Sem-terra invadem horto florestal de Rio Claro

Invasores querem que 70% da área do parque sejam destinado ao assentamento das famílias

José Maria Tomazela, de O Estado de São Paulo,

17 de janeiro de 2010 | 16h03

Cerca de 100 integrantes da chamada Associação Brasileira do Uso Social da Terra (Abust) invadiram, no final da tarde de sábado,16, a Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade (Feena), em Rio Claro, a 172 km de São Paulo. Os invasores, na maioria dissidente do Movimento dos Sem-Terra (MST) e procedente de cinco acampamentos da região, montaram barracos na área de aceiro - faixa de proteção contra queimadas - dentro dos limites da propriedade.

 

O antigo Horto Florestal, criado em 1909 e transformado em floresta estadual em 2002, é considerado o berço do eucalipto no Brasil e tem o maior banco genético dessa espécie no País. A casa-sede foi tombada pelo patrimônio histórico estadual. A unidade de conservação é administrada pela Fundação Florestal, órgão da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

 

Os sem-terra querem que 70% da área total, de 2.230 hectares, sejam destinados ao assentamento das famílias. De acordo com o porta-voz que se identificou como Luiz, o grupo quer que representantes do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) e da superintendência estadual do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) compareçam ao local para negociar as terras que não estão sendo utilizadas. "Soubemos que os hortos florestais estão à disposição do governo para fazer a reforma agrária e queremos um pedaço para as famílias."

 

O acampamento foi montado na parte da floresta que faz divisa com os canaviais da Usina Iracema. O local é de acesso difícil por causa das chuvas. O líder disse que a ocupação foi pacífica e sem danos à propriedade. O movimento é novo e está em processo de organização, segundo ele.

 

O diretor executivo da Fundação Florestal, José Amaral Wagner Neto, disse que a unidade de conservação é protegida por leis estaduais e federais e não pode ter destinação diferente daquela prevista no plano de manejo, que é o uso sustentável para pesquisa, turismo e preservação da biodiversidade. "Amanhã (hoje) vamos tomar as providências judiciais para que aquelas pessoas deixem o local." Segundo ele, para evitar que a invasão se estenda a outras áreas, a segurança foi reforçada pela Polícia Ambiental. "Temos o dever de zelar por aquele patrimônio", justificou.

 

A prefeitura de Rio Claro destacou homens da Guarda Municipal para auxiliar na vigilância. Moradores que integram a Associação Amigos do Horto também se dirigiram para o local. "Eles vieram para o lugar errado, pois esse é um patrimônio não só de Rio Claro, mas do Brasil", disse o pesquisador científico José Luiz Timoni, integrante do conselho da floresta estadual.

 

O nome do antigo horto florestal de Rio Claro, que comemorou um século no ano passado, homenageia Edmundo Navarro Carvalho, o pesquisador que, em 1914, trouxe da Austrália 144 espécies de eucalipto. Ele residia no local e transformou o horto no principal centro de pesquisas dessa planta no País. Os resultados do seu trabalho estão no Museu do Eucalipto instalado na unidade.

 

A assessoria de imprensa Itesp informou que não há qualquer acordo entre o órgão estadual e o Incra sobre a possibilidade de instalação de assentamento na da área do horto. O grupo responsável pela ocupação não é conhecido do Itesp. O órgão informou ainda que as providências para preservação da unidade de conservação de Rio Claro estão sendo adotadas pela Polícia Ambiental e pela Fundação Florestal. A reportagem não conseguiu contato com o Incra estadual.

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