Marcos Pereira/Estadão
Marcos Pereira/Estadão

Senadores falam em condução coercitiva após Pazuello se esquivar de CPI e receber visita de Onyx

Estadão revelou encontro entre ministro e general; agenda oficial indicava outro compromisso

Felipe Frazão e Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 17h59
Atualizado 07 de maio de 2021 | 16h18

BRASÍLIA - Senadores propuseram, na tarde desta quinta-feira, 6, que o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, general da ativa do Exército, seja alvo de condução coercitiva para depor perante a CPI da Covid.

Senadores citaram a medida após o Estadão revelar que Pazuello recebeu, na manhã desta quinta-feira, uma visita do ministro Onyx Lorenzoni (Secretaria-Geral da Presidência) no Hotel de Trânsito de Oficiais, onde supostamente estaria em isolamento depois de ter contato com dois servidores que contraíram a doença. 

O argumento de que esteve em "contato direto" com dois servidores infectados foi usado por Pazuello oficialmente, em documento encaminhado pelo Exército, para não comparecer ao depoimento na CPI, agendado para quarta-feira, dia 5. Os senadores então deram um voto de confiança e adiaram o depoimento para 19 de maio.

No entanto, como revelou o Estadão, Pazuello não manteve medidas de isolamento e se reuniu com Onyx, que foi escalado como articulador da estratégia de defesa do governo Jair Bolsonaro na CPI.

"O ministro Onyx resolveu correr o risco de visitar o senhor Eduardo Pazuello no dia de hoje. Estranho. Ele informou a essa CPI que estava infectado com a covid-19 (na verdade, o ex-ministro disse que manteve contato com duas pessoas infectadas). Me parece que é uma infração sanitária", disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Indignado, o relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), repetia na mesa da CPI: "Condução coercitiva". O senador Fabiano Contarato (Rede-ES), que é delegado de polícia, concordou: "No processo penal, isso é condução coercitiva."

Já o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), afirmou não ver crime no fato de Pazuello ter recebido a visita de Onyx após dizer que não poderia comparecer à comissão para depoimento porque teve contato com pessoas infectadas com o novo coronavírus e precisaria entrar em quarentena. Aziz rechaçou propostas de condução coercitiva ou de busca e apreensão sugeridas por senadores da oposição. 

"Primeiro, temos que torcer para o ex-ministro não estar com covid e não contaminar o Onyx. A segunda coisa: não foi o Pazuello que foi ao Onyx. Foi o Onyx que foi fazer uma visita. Isso é uma questão pessoal deles. Ninguém pode proibir alguém de visitar alguém. Não temos poder para isso", disse. 

Diante de protestos de membros da CPI contra a conduta de Pazuello, o presidente pediu cautela aos pares. "Qual foi o crime que o ex-ministro cometeu? Por isso que as pessoas acham que a gente quer politizar isso daqui", comentou.

O assunto entrou em debate na CPI após o senador Jean Paul Prates (PT-RN) mostrar a foto publicada pelo Estadão e citar a reportagem para perguntar ao presidente da CPI se alguma providência seria tomada. 

Relator da comissão, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) também descartou a possibilidade de adoção de medidas mais duras contra Pazuello. "Ele precisa colaborar e deixar de usar o Exército como biombo para não vir à CPI. Isso é extremamente irresponsável", disse.

Supremo proibiu medida para investigados

Prevista no Código de Processo Penal desde 1941, a condução coercitiva ocorre quando a pessoa é obrigada a comparecer perante uma autoridade policial ou Judiciária para prestar depoimento. A medida, no entanto, é polêmica. Em junho de 2018, o Supremo Tribunal Federal proibiu, por 6 votos a 5, a condução coercitiva, de investigados, para interrogatórios, sob o argumento de que o instrumento viola a Constituição.  Mas há exceções, como no caso de testemunhas.

A discussão no plenário da Corte girou em torno de duas ações – do PT e do Conselho Federal da OAB – que contestavam a adoção da medida contra investigados, um procedimento que vinha sendo largamente utilizado em investigações da Polícia Federal. Na época, a condução coercitiva de investigados era um dos pilares da Operação Lava Jato.

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