Sem-terra atacam agronegócio com ação em 13 Estados

Via Campesina usa alta dos alimentos e desencadeia invasões de indústrias, obras, rodovias e fazendas

O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2008 | 00h00

A organização Via Campesina aproveitou a situação conjuntural do País, com a alta dos preços dos alimentos, para desencadear uma onda de protestos - que atingiu 13 Estados, com ações urbanas e na zona rural. Foram ocupadas sedes de indústrias e canteiros de obras, paralisadas rodovias e invadidas propriedades rurais. Em nota distribuída à imprensa, a organização explicou que protesta contra o modelo agrícola do País, que favorece as grandes empresas do agronegócio, especialmente as estrangeiras. Enquete: Na sua opinião, o protesto dos sem-terra é legítimo? "Queremos produzir alimentos", diz o texto. Logo em seguida afirma que a política agrícola do governo favorece o avanço da cultura de exportação em grandes áreas, assim como os projetos de reflorestamento e de produção de etanol.A Via Campesina - representada no País por diversas entidades, entre elas o Movimento dos Sem-Terra (MST) - contou com o apoio da Assembléia Popular, uma reunião de organizações populares urbanas, articulada por setores da Igreja Católica. Em São Paulo, cerca de 400 manifestantes invadiram a sede do grupo Votorantim, um dos maiores conglomerados industriais do País. A empresa foi escolhida porque pretende construir uma hidrelétrica no Rio Ribeira de Iguape, entre São Paulo e Paraná. Para a Via Campesina, a obra afetará terras aptas à agricultura.Em Mirante do Paranapanema, no interior do Estado, 500 militantes do MST invadiram as obras de construção de uma usina de açúcar e álcool, do grupo Odebrecht. Os manifestantes obrigaram os trabalhadores a se retirar do local e montaram barracos, ameaçando permanecer ali por tempo indeterminado.MUDAS DESTRUÍDASEm Carpina, Zona da Mata de Pernambuco, foi invadida a Estação Experimental de Cana-de-Açúcar, mantida em parceria entre o Sindicato do Açúcar e do Álcool e a Universidade Federal de Pernambuco. Os invasores destruíram mudas de novas variedades de cana e uma área plantada com 100 hectares. Explicaram que ali poderiam ser assentadas cerca de 50 famílias para a produção de alimentos.Outra indústria que teve instalações ocupadas foi a Bunge, em Passo Fundo (RS). Para a Via Campesina e o MST, a empresa está entre as que tentam monopolizar o setor de alimentos e é responsável por altas nos preços.Além de São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul, as ações da Via Campesina atingiram Minas Gerais, Rondônia, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Santa Catarina, Alagoas, Paraná, Tocantins e Paraíba. Em Rondônia eles impediram durante algumas horas o tráfego na BR-364, a 20 quilômetros de Porto Velho. No Tocantins, bloquearam a estrada de ferro da Vale do Rio Doce, na altura de Darcinópolis.A Vale também foi alvo das manifestações em Minas: a linha férrea da mineradora que passa por Belo Horizonte foi bloqueada na altura do bairro São Geraldo. Segundo os manifestantes, eles protestavam contra os transtornos causados pela ferrovia no trânsito daquela área.A Via Campesina vai divulgar hoje em Brasília um documento com sugestões para mudanças na política agrícola. Deve ser ignorado pelo governo: na segunda-feira, véspera dos protestos, o Ministério do Desenvolvimento Agrário tinha apresentado no Planalto o Programa Mais Alimentos, que se destina a "se contrapor à crise alimentar mundial e à alta excessiva dos preços das commodities agrícolas". ROLDÃO ARRUDA, JOSÉ MARIA TOMAZELA, ANGELA LACERDA, EVANDRO FADEL, KELLY LIMA e RICARDO RODRIGUES

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