Sem-terra morre durante conflito com Brigada Militar

Brigada Militar reuniu cerca de 300 soldados para executar mandado de reintegração de posse

Elder Ogliari, de O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2009 | 18h41

O sem-terra Elton Brum da Silva, de 44 anos, dois filhos, morreu durante conflito entre integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e soldados da Brigada Militar (a polícia militar gaúcha) nesta sexta-feira, em São Gabriel, no sudoeste do Rio Grande do Sul. Ele foi atingido nas costas por um tiro de espingarda calibre 12, de uso das forças de segurança. Outros nove sem-terra e seis policiais militares ficaram feridos sem gravidade.

 

O confronto ocorreu ao amanhecer, num acampamento que os sem-terra haviam montado no dia 12 dentro de uma área da Fazenda Southall, que desejam ver desapropriada para reforma agrária. A Brigada Militar reuniu cerca de 300 soldados para executar o mandado de reintegração de posse emitido pela Justiça ainda na semana passada.

 

O prazo para a desocupação estava encerrado desde sábado (15), mas os cerca de 270 sem-terra manifestavam disposição de ficar no local. A Brigada Militar cercou o acampamento com suas tropas e levou junto um caminhão de bombeiros, uma ambulância, conselheiros tutelares e uma representante do Ministério Público, a promotora Lisiane da Fonseca.

 

Os policiais usaram uma retroescavadeira e um trator para abrir caminho na barricada formada por galhos secos e uma pequena trincheira cavada em círculo em torno das barracas. Em meio à operação houve um confronto, durante o qual o tiro foi disparado. A causa e a circunstância em que Silva foi atingido não estavam esclarecidas até o final da tarde. A Polícia Civil da São Gabriel começou a tomar depoimentos, mas ainda não tinha uma descrição do disparo.

 

O coronel Hildebrando Sanfelice, chefe do Estado Maior da Brigada Militar, disse que a Brigada Militar avançou enfrentando foices, paus e pedras. Além das armas não letais para dissuasão dos invasores, alguns soldados portavam revólveres e espingardas carregados. Segundo a versão da corporação, os policiais avistaram um ferido caído ao chão e prestaram socorro, levando-o a uma ambulância, que seguiu para a Santa Casa de Caridade de São Gabriel, a 22 quilômetros. O conflito acabou em pouco menos de cinco minutos. Os sem-terra foram divididos em grupos de 20 a 25 pessoas, que passaram a ser identificadas.

 

No final da manhã, a notícia da morte de Silva surpreendeu policiais e sem-terra que permaneciam no acampamento. Segundo Sanfelice, todas as armas longas portadas pelos soldados foram recolhidas para perícia. O oficial admitiu que "é quase certo" que o disparo partiu de um policial militar e confirmou que nenhuma arma de fogo foi encontrada entre os invasores. Além do inquérito da Polícia Civil, um Inquérito Policial Militar vai investigar de qual arma partiu o tiro e quem foi o autor do disparo.

 

O MST divulgou nota na qual qualificou a ação da Brigada Militar de "truculenta e violenta" e sustentou que o assassinato, com tiro pelas costas, ocorreu quando a situação já estava controlada. O movimento também responsabilizou a governadora Yeda Crusius (PSDB-RS), que é hierarquicamente a comandante da Brigada Militar, pela "política de criminalização dos movimentos sociais e de violência contra os trabalhadores urbanos e rurais". Afirmou, ainda, que "o uso de armas de fogo no tratamento dos movimentos sociais revela que a violência é parte da política deste Estado" e ressaltou que exige justiça e punição aos culpados". Na única manifestação que fez sobre o assunto, durante a inauguração de leitos no Hospital Parque Belém, em Porto Alegre, Yeda disse que a morte do sem-terra deve ser apurada com rigor e de maneira aberta.

 

Ao longo do dia os sem-terra foram levados de volta para o acampamento de onde haviam saído para a invasão, localizado dentro de um assentamento feito numa parte da própria fazenda Southall comprada pelo Incra no final do ano passado. Cerca de 20 líderes do grupo prestaram depoimento na delegacia de São Gabriel.

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