Senadora nega favorecer OAS e Eike

Kátia Abreu rechaça acusação de que teria recebido R$ 2 milhões para alterar concessão de terminais portuários

Cida Fontes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

18 de julho de 2008 | 00h00

A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) negou ontem a acusação de que teria recebido propina de R$ 2 milhões da empreiteira OAS para aprovar emenda que alterava o modelo de concessão de terminais portuários privados, conforme trechos de escuta telefônica feita pela Polícia Federal. "Sempre tive compromisso com segmentos econômicos e defendo logística dos setores de transporte e portos para não inviabilizar o agronegócio", afirmou, ressaltando que, durante a discussão da Medida Provisória 412, o DEM fechou questão em favor da exploração dos portos pela iniciativa privada.Kátia Abreu ressaltou que essa é uma posição ideológica de seu partido, que sempre defendeu a economia de mercado. "Sempre lutei contra os cartéis", disse, para acrescentar que, se a emenda fosse aprovada, o "cartel de Dantas", que explora 46% dos contêineres do Porto de Santos com a empresa Santos Brasil, seria prejudicado. Do outro lado, beneficiaria outros empresários que desejam investir no setor portuário, que ela considera fundamental para o agronegócio.O suposto envolvimento de Kátia Abreu em favor da OAS e do empresário Eike Batista, interessados na flexibilização das regras portuárias, consta no relatório da PF sobre a Operação Satiagraha. Na conversa grampeada, revelada ontem pela Folha de S. Paulo, Arthur Joaquim de Carvalho, que trabalha no grupo de Daniel Dantas, comenta com Guilherme Sodré Martins, também ligado ao banqueiro, que a senadora teria recebido dinheiro e atraído para o seu lado o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), amigo pessoal de Carlos Rotenburg, vice-presidente do Opportunity.Kátia Abreu qualificou Arthur e Guilherme de "gângsteres" e "bandidos", afirmando que ambos sabiam da gravação. "Não posso admitir que um chefe de uma quadrilha (Dantas) tente intimidar senadores", afirmou.Além de se defender publicamente das acusações, a senadora entrou com duas ações judiciais. Na ação de interpelação judicial criminal, pede ao Supremo Tribunal Federal (STF) que notifique Arthur Carvalho e Guilherme Sodré para que esclareçam quem realmente estava recebendo propina.A outra ação de indenização por danos morais, feita à Justiça Federal, é contra a União, especificamente o Ministério da Justiça. A senadora acusa a PF, subordinada ao ministério, de não ter cuidado de documento sigiloso que estava sob sua guarda e responsabilidade.Revoltada e visivelmente abalada, Kátia Abreu deu entrevista ao lado do presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ). Ela interpretou o episódio como uma "vingança" à posição em favor do fim da CPMF e com o objetivo de desestabilizar sua candidatura à presidência da Confederação Nacional de Agricultura (CNA). Como relatora da MP do reporto, Kátia Abreu disse que fez reuniões com Eike Batista, interessado na flexibilização dos portos para explorar o setor, bem como com diretores da OAS. Na outra ponta, teve encontros no Congresso com dirigentes da Santos Brasil, como Wady Jasmin e Sergio Salomão, que defendiam os interesses de Dantas. Ela explicou que o grupo não apresentou argumentos convincentes.Como a MP estava expirando seu prazo, o líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR), fez um compromisso público para dizer que o governo baixaria um decreto para permitir a construção de portos privados sem limite de cargas, quando hoje a permissão só é dada para quem tem carga própria e acima de determinado teto."Por que a PF não investiga os motivos pelos quais até hoje a resolução da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) não foi alterada para honrar esse acordo?", questionou Kátia.

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