Senadores sentem nas ruas peso do desgaste com crise

Parlamentares do PT são cobrados por atitude vacilante e defesa de Sarney

Luciana Nunes Leal, O Estadao de S.Paulo

01 de agosto de 2009 | 00h00

Na manhã da sexta-feira passada, o senador petista Eduardo Suplicy (SP) falava ao celular depois de se exercitar no Parque do Ibirapuera quando foi abordado por um eleitor. "Eu não votaria mais em você", disse, a certa altura, o cidadão, um médico desiludido com a política que não deixou claros os motivos da insatisfação.Calmamente, Suplicy respondeu: "Vou lhe dizer o que estou fazendo no Senado." Citou projetos como o que prevê divulgação dos nomes, funções e salários de todos os servidores e o fim dos suplentes. Não surtiu efeito."O presidente Lula é a maior decepção que este país já teve", continuou o eleitor revoltado. "Não concordo com o senhor", respondeu o senador. Despediu-se e voltou ao telefone e à conversa com o Estado. Suplicy, reeleito em 2006 para mais oito anos de mandato, não terá de disputar uma vaga em 2010, mas sofre os efeitos da crise instalada no Senado, com sucessivas acusações contra o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), e uma guerra entre aliados e adversários do maranhense eleito pelo Amapá.Além do desgaste que atinge os senadores em geral por causa das denúncias de uso do poder político em benefício de parentes e amigos, os petistas têm que dar explicações sobre o comportamento vacilante do PT e as reiteradas defesas de Sarney feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma situação desconfortável, especialmente para os nove senadores do partido que tentarão a reeleição em 2010. E agravada pela falta de unidade da bancada formada por 12 petistas. "Existem reclamações, mas também tenho recebido muitos cumprimentos pela minha posição no Senado, a mesma do Aloizio Mercadante e da maioria da bancada", garante Suplicy, preocupado em apoiar o líder petista, que defendeu o afastamento de Sarney em nota divulgada na semana passada, mas foi desautorizado pelo presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP). ARTICULAÇÕESIrritado, Mercadante passou a semana em conversas por telefone com os companheiros. Acalmado por amigos, evitou tornar pública a divergência com Berzoini. Aos senadores do PT, insistiu que apenas reiterou nota da bancada divulgada no dia 8 de julho.Os senadores do PT vão se reunir com Berzoini na próxima terça-feira, em Brasília, para tentar pôr fim ao mal-estar. Na visão de alguns petistas, Mercadante defendeu publicamente o afastamento de Sarney não apenas para responder às demandas da imprensa, mas também para se dirigir a seu eleitorado, que cobra uma reação firme em relação ao presidente do Senado. Muitos senadores foram solidários com o líder, mas outros se disseram surpresos com a iniciativa de Mercadante."Eu não esperava essa manifestação do líder e não fui ouvido. Minha posição é coerente com o que a bancada tinha discutido antes do recesso. Imaginei que voltaríamos a tratar desse assunto somente depois do recesso", declara o senador Delcídio Amaral (PT-MS), que estará na disputa eleitoral do ano que vem. Outro candidato à reeleição, o senador Flávio Arns (PR) dá total apoio a Mercadante. "As iniciativas do Planalto têm desautorizado e desacreditado os senadores do PT. Não é verdade que apenas um ou dois querem o afastamento do Sarney. O Executivo tem colocado os senadores do PT em maus lençóis", reage Arns.FUGANo esforço para neutralizar os efeitos negativos da crise no Senado, Delcídio diz que a pior tática é fugir do assunto. "As pessoas estão informadas e eu já vou logo falando dos problemas do Senado de cara, antes que me cobrem", afirma.O senador se preocupa com os adversários na política. "Esses problemas estão nivelando todo mundo por baixo, como se todos fossem culpados. Colar responsabilidades em todos os senadores é muito ruim. Podem aparecer candidatos para se aproveitar disso, fazer o discurso fácil", teme. O gaúcho Paulo Paim diz que leva cópias da primeira nota da bancada petista, para distribuir aos correligionários. A diferença da nota da bancada para aquela assinada por Mercadante é que a primeira, mais amena, sugeria a licença temporária de Sarney, mas ressaltava que "é uma decisão a ser tomada pelo senador". A segunda dizia que "o melhor caminho seria o pedido de licença". Assim como Delcídio, Paim é menos contundente que outros companheiros na defesa do afastamento de Sarney. "A nota do Mercadante é legítima, mas não é minha", diz Paim. Solidária com o líder, a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (PT-AC) tem procurado deixar claro que sempre defendeu a licença de Sarney. "As pessoas são respeitosas com o presidente Lula, mas sabem e apoiam a minha posição e a do senador Tião Viana pela apuração dos fatos e o afastamento do presidente Sarney", diz a senadora.IRONIAO deputado Devanir Ribeiro (PT-SP), amigo há muitos anos do presidente Lula, observa à distância as tensões no Senado e comenta com ironia a disputa pela reeleição na Casa, que já teve o apelido de "céu". "Os senadores, de todos os partidos, são iguais. Têm mandato de oito anos, que demoram muito para passar. Quando percebem que no ano seguinte tem eleição, ficam todos com a sensibilidade à flor da pele", diz.

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