Serra saiu em defesa de seu companheiro de chapa e aproveitou para atacar seus adversários.

 

O tucano considerou que Índio da Costa disse uma "banalidade" ao fazer a associação e afirmou que há evidências abundantes de que os integrantes das Farc são "sequestradores, cortam a cabeça de gente de gente, são terroristas e fazem narcotráfico" para, na sequência, afirmar que eles "vieram ao Brasil e (foram) aqui abrigados" e acusar o governo federal de ter nomeado a mulher de um deles para um cargo público. "O próprio principal assessor da presidência de relações exteriores os trata como não terroristas, no fundo companheiros meio equivocados", prosseguiu, sem citar nomes, mas numa referência a declarações do assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia.

 

Em meio às respostas, Serra ressalvou duas vezes que não estava qualificando os petistas de narcotraficantes, deixando implícito que as vinculações que vê e que não considera explicadas são de outra ordem. "Que os petistas sejam narcotraficantes isso o Índio nunca pensou e nem eu", reiterou, sustentando que seu vice disse é que "o PT é aliado a uma força que pratica narcotráfico". Depois, passou às cobranças. "Curiosamente ninguém do PT veio (explicar), e estão devendo essa explicação, inclusive a Dilma Rousseff, para dizer que eles não tinham nada com as Farc", emendou. "Você viu algum petista, inclusive a Dilma, explicando porque o PT é ligado às Farc, ou negando isso?", perguntou.

 

Em outra parte da pregação contra o tráfico de drogas, o tucano avisou que, se eleito, vai fazer pressão diplomática sobre países que exportam drogas para o Brasil. Serra também afirmou que o Brasil pode usar as obras de infraestrutura que faz na Bolívia para pedir que o governo daquele país deixe de fazer "corpo mole" e tome "maior atitude" no combate ao tráfico.

 

Vice

 

Ao defender seu vice, Serra lembrou que Índio da Costa já venceu quatro eleições e fez mais votos que o vice de Dilma, Michel Temer, a quem considera "eleito na repescagem" em 2006. Citou também que o deputado do DEM foi "líder importante" do projeto Ficha Limpa, escreveu livros sobre administração e tem experiência executiva. "Na minha opinião ele é melhor que os outros dois", ressaltou, referindo-se a Temer e também a Guilherme Leal (PV), que, afirmou, não fez nada na vida pública. "Nosso vice foi escolhido por suas virtudes, não foi por nenhum troca-troca de cargos", comparou. "Por exemplo, o Lula não queria o vice (de Dilma), mas teve que 'engolir' Temer para não desagradar o PMDB."

 

Questionado sobre sua oposição ao regime militar e suas alianças com apoiadores da ditadura, como filiados ao DEM, Serra reagiu lembrando que Dilma também fez acordos com adversários dos anos 60 e 70, como é o caso do senador José Sarney.

 

Caminhada

 

A visita de Serra a Porto Alegre obedeceu ao improviso. A assessoria anunciou que o tucano visitaria o Mercado Público e caminharia na Rua dos Andradas. Ele foi às Rádios Pampa, Guaíba e Gaúcha dar entrevista. Entre as atividades, fez um corpo-a-corpo com eleitores na Rua dos Andradas, acompanhado por cerca de cem pessoas, entre políticos, jornalistas, simpatizantes e também alguns portadores de bandeiras contratados para a campanha do PSDB do Rio Grande do Sul a salários de R$ 650 a R$ 800 por mês.

 

Em meio a caminhada, Serra cumprimentou pessoas, tirou fotos, distribuiu e recebeu abraços dentro de uma agência bancária, uma farmácia e uma banca de revistas. Em alguns momentos foi aplaudido e em duas vezes seus acompanhantes aumentaram o volume do coro que faziam gritando o nome de Serra para abafar algumas vaias esparsas e provocações de quem gritava "Dilma".

 

Farsul e MST

 

O último ato, também agendado em cima da hora, foi uma visita à sede da Federação da Agricultura no Rio Grande do Sul (Farsul). À vontade entre os ruralistas, afirmou que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) é um movimento político financiado pelo governo que faz da reforma agrária um pretexto para um movimento socialista revolucionário.

 

Também voltou a questionar Dilma ao dizer que não sabe o que ela pensa da agricultura ao mesmo tempo em que vê sua concorrente tomar posições contraditórias, com declarações ora favoráveis, ora contrárias ao MST. Lembrou, ainda, que o líder do MST, João Pedro Stédile teria dito que o movimento vai apoiar Dilma para poder fazer mais invasões de terras.

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