Sem-terra ocupam e pedem desapropriação de usina em PE

Justiça já concedeu liminar e espera que manifestantes deixem o local nesta terça sem confrontos

Angela Lacerda, do Estadão

08 de outubro de 2007 | 15h52

Trabalhadores rurais sem-terra coordenados por quatro movimentos que lutam pela reforma agrária em Pernambuco ocuparam na madrugada desta segunda-feira, 8, a Usina Salgado, no município de Ipojuca, no litoral sul, uma das 10 maiores do Estado, que se encontra em plena safra de cana-de-açúcar. Numa ação conjunta, Fetape, Fetraf, MLST e CPT reivindicam a desapropriação da usina e do seu parque fabril. O prejuízo da empresa, que considerou a invasão "absurda", é de R$ 600 mil por dia paralisado. À tarde, o juiz da comarca, Haroldo Carneiro Leão Sobrinho, concedeu liminar à reintegração de posse impetrada pela usina e determinou multa de R$ 5 mil no caso de nova ocupação. Uma oficial de justiça fez a notificação, mas os manifestantes não aceitaram sair. A direção da empresa preferiu esperar uma saída pacífica nesta terça. Os movimentos aguardam a presença de representantes do governo federal para negociar. A ocupação inaugura no Brasil, de acordo com os movimentos, a luta por um novo conceito de reforma agrária, com a desapropriação de empresas produtivas que possuam dívidas com o governo federal. Eles acusam a Usina Salgado - de propriedade da família do ex-deputado federal constituinte e ex-vice-prefeito de Ipojuca, Marcos Queiroz (PSB) - de ter uma dívida de R$ 83 milhões com o INSS e de ocuparem irregularmente terras de propriedade da União. A área total da Salgado é de 15 mil hectares. O superintendente do Incra, Abelardo Siqueira, considerou correta a ação dos movimentos, no caso de se comprovar débitos da usina com o governo federal. "Se for desapropriar terra só pela improdutividade não tem reforma agrária em Pernambuco", garantiu ele, depois de uma reunião com as lideranças dos quatro movimentos, no parque ocupado. "O estoque de terras no Estado é zero e há uma demanda de 30 mil famílias sem-terra". "Reforma agrária com terra e enxada está ultrapassada", resumiu o dirigente nacional do Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), Josival Oliveira. "Para avançar na reforma agrária temos que fazer parte do processo industrial". O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetape), Aristides Santos, destacou que os trabalhadores não querem que a direção das empresas em débito passe simplesmente para as mãos dos trabalhadores. "O trabalhador deve assumir o agroindustrial num modelo de auto-gestão, com diversificação de culturas ao invés da monocultura, e em condição de disputar mercado", explicou.  "A visão que pregamos é diferente: o lucro sai das mãos de alguns poucos para ser transferido em forma de benefício para os trabalhadores". Os movimentos destacaram não serem contra a produção de álcool, mas querem um "PAC da reforma agrária", querem estar incluídos no modelo de desenvolvimento, na forma de empresas comunitárias ou cooperativas populares. Plácido Júnior, da direção estadual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), frisou que um crescimento com inclusão social é incompatível com a Usina Salgado por estar "nas mãos de apenas uma família, gerando miséria, sonegação, ocupação ilegal das terras públicas e monocultura, em plena região metropolitana". Pacífico Os organizadores da ocupação estimam que 2 mil pessoas participaram da ação. Para a Usina Salgado, foram 700. De forma pacífica, eles entraram e se espalharam pela área administrativa, sem ameaçar invadir o parque industrial. A direção da empresa paralisou a atividade industrial para evitar acidentes ou qualquer tipo de provocação. Na estrada de acesso à usina, pelo menos 15 treminhões (cavalo com três carretas) carregados de cana-de-açúcar aguardavam para levar as cargas para moagem. Tiveram passagem impedida pelos manifestantes. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o maior do Estado, foi convidado para integrar a ação conjunta, mas não aceitou. Juntos, MLST,CPT, Fetraf e Fetape são bem maiores que o MST. Para eles, a ausência do MST "evita conflitos", porque o movimento não segue as regras de convivência, nem respeita o entendimento firmado pelas organizações. "Age como se fosse o único", disse Plácido Júnior, em nome das lideranças da ocupação.  Texto atualizado às 21h18

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