Série revela ação dos EUA no golpe de 64

Exibido pela TV Brasil, documentário expõe bastidores do apoio americano a militares

Wilson Tosta, de O Estado de S. Paulo

04 Abril 2011 | 19h54

RIO - Gravações inéditas de conversas dos presidentes dos EUA John Kennedy (1961-1963) e Lyndon Johnson (1963-1969) com o embaixador no Brasil Lincoln Gordon sobre o presidente João Goulart e o golpe de 64 - que fez 47 anos na semana passada - destacam-se na série "O Dia que Durou 21 Anos", que a TV Brasil começou a exibir nesta segunda-feira, 4, e que vai até quarta, às 22h.

 

Obtidos nas bibliotecas americanas dedicadas aos dois mandatários da Casa Branca nos anos 60, os registros, feitos desde 1961, mostram indícios de que a participação dos Estados Unidos na movimentação militar foi maior do que se supunha. Até a possível ação de aviões militares americanos para apoiar conspiradores brasileiros na luta que os EUA esperavam demorada e sangrenta - e que não aconteceu - foi preparada.

 

"Apoio aéreo pode ser fornecido imediatamente se houver campo de pouso em Recife ou outro lugar no Nordeste do Brasil capaz de receber aviões de grande porte", diz, em uma gravação, o secretário de Estado Dean Rusk. A movimentação seria parte da Operação Brother Sam, o deslocamento, em apoio ao golpe, de uma frota naval americana para a costa brasileira.

 

O diretor da série, Camilo Tavares, da produtora Pequi Filmes, explica que o trabalho é uma versão "pequena e resumida" do documentário que deverá estar nos cinemas em dois meses. A pesquisa foi feita por uma equipe capitaneada por seu pai, o jornalista Flávio Tavares, e incluiu, além das gravações da John Kennedy Library e da Lyndon Johnson Library, liberadas após 40 anos, documentos da Central Intelligence Agency (CIA) e da Casa Branca.

 

A produção, em parceria com a TV Brasil, foi financiada com recursos da Lei Rouanet e teve apoio do Ministério da Cultura, além de patrocínio da Sabesp, da Cesp e da Eletrobrás.

 

Os três episódios são construídos em torno da figura de Gordon. Ele aparece, em abril de 62, em conversa com Kennedy, que pergunta: "Você acha que Goulart, se tivesse poder, agiria?" Gordon responde: "Acho que faria algo como Perón". O presidente retruca: "Um ditador". "Um ditador pessoal e populista", completa Gordon. "Acho que não posso fazer nada com ele ali", diz Kennedy. "Acho que pode", fala o diplomata. Adiante, Gordon diz: "O fundamental é organizar forças políticas e militares para reduzir seu poder e, num caso extremo, afastá-lo."

 

Em outra gravação, depois do golpe, Lyndon Johnson, é instado pelo assessor McGeorge Bundy a enviar uma mensagem discreta para a posse do marechal Castelo Branco na Presidência. "Há uma diferença entre Gordon, que quer que seja entusiasta, e nosso ponto de vista na Casa Branca, de que o senhor deveria ser cauteloso enquanto este cara (Castelo) está botando gente em cana", diz. Johnson responde: "Acho que tem gente que precisa ir em cana aqui e lá também. (...) Gostaria que tivessem colocado alguns em cana antes que tomassem Cuba." Bundy insiste: "Uma mensagem mais rotineira seria mais desejável". O presidente: "Eu gostaria de um certo entusiasmo". O assessor pondera: "Vai ser publicado..." E Lyndon Johnson: "Eu sei, mas estou me lixando".

 

Versão para cinema terá mais detalhes

O jornalista Flávio Tavares afirma que a versão para cinema do documentário "O Dia que durou 21 anos" terá abordagem mais ampla, com detalhes que não puderam entrar na versão televisiva. Um desses detalhes será a revelação de que, diferentemente do que se acreditava, a reaproximação entre Castelo Branco e o comandante do II Exército, general Amaury Kruel, não se deu às vésperas do golpe, mas bem antes - e em articulação do embaixador Lincoln Gordon, por meio do adido militar dos EUA, coronel Vernon Walters.

 

O oficial conseguiu que o marechal Costa e Silva promovesse um jantar em sua casa, no Rio, em janeiro de 1964, para que Castello e Kruel, rompidos desde a Segunda Guerra Mundial, na Itália, se reaproximassem. "Um telegrama do Gordon diz que o adido militar o informa disso", conta Tavares.

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