Senadores apoiam prorrogação da CPI do Cachoeira por mais 180 dias

Documento para estender trabalhos da comissão até maio de 2013 já foi assinado por 34 parlamentares

Rosa Costa, da Agência Estado

26 de outubro de 2012 | 13h37

Contrariando o governo, a CPMI do Cachoeira obteve no Senado o apoio de 34 senadores - sete além do necessário - para prorrogar os trabalhos por mais 180 dias, como quer a oposição. Na Câmara, em um único dia, 80 deputados assinaram o requerimento estendendo a investigação até maio. O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) acredita que não haverá dificuldade em obter as 47 assinaturas que faltam. O problema é que as assinaturas restantes no Senado e na Câmara devem ser obtidas até o dia 4 de novembro quando termina o prazo inicialmente previsto para o término do funcionamento da CPMI.

O futuro da comissão será decidido na reunião marcada para a próxima terça-feira, dia 30, às 15 horas. Lorenzoni prevê que os governistas querem evitar "uma queda de braço e o confronto com a sociedade" que, segundo ele, resultará do fato de a CPI virar pizza. A ordem no Palácio do Planalto, no entanto, é outra, de encerrar o quanto antes as investigações.

O líder do PSDB, senador Alvaro Dias (PR) afirma que transformar a CPMI em pizza, como quer o relator Odair Cunha (PT-MG), seria evidenciar a "ligação promíscua" do governo com a Construtora Delta. A empresa é a maior beneficiada por recursos do PAC,tendo recebido da União mais de R$ 3 bilhões desde o início do programa. O líder embasa suas suspeitas no bloqueio feito pela bancada governista contra os requerimentos para quebrar o sigilo bancário e fiscal de 29 empresas de fachada, suspeitas de atuarem como braços da Delta. Ele lembra que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) identificou "movimentações atípicas" em todas essas empresas. Ou seja, elas não produzem nada, mas recebem e repassam altas somas de dinheiro.

Na avaliação do líder do PPS, deputado Rubens Bueno (PR), há "indícios claros" de que essas empresas abasteceram partidos nas campanhas eleitorais de 2010, quando a presidente Dilma Rousseff foi eleita. "Tentam blindar o acesso para esconder caixas de campanha", acusa. Ele lembra que o relator e o presidente da CPMI, Odair Cunha e senador Vital do Rego (PMDB-PB), vêm paralisando os trabalhos sob os mais variados pretextos. A última alegação de Cunha é a de que já dispõe de dados para fechar seu relatório. Procurado, Cunha não atende ao telefone. Como a investigação não avançou, Rubens Bueno supõe que o relator se contentará em repetir no relatório fatos já divulgados pela imprensa. A suspensão dos trabalhos resultou no acúmulo de 508 requerimentos que não foram votados, entre eles os 29 do líder tucano pedindo a abertura das contas das "laranjas" da Delta.

No início das atividades, a CPMI foi atendida pela Polícia Federal no pedido de disponibilizar três servidores para ajudar no trabalho de investigação. Como dois profissionais vieram das superintendências fora de Brasília, receberam do Senado diárias que totalizam R$ 101 mil, segundo levantamento da ONG Contas Abertas. A Comunicação Social da PF informa que os três delegados à disposição da comissão, Alexandre da Silveira Ibarrola e Christian Robert Wuestern, que receberam as diárias, e Cairo Costa Duarte foram indicados "em virtude da grande experiência que possuem em operações policiais complexas, notadamente em assuntos relacionados a crimes financeiros e lavagem de dinheiro".

O certo é que, por mais experiente que sejam, sem acesso a dados, eles nada puderam fazer. O Senado, que bancou as diárias, esconde os valores, a exemplo do que faz em todas as ocasiões em que se questiona o uso de dinheiro público. Mas avisa que, se depender da Casa, a CPMI pode prorrogar o quanto quiser os trabalhos porque não faltará dinheiro. "Mesmo com o pagamento das referidas diárias aos delegados federais e transcorridos quase seis meses de trabalho, a CPMI não consumiu todos os recursos financeiros que foram previstos em sua instalação", informa a comunicação social da Casa.

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