Senado empregou cunhada de Sarney

Shirley Duarte Pinto de Araújo integrou folha de pagamento da Casa por 6 anos e teria trabalhado para Roseana

BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

Surgiu mais um nome na lista de integrantes do clã Sarney com emprego no Senado. Trata-se de Shirley Duarte Pinto de Araújo, de 33 anos, cunhada do presidente da Casa, o senador José Sarney (PMDB-AP). Shirley integrou a folha de pagamento do Senado durante seis anos. Ela estava lotada no gabinete da ex-senadora Roseana Sarney (PMDB), hoje governadora do Maranhão. Saiu no último dia 8 de abril, nove dias antes de Roseana renunciar à vaga no Senado para assumir o governo de seu Estado. Shirley é mulher de Ernane Cesar Sarney Costa, de 61 anos, irmão de José Sarney e secretário particular de Roseana há anos.A cunhada de Sarney recebia do Senado, mas não costumava aparecer para trabalhar em Brasília, segundo revelou ontem o Correio Braziliense. Morava em São Luís. Segundo a assessoria de Roseana, ela prestava serviços à então senadora na capital maranhense.Shirley foi nomeada em fevereiro de 2003, como assistente parlamentar. Ganhava R$ 2,4 mil. Quatro anos depois, foi promovida a secretária parlamentar, um dos cargos de maior salário entre os funcionários da Casa. Passou a receber mensalmente R$ 7,6 mil.Shirley é personagem de outra história rumorosa. Seu nome apareceu nos documentos apreendidos pela Polícia Federal durante a Operação Navalha, que investigou os pagamentos que a construtora Gautama, do empresário baiano Zuleido Veras, distribuía a políticos de diferentes partidos. A empresa estaria envolvida com fraudes de obras públicas.Ela aparece como destinatária de depósitos cujos comprovantes foram recolhidos pela polícia em endereços da Gautama. Ernane, o marido dela, também foi flagrado na operação.LISTAA lista de parentes de Sarney contratados pelo Senado aumenta à medida em que avançam as pesquisas sobre os atos de nomeação, muitos deles secretos, assinados na época em que Agaciel Maia, compadre do senador, comandava a poderosa Diretoria-Geral do Senado. Foi Sarney quem nomeou Agaciel, há 14 anos. Além de Shirley, lista de nomeados incluiu um neto, uma nora e duas sobrinhas de Sarney e parentes do marido de Roseana, Jorge Murad.O primeiro nome que apareceu foi o de João Fernando Gonçalves Sarney, neto do parlamentar, que trabalhou até outubro no gabinete do senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA). A sua demissão foi escondida em 2008, por meio de ato secreto - o Supremo Tribunal Federal (STF) havia acabado de proibir o nepotismo. TRANSCRIÇÃO DO DIÁLOGOConversa entre Ernane Sarney e Gil Jacó Carvalho Santos, diretor financeiro da Gautama (25/04/2007, entre 10:24:29 e 10:26:56) Gil - Alô. Ernane Sarney - Alô, Gil. Gil - Oi Ernane - É o Ernane, de São Luís. Gil - Oi, doutor Ernane, como vai? O senhor tá bem? Ernane - Tá, tudo bem. Eu fui aí no casamento, rapaz. Falei, tive conversando com o homem aí, voltei com ele. Ele disse que tava tudo certo. Gil - O senhor teve no casamento? Ernane - Fui, fui, fui. Gil - Mas rapaz, eu não soube. Se eu soubesse eu lhe procurava lá para conhecer o senhor. Eu tava lá. Ernane - Tu tava lá também... É, ele falou que vocês tavam tudo lá, mas não dava pra encontrar, é muita gente, muita confusão. Gil - Muita gente, muita gente. Ernane - A gente pelo menos tinha falado, tinha conversado lá. Tá bom (apressando-se para encerrar o assunto do casamento). Gil - Hã, hã. Ernane - E aí, como é que tão as coisas? Você disse que ia falar,rapaz. Gil - Estão começando a melhorar aqui, rapaz, mas ainda não melhorou,não. A gente tá pra receber um recurso que tá pra entrar de Alagoas aqui... Ernane - Mas já tava certo aí, rapaz, tava tudo na mão... Vocês estão me enrolando. Gil - Tamo não, doutor, tamo não. Ernane - O meu amigo disse que tava tudo certo aí, que agora ia fazer logo agora. Gil - E tá pra fazer aqui. É que eu tive que pagar a folha, doutor. Eutive que pagar os peão aqui, senão os peão iam parar a zorra aqui. Ernane - Eu sei que tem muita coisa, mas isso aí também tem que sair, rapaz. Eu vi que, na hora que aquele cara veio pra cá com aquela porcaria, e eu disse que ele tinha enrolado, ele (disse) não, tava na mão, tava na mão. É só conversa, rapaz. Êta porra. E aí, como é que eu faço? Gil - Doutor, essa semana, eu vou ver, até sexta-feira eu devoconseguir aí. Ernane - Ah, essa semana... Era um dia... era segunda-feira que tava na mão, ia sair de noite, e não saiu até hoje. Gil - Até hoje eu não consegui. Ernane - É, tá brabo isso. Rapaz, fala com ele pra pedir prioridade(...) Ele me garantiu. Vou voltar a perturbar ele. Vou voltar aperturbar. Gil - Eu retorno pro senhor. Ernane - Eu tô esperando, mas o telefone de vocês não liga, só recebe, eu tô vendo que só eu que tô... Gil - Meu telefone tá normal aqui... Ernane - Não, só tá recebendo. Ligar, tu diz que vai ligar, vai ligar, e nunca liga. E nunca acontece. E eu tô vendo que esse negócio não tá certo, não. Gil - Mas vai resolver, doutor. Ernane - É vai, por Deus vai, mas eu tô com a corda no pescoço e o pessoal também tá com a corda no pescoço aqui, rapaz (...) Tá bom, vou perturbar ele lá. Gil - Tá bom, doutor.

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