Sentinela Dilma

O Palácio do Planalto parou de achar que a atual movimentação do Congresso para mudar a forma de tramitação das medidas provisórias é fruto de mais uma das inúmeras e inócuas reclamações recorrentes do Parlamento e começou a olhar o assunto com preocupação.Mais: com genuíno temor de que isso se transforme numa agenda espinhosa, logo agora que, depois da votação do Orçamento, não há assuntos importantes de interesse governamental no Legislativo.O governo ainda não sabe direito o que fazer, uma vez que reconhece o excesso, mas nem por isso tem a menor intenção de aceitar qualquer mudança. Vai jogar tudo para manter as coisas como estão.E nesse jogo vale desde a apresentação de uma contraproposta absurda - elaborada de propósito com esse caráter de "bode" explícito - que aumenta o tempo de validade de uma MP de 120 para 240 dias, até a desqualificação de seus defensores, passando por uma tentativa de cooptar o PSDB, sob o argumento de que quem tem perspectiva de poder não pode contribuir para limitar prerrogativas do Executivo.O governo não quer mudança nenhuma, embora faça oficialmente o discurso de que aceita discutir para chegar a um meio termo que atenda à conveniência dos dois Poderes. Não aceita nem mesmo - aliás, muito menos - a proposta de acabar com a paralisia das pautas da Câmara e do Senado quando houver (sempre há) MPs para serem votadas.Pelo seguinte: no entendimento do governo, isso o obrigará a negociar cada medida provisória com sua base para garantir a entrada em pauta, a votação no plenário e a aprovação do mérito. Hoje, como as MPs trancam a pauta, acabam no geral sendo aprovadas em bloco e por acordo, com os votos também da oposição.Sem a entrada das medidas automaticamente na pauta e sem a pressão do trancamento, o governo terá dois caminhos: ou negocia caso a caso ou reduz drasticamente o número de medidas provisórias.Obviamente, não quer nenhum dos dois e já está enxergando nessa ofensiva do Parlamento motivações que passam a léguas de distância da oficialmente alegada luta pela recuperação da autonomia do Poder Legislativo.Há mais ou menos 15 dias, um destacado deputado da bancada do PT na Câmara alertou a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, de que, desta vez, arma-se uma encrenca de bom tamanho em torno das MPs.Avisou também que se o governo não agir, a alteração nas medidas provisórias pode dar à base aliada mais um poderoso instrumento de pressão sobre o Executivo, seja para a obtenção de cargos e vantagens ou, no caso do PT, para o exercício do poder político voltado para a correlação de forças internas no partido.Os presidentes da Câmara e do Senado, capitães desse movimento, podem até ter a mais republicana das intenções. Mas não é esta a análise que se faz hoje no Planalto.Dilma começou a se dar conta da complicação quando o deputado deu a ela sua interpretação do cenário, a começar pela composição do comando da comissão especial encarregada de examinar a Emenda Constitucional 511 e apresentar um relatório propondo mudanças.O presidente é Cândido Vaccarezza, petista do grupo da ministra Marta Suplicy, indicado pessoalmente pelo também petista e presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia. Isso significaria que o objetivo de limitar o poder do Executivo seria o de restituir a esse grupo parte da força perdida na recente eleição do Diretório Nacional do partido, quando foi derrotado.Já a indicação do relator, Leonardo Picciani, é vista como evidência de que a alteração das MPs buscará de alguma maneira atender aos interesses da grande massa fisiológica da qual o pemedebista Picciani, em parceria com o companheiro de partido e presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Eduardo Cunha, são hoje expressões de ponta.Cunha, Dilma Rousseff teve a memória refrescada a respeito no telefonema, foi o relator da CPMF que segurou seu relatório na comissão por 75 dias até que saísse a nomeação de Luiz Paulo Conde para a presidência de Furnas.Não precisou explicar muito mais. Dilma se pôs de prontidão, determinou o envio da proposta algo sarcástica de aumentar para quase um ano o prazo de validade das MPs e fez ver à tropa que no embate das mudanças nas medidas provisórias, só vale um lema: não passarão!TradicionalUma pesquisa da empresa de comunicação FSB com 246 deputados federais sobre seus hábitos de informação mostra que o jornal impresso ainda é a principal fonte de notícias e análises para a maioria deles: 69,9%.Apenas 11,8% se informam primordialmente por meio dos telejornais, 12,6% recorrem à internet (sites e blogs), 3,7% ouvem as notícias no rádio antes de buscar qualquer outra fonte e apenas 0,4% vivem exclusivamente do noticiário das revistas.Quase todos, 96,3% lêem jornais diariamente, mas apenas 30,9% dizem que a imprensa exerce alta influência sobre suas decisões e votos.

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