"Seria impertinente o Brasil desejar liderança mundial", diz FHC

No primeiro pronunciamento público feito após a conclusão de seu mandato, o ex-presidente Fernando Henrique afirmou nesta quarta-feira, em Paris, que seria "impertinente" se o Brasil desejasse assumir uma posição de liderança na cena mundial, ao lado das potências convencionais. O ex-chefe de Estado formulou a ponderação - referida às incertezas da conjuntura política internacional - ao falar de improviso, em francês, como um dos palestrantes de um evento organizado pelo Ministério das Relações Exteriores da França e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre o tema "Europa-América Latina: para uma nova parceria?". Na avaliação do ex-presidente, o dever de reserva do Brasil no capítulo de liderança começa em sua própria área de influência. "O Brasil tem um papel a desempenhar na América Latina, mas deve ser discreto, sem se dar a presunção de exercer uma chefia. O melhor é agir com o espírito de compreensão e de solidariedade do que com a lógica do poder, que produz resistências e bloqueios. Afinal, o líder existe ou não, naturalmente, mas nunca deve se proclamar." Falando à imprensa logo depois de sua exposição, pela qual recebeu aplausos de um público numeroso, Fernando Henrique parecia estar convencido de que o presidente Lula tem consciência disso: "não adianta querermos nos vestir com as medidas que não são as nossas". A tônica da exposição do ex-presidente, tendo como pano de fundo a provável guerra contra o Iraque, foi a de que o Brasil e a América Latina devem se alinhar sobre as posições assumidas pela França e pela Alemanha na questão. ?Mas para serem mais eficazes na contenção do conflito, precisam receber adesão dos outros países europeus. A criação de um novo pólo de poder, incluindo também o Brasil, México, Chile, poderia frear a vontade dos Estados Unidos, evitar essa espécie de quase monópolio das decisões mundiais e abrir o campo às negociaçoes levando à paz". "Blá-blá-blá"Endossando a tese defendida antes pelo sociólogo Alain Touraine, Fernando Henrique fez ver a necessidade de o Brasil aproveitar os espaços deixados livres pela estratégia política da administração Bush voltada sobretudo para o Oriente Médio, para melhorar suas posições no processo de globalização. "O Brasil e a América Latina têm de aproveitar essas oportunidades capazes de oferecer às suas populações melhores condições de vida, em vez de alimentarem preconceitos contra a globalização, que precisa, sem dúvida, ser humanizada com os aportes da sociedade civil", afirmou. Fernando Henrique historiou as ações empreendidas por seu governo para reduzir as desigualdades sociais - "US$ 9 bilhões foram aplicados em 2002 nos diversos programas nesse setor"-, e qualificou de "blá-blá-blá" as acusações de seus adversários de que o Brasil se inclinou ao "Consenso de Washington". Segundo o ex-presidente, o Brasil modernizou o aparelho do Estado e seu parque industrial, as privatizações foram feitas de acordo com os interesses nacionais, os investimentos estrangeiros não contrariaram essa norma, o País não teve sua agricultura liquidada, e houve redistribuição da renda, inclusive pela educação e saúde. ?O que se fez não bate com o "blá-blá-blá" dos pregoeiros do tal Consenso", disse.

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