Sem-terra preparam ocupações no interior

Revisão de produtividade no campo causa corrida a acampamentos

José Maria Tomazela, ARAÇATUBA, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

A expectativa da revisão dos índices de produtividade no campo pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já causa uma corrida aos acampamentos de sem-terra no interior de São Paulo. Em Araçatuba, noroeste do Estado, moradores urbanos e cortadores de cana engrossam o Adão Preto, um grande acampamento formado por dissidentes do Movimento dos Sem-Terra (MST), considerado o maior do Brasil. Desde a semana passada, o local passou a receber em média 20 famílias por dia.

O coordenador Claudemir Silva Novaes chegou a suspender temporariamente o ingresso de novos acampados por falta de estrutura. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) utiliza os índices para avaliar a produtividade das fazendas e desapropriar áreas improdutivas para a reforma agrária. A revisão aumentará em até 100% o mínimo de produção a ser alcançado no campo. Na região noroeste, a nova fronteira da cana-de-açúcar em São Paulo, muitas fazendas não atingirão o novo índice, segundo Novaes. "São áreas que estão no limite da produtividade atual, de 70 toneladas de cana por hectare", disse.

Assim que os novos índices entrarem em vigor, lideranças dos sem-terra pedirão ao Incra a vistoria nas fazendas. "O presidente Lula quer que a revisão saia já." As terras improdutivas estarão na mira dos sem-terra, afirmou Novaes. "Só não vamos ocupar áreas que estiverem dentro dos índices." O acampamento, criado no final de março pelo líder da dissidência, José Rainha Júnior, tinha cerca de mil famílias na última quarta-feira e novos acampados não paravam de chegar. Os 850 barracos ocupam dois quilômetros das faixas laterais de uma rodovia vicinal no distrito de Engenheiro Taveira.

Desempregado, Salvador da Rocha empregou as economias na compra de madeira e telhas. Ele ganhou a lona plástica de um vizinho e fretou um caminhão para levar tudo até o Adão Preto. A família de José Osvaldo Mianuti, de 67 anos, também chegou há poucos dias. "O tempo de espera não importa, tenho certeza que valerá o sacrifício." Sem energia elétrica, nem água encanada, cada acampado paga R$ 0,50 por semana pela água de um caminhão-pipa. O governo federal mandou 600 cestas básicas para os que permanecem no local - a maioria tem casa na cidade e fica no barraco só dois dias por semana.

Cercado por canaviais e fazendas de gado, o Adão Preto se formou graças à migração de José Rainha, Novaes e outros líderes sem-terra que atuavam no Pontal do Paranapanema, no extremo oeste, para a região. Muitos acampados têm automóveis e circulam de caminhoneta. "É gente que foi expulsa do campo para a cidade e quer voltar para o campo", explica Novaes.

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