Sem-terra admitem uso de armas para resistir à reintegração

A Câmara de Férias do Tribunal de Justiça de Pernambuco decidiu hoje manter a reintegração de posse do Engenho Prado, no município de Tracunhaém, na zona da mata, e determinar que nenhuma benfeitoria realizada pelos sem-terra na área deva ser indenizada. A reação foi imediata. "Vamos nos organizar para resistir, vamos nos armar, vamos procurar uma forma de combate, porque a violência está declarada", afirmou o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Jaime Amorim. Ele considerou a decisão "descabida e arcaica" e admitiu o uso de armas de fogo na resistência. "Em defesa da vida toda forma de luta é possível", complementou o coordenador estadual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Plácido Júnior, ratificando que os trabalhadores poderão decidir lançar mão de armas de fogo para impedir que sejam despejados do engenho. "Não descartamos qualquer possibilidade, porque a decisão do Tribunal foi a de tirar as vidas dos trabalhadores", afirmou. Ele disse que o Prado foi considerado improdutivo em recente vistoria do Incra e que os trabalhadores já são considerados posseiros, pois estão no local há mais de seis anos. Segundo ele, a CPT avalia em R$ 5 milhões as lavouras cultivadas pelos sem-terra no engenho, as quais abastecem as feiras de cinco municípios da região. Os líderes dos dois movimentos responsabilizam o Tribunal, de antemão, pelo que vier a acontecer em um possível confronto entre os sem-terra, a polícia e os seguranças do engenho que pertence à Usina Santa Teresa, do grupo empresarial João Santos. "O Tribunal de Justiça teve a grande oportunidade de ser imparcial, mas o poderio econômico falou mais alto", disse Plácido Júnior. "Isto é uma grande vergonha para o Judiciário". O presidente da Câmara de Férias, desembargador Luiz Carlos Freitas Medeiros, retrucou que a decisão foi fundamentada na lei e que uma situação de confronto na área deve ser cobrada do governo federal. "O presidente Lula prometeu fazer reforma agrária em toda a sua campanha e até agora não realizou", criticou. Para ele, é tarefa do Governo do Estado evitar o conflito que se desenha, policiando o local. O Engenho Prado tem 220 famílias de trabalhadores sob a coordenação da CPT, mas conta com o apoio do MST, cujos integrantes deverão reforçar a área para a prometida resistência.

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