Seria Lula um 'herói acidental', pergunta jornal

Em perfil de Lula, 'Guardian' questiona se êxito do Brasil se deve a 'sorte' do presidente.

Da BBC Brasil, BBC

14 de março de 2008 | 08h20

Em um suplemento especial sobre o Brasil publicado nesta sexta-feira, o jornal britânico The Guardian questiona até que ponto o crescimento da economia brasileira se deve ao governo Lula, ou se o presidente seria um "herói acidental".Em um perfil de página inteira de Luiz Inácio Lula da Silva, o Guardian lembra que o presidente começou a vida como imigrante pobre, trabalhando de engraxate e lustrando sapatos em São Paulo aos 7 anos de idade."Meio século depois o ex-camponês imigrante ainda pode ver seu reflexo enquanto trabalha, mas a imagem é mais afiada: vem da piscina do Palácio do Planalto, a sede da Presidência em Brasília. Lula, como presidente Lula, encontrou seu futuro melhor."A história do imigrante pobre que virou presidente é sedutora, afirma o jornal, "por conta do progresso econômico e social (do Brasil) desde que ele assumiu o poder"."A inflação e a pobreza extrema diminuíram, o investimento e as exportações aumentaram e fala-se em um novo Brasil. Não é surpresa que o presidente seja popular em casa e festejado fora.""A pergunta é se ele é o arquiteto ou meramente a figura de frente dessas mudanças. Alguns dizem que o Brasil é ingovernável, que tudo o que o presidente pode fazer é seguir as ondas e esperar o melhor."O jornal pergunta então se Lula puxou o país para cima junto com ele, ou se tudo foi uma coincidência e ele, em outras plavras, teria sido apenas sortudo."As condições globais favoreceram o Brasil, entre elas o boom de exportação impulsionado pelo apetite da Índia e da China por soja, ferro e outras commodities. Décadas de investimento em biocombustíveis e a Petrobras, a companhia estatal de energia, estão agora rendendo frutos."CautelaO Guardian diz que a eleição de Lula em 2002 "amedrontou os investidores de Wall Street, que o viam como um socialista radical", que adotaria políticas populistas e nacionalizaria a indústria, "arruinando a frágil recuperação" brasileira."Estavam errados (...). Em contraste com a retórica revolucionária do presidente venezuelano Hugo Chávez, ele adotou um tom reformista cauteloso", diz o Guardian."Longe de ser um herói socialista, Lula continuou as políticas ortodoxas do governo de (Fernando Henrique) Cardoso", desapontando os radicais do PT e agradando os investidores, de acordo com o jornal.Segundo o jornal, cinco anos depois "a prudência fiscal e as políticas que agradam o mercado garantiram estabilidade econômica e crescimento sólido, mesmo que não espetacular. Os ricos estão mais ricos, mas, mais importante, os pobres estão menos pobres".Mas se Lula se mostrou mais inteligente politicamente do que se imaginava, o jornal afirma que, no setor econômico, não se sabe se ele teve mais sorte do que inteligência.Críticos alegam que Lula está fugindo das "dolorosas mas necessárias" reformas tributária, previdenciária e trabalhista, diz o Guardian."A imagem internacional de Lula continua dourada. A história de vida atraente, os abraços de urso, o carisma: ele é visto como um progressista social fofo mas pragmático, no topo de um país finalmente realizando seu potencial."O presidente é adorado por muitos brasileiros, mas até que ponto Lula é responsável pelo sucesso do Brasil, permanece uma "abstração", afirma o jornal. "Deixe que os historiadores discutam sobre a sorte. O que interessa é que o país está brilhando."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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