Senado cria nova CPI dos Cartões

Interesse dos parlamentares, agora, é avançar na investigação sobre a origem do dossiê com gastos de FHC

Rosa Costa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

09 de abril de 2008 | 00h00

Sem conseguir furar o bloqueio da base aliada na CPI mista que investiga o uso irregular de cartões corporativos, senadores de oposição formalizaram ontem a criação de uma segunda comissão de inquérito a ser conduzida exclusivamente por senadores. O requerimento de criação da nova CPI foi apoiado por 32 senadores - 5 além dos 27 necessários - e lido pelo presidente da Casa, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN).No radar dos senadores, agora, não se destaca mais o mau uso dos cartões. O interesse é avançar na investigação sobre a origem do dossiê com os gastos reservados do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, supostamente produzido pela Casa Civil. Com 11 integrantes titulares e 6 suplentes, a CPI do Senado também será dominada pela base aliada. De acordo com as bancadas, o governo terá oito senadores e a oposição, apenas três.O bloco governista (PT-PR-PSB-PCdoB-PP-PRB) vai indicar três senadores; PMDB, que faz parte da aliança, outros três, PTB e PDT, que também fazem parte do loteamento governista, um senador cada. DEM e PSDB indicarão, no total, outros três. Na realidade, DEM e PSDB querem usar a CPI como cunha para levar a investigação para o plenário do Senado. Pelo regimento da Casa, requerimentos derrotados na comissão de inquérito podem passar por um segundo teste no plenário e ser aprovados, desde que contem com apoio de 41 dos dos 81 senadores. A CPI seria, assim, apenas uma espécie de primeira instância das investigações. No cálculo da oposição, a manobra imprimiria um desgaste mais prolongado ao governo. "Essa história de recorrer a toda hora ao plenário não vai funcionar. Fosse assim, não teríamos CPI, apenas investigação no plenário", criticou o presidente do Senado.Mesmo no plenário, a base de sustentação do Palácio do Planalto é majoritária, com uma população de parlamentares fiéis oscilando entre 46 e 50. Ontem, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), avisou a oposição que o PMDB vai escalar os "linha-dura" do partido, fechados com o governo, para a CPI. O próprio Jucá deve ser um dos representantes do partido na comissão. A instalação da CPI dos senadores marcou mais um capítulo na deterioração das relações da base com a oposição. Ontem, de última hora, Garibaldi patrocinou um almoço de entendimento para evitar esta segunda investigação. Sem sucesso. Na montagem da CPI mista, Jucá negociou a presidência com a senadora tucana Marisa Serrano (PSDB-MS) em troca do sepultamento da CPI exclusiva dos senadores. "Com uma CPI só no Senado não tem mais acordo. Escolheremos o presidente e depois o relator", disse Jucá. Diante do fato consumado, a líder do bloco do governo, Ideli Salvatti (PT-SC), tentou impedir a formação da CPI, alegando que não podem existir duas investigações sobre o mesmo assunto. "Quando já existe um juiz determinado, não pode haver o segundo.""É muita vontade de não apurar nada", ironizou o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM). "Estamos é impedindo que a apuração vire uma pizza gigante." Para o líder do DEM, José Agripino, a outra CPI, onde o governo têm maioria expressiva, "é uma farsa".Oficialmente, entre os fatos que devem ser apurados estão as despesas nos últimos nove meses, com gastos de R$ 55 mil no cartão corporativo do governo utilizado por um dos encarregados da segurança da filha do presidente Lula, Lurian Cordeiro da Silva, na compra de autopeças, materiais de construção, combustível e munição.O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), disse que está "incrédulo" quanto ao êxito dos trabalho da comissão. "Qualquer pessoa de bom senso haverá de chegar à conclusão de que uma CPI precisa ter tranqüilidade para apurar a verdade", alegou. "Duas CPIs sem tranqüilidade, sem compreensão dos verdadeiros deveres de uma apuração, eu faço pouca fé nesse trabalho." FRASESArthur VirgílioLíder do PSDB no Senado"É muita vontade de não apurar nada"Demóstenes TorresSenador do DEM"O acordo foi quebrado quando o governo colocou alguns deputados, os mais desqualificados, alguns que não têm biografia, para impedir a investigação"Garibaldi Alves (PMDB)Presidente do Senado"Duas CPIs sem tranqüilidade (...), eu faço pouca fé nesse trabalho"Ideli Salvatti (PT-SC)Líder do governo"Quando já existe um juiz determinado, não pode haver o segundo"

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