Edilson Rodrigues/Ag. Senado
Edilson Rodrigues/Ag. Senado

'Senadores candidatos' tentam levar adversários regionais a se explicarem na CPI da Covid

Comissão corre o risco de ser contaminada por disputas regionais travadas por senadores que são pré-candidatos

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2021 | 05h00

BRASÍLIA – A CPI da Covid corre o risco de ser contaminada por disputas regionais travadas por senadores que são pré-candidatos a governos estaduais e tentam responsabilizar seus adversários pela crise. Integrante da comissão, o senador Eduardo Girão (Podemos-CE), possível candidato no Ceará, apresentou requerimento para convocar o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (PDT), seu virtual oponente na eleição de 2022. Além de Girão, outros cinco parlamentares podem concorrer em seus respectivos Estados no próximo ano e, como membros da comissão, têm poder para cobrar esclarecimentos e interrogar desafetos.

Os cálculos eleitorais já foram detectados e começam a incomodar a CPI. Em conversas reservadas, alguns senadores apontam “obsessão” de parlamentares em convocar e interrogar rivais. Relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL) expôs a estratégia na reunião desta quinta-feira, 29, ao reagir à articulação de aliados do presidente Jair Bolsonaro para aprovar pedidos contra gestores regionais.

“Não vamos transformar essa CPI em uma batalha eleitoral, política. Se alguns dos senhores têm problemas a ajustar nos Estados, precisam ter fato determinado para isso”,  afirmou Renan, que teve a relatoria questionada no Supremo Tribunal Federal por ser pai do governador de Alagoas, Renan Filho (MDB).

Ao justificar o pedido de convocação do adversário, Eduardo Girão alegou, por exemplo, que a gestão do ex-prefeito da capital cearense foi alvo de uma operação da Polícia Federal, em junho, que apura fraudes na compra de equipamentos para hospitais, destinados ao tratamento de pacientes com covid-19.

O senador também quer interrogar outros dois aliados de seus adversários: a ex-secretária de Saúde de Fortaleza e o chefe da pasta no governo de Camilo Santana (PT). “A CPI não está interessada nos atos de gestão do Executivo municipal e estadual, mas, apenas e tão somente, nas questões passíveis de ser investigadas pela CPI”, argumentou Girão.

O ex-prefeito Roberto Cláudio, por sua vez, lançou suspeitas sobre o "proativismo intempestivo" de Girão. Disse que, quando à frente das ações em Fortaleza, não recebeu nenhuma oferta de apoio ou solidariedade do senador que, segundo ele, "não mexeu uma palha" para contribuir. 

"Não houve qualquer mobilização política por parte do senador Girão em apoio às medidas locais de isolamento social, à aquisição de insumos médicos ou ao trabalho de assistência aos nossos doentes, nem mesmo para viabilizar vacinas ao Ceará", disse Roberto Cláudio ao Estadão.

Desgaste

Com sua pré-candidatura ao governo do Piauí lançada publicamente, o senador Ciro Nogueira (Progressistas), por sua vez, terá a chance de desgastar a gestão do atual governador Wellington Dias (PT). O petista coordena o fórum de governadores que confronta a maneira como o governo Bolsonaro lida com a crise sanitária e é um dos principais alvos de bolsonaristas.

Ciro não apresentou requerimentos específicos contra o governo local, mas quer a aprovação de pedidos para que todos os órgãos de investigação entreguem à CPI cópias de inquéritos que tenham sido abertos para checagem da aplicação de recursos destinados ao enfrentamento à pandemia. 

Na prática, senadores de oposição e independentes querem manter a pressão sobre o Palácio do Planalto e os aliados de Bolsonaro procuram diluir a atenção fazendo um pente-fino sobre a forma como o coronavírus foi enfrentando nas regiões. Nesta quinta-feira, 29, o governo foi mais uma vez derrotado ao não conseguir emplacar requerimentos que poderiam desviar o foco das investigações do Planalto.

Até agora, a CPI aprovou apenas a convocação dos ex-ministros da Saúde do governo Bolsonaro e do atual chefe da pasta, Marcelo Queiroga. A única articulação bem sucedida foi para adiar a convocação do ex-secretário de Comunicação Social Fábio Wajngarten.

O plano traçado pelo senador Marcos Rogério (DEM-RO), vice-líder do governo, para distribuir a investigação para outros Estados também chamou a atenção de opositores. O bolsonarista quer a convocação de quatro governadores (São Paulo, Bahia, Pará e Amazonas). Não fez, no entanto, nenhum pedido específico às autoridades de seu Estado. O governador de Rondônia é o coronel Marcos Rocha (PSL), que se inspirou na cartilha de Bolsonaro para enfrentar o vírus, viu o sistema de saúde entrar em colapso no início do ano e precisou transferir pacientes para outras regiões. Ambos têm  afinidade com Bolsonaro e trabalham em busca do apoio dele para 2022.

Na reunião desta quinta-feira, Marcos Rogério reclamou do ritmo que a oposição quer dar aos trabalhos. “O foco da CPI não pode ser aquele dado pelo relator”, afirmou o senador, após Renan se queixar da insistência em requerimentos que queriam “tirar o foco” da comissão. 

Outro governista que poderá fazer pressão contra um adversário que já está em posição desfavorável é Jorginho Mello (PL), pré-candidato à disputa em Santa Catarina. Alvo de processo de impeachment, o governador Carlos Moisés (PSL) se elegeu na esteira do bolsonarismo, mas rompeu com o presidente e foi afastado provisoriamente do cargo. Com Ciro, Girão e Marcos Rogério, Jorginho forma o grupo que trabalha para blindar Bolsonaro na CPI.

A CPI também tem entre seus integrantes um pré-candidato ao governo do Amazonas, o senador Eduardo Braga (MDB). O colapso no sistema de saúde de Manaus é um dos objetos da investigação do colegiado e, apesar de não ter assinado o pedido de convocação, Braga terá a chance de passar a limpo a atuação do seu rival Wilson Lima (PSC), atual governador do Amazonas. 

Braga é da ala que protege Renan e mira Bolsonaro. Lima é do grupo de governadores que defende o presidente e chegou a entregar a ele, na semana passada, o título de cidadão amazonense. O governo Bolsonaro foi avisado sobre o “iminente colapso” na saúde de Manaus com antecedência. 

O sexto titular da comissão com pretensões eleitorais é Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Apesar de apontar responsabilidades da equipe de Bolsonaro por erros na crise, Randolfe trabalha com a perspectiva de ver o avanço da CPI provocar impacto na campanha de seus adversários no Amapá. Ele é rompido com o atual governador, Waldez Goés (PDT), com quem chegou a trocar farpas por diferenças políticas, no fim do ano passado.

Senadores dizem que disputas locais não interferem

Em nota, Jorginho Mello afirmou que sua atuação na CPI será pautada “pela responsabilidade e pela isenção”. O senador disse, ainda, que todos os eventuais convocados “deverão ser ouvidos de forma imparcial, sejam eles médicos e especialistas ou representantes da administração federal, estadual e municipal”. 

Marcos Rogério, por sua vez, disse que o fato de não ter solicitado a convocação de autoridades de Rondônia mostra que ele não pretende usar a comissão para obter vantagens políticas. Segundo o vice-líder do governo, o critério até agora foi focar em Estados “onde a situação da pandemia tem maior influência na questão nacional”. “Tudo aqui precisa ser bem fundamentado e sem açodamento. É com essa serenidade que quero conduzir minha atuação e acredito que os demais senadores também deverão fazê-lo”, destacou. Também procurados, os demais senadores mencionados como pré-candidatos não se manifestaram. 

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