Alan Santos/PR
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Sem Trump, discurso de Bolsonaro é visto como pouco importante por líderes mundiais; leia bastidor

Participação de brasileiro na ONU representou 'trumpismo sem Trump'

Beatriz Bulla, Enviada especial a Nova York

24 de setembro de 2021 | 13h20

Jair Bolsonaro subiu ao palco da 76a Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas para repetir parte do projeto bolsonarista que apresentou ao mundo em 2019. Mas, desta vez, o presidente brasileiro chocou menos os líderes internacionais. Até porque eles já conhecem Bolsonaro e não esperam que o brasileiro assuma outra persona no curso de um só mandato. Também porque enxergam a próxima eleição brasileira pela janela e não acham que valha a pena se desgastar com um presidente que pode estar com os dias contados. Por último, porque o cenário internacional mudou e restou ao presidente do Brasil representar um "trumpismo sem Trump", como definiu um chefe de Estado. E, sem Trump, acham que até o orgulhoso "Trump dos trópicos" precisou se adaptar.

Ele estava na crista da onda mundial em 2019. Podia – pois tinha respaldo no discurso que viria logo após ao seu – ser puramente o populista de direita, anti-instituições e anti-multilateralismo na abertura do encontro anual da ONU. Com Joe Biden no comando da Casa Branca, precisou assumir, por exemplo, que é possível reduzir o desmatamento na Amazônia com maior fiscalização ambiental. É algo que não caberia no discurso de 2019, no qual ele culpou os indígenas pelas queimadas na floresta.

"Se tirar cinco ou seis parágrafos do 'estilo Bolsonaro', conseguimos ver a volta do Itamaraty no discurso", diz o mesmo chefe de Estado, que não quer ser identificado. O mesmo líder estrangeiro afirma que o mundo sabe que Bolsonaro quer agradar uma base eleitoral, como Trump sempre fez e desta vez ainda mais, pois se vê ameaçado por uma versão de Lula "recauchutada" e em "uma forma impressionante". Se limpar o apelo à base, diz, é possível ouvir a fala em um tom mais baixo do que o de 2019.

Para o diplomata de outra delegação estrangeira, não surpreende escutar Bolsonaro atacar o socialismo, se apresentar como um conservador ou defender a cloroquina. Desta vez, segundo a mesma fonte, ao menos ele não se envolveu em ataques diretos a uma outra nação, como aconteceu com o francês Emmanuel Macron, há dois anos.

Até saber o desfecho da disputa de 2022, os países dizem querer trabalhar com Bolsonaro apesar de Bolsonaro. Sem Ernesto Araújo no Itamaraty, segundo todos eles, esse trabalho é um pouco mais fácil. Biden, por exemplo, não quer sua imagem associada ao brasileiro, mas conta com o alto escalão de seu governo para manter o canal aberto com Brasília. A agenda de Washington é pragmática: eles precisam da adesão de outros países em torno da agenda climática para que o democrata consiga se credenciar como um líder ambiental.

Chamam o novo chanceler, Carlos França, de "razoável" e "pragmático", nos corredores da ONU. Em uma reunião de mais de 45 minutos com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, ele indicou ao americano que o governo fez uma "inflexão" na pauta ambiental em abril, quando Bolsonaro prometeu dobrar o orçamento do Ibama. Blinken, por sua vez, elogiou que o brasileiro tenha voltado ao tema na abertura da ONU e reafirmado seus compromissos.

Mas França sai de Nova York com gosto agridoce na boca. Diz em reuniões estar satisfeito com o avanço de conversas bilaterais, como a com americanos, mas acumulou desgostos. O principal é o fato de ter aparecido em um vídeo fazendo um gesto que parece com a tradicional "arminha" de Bolsonaro e seus filhos. Ele garante a assessores que não é o que parece e que apenas apontava para alguém da comitiva. Os mais próximos afirmam que isso o deixou "devastado", enquanto o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, pareceu orgulhoso por mostrar o dedo do meio a manifestantes contrários ao governo.

França também não conseguiu emplacar a ideia de fazer Bolsonaro anunciar a doação de doses de vacina a países da região, algo que acreditava que repercutiria positivamente em meio aos constrangimentos passados pela comitiva brasileira em NY. O projeto do Itamaraty prevê a doação de 3,9 milhões de doses de vacina contra covid-19 a que o Brasil tem direito pelo consórcio Covax Facility. Falta o parecer jurídico do Ministério da Saúde para colocar em prática. E Bolsonaro colocar para a frente.

Quando terminou seu discurso, o presidente brasileiro desceu do palco e sentou-se no plenário para ouvir Joe Biden. Por mais de 30 minutos, escutou o americano defender o multilateralismo, as soluções diplomáticas e a democracia. Ele sabe que o vento mudou. E, nesta nova brisa, parece que o bolsonarismo é levado ainda menos a sério entre os líderes mundiais.

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