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Sem Tancredos e Teotônios

No vácuo de lideranças, surge a tese da assembleia de notáveis para a reforma política

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2017 | 03h00

Justamente quando a Lava Jato corre solta, com o Congresso, os partidos e os políticos numa situação dramática, estão sendo lançadas duas biografias fascinantes, escritas por jornalistas. Em Senhor República (Record), Carlos Marchi usa a incrível trajetória de Teotônio Vilela para um passeio pela história recente e, em Tancredo Neves, o príncipe civil (Objetiva), Plínio Fraga decifra uma das mais instigantes esfinges da política brasileira.

Uma pergunta grita e aflige diante de cada obra: onde estão hoje os Teotônios e Tancredos? E os Ulysses Guimarães? Cadê os grandes políticos, que têm força moral e espírito público, negociam, recuam para avançar, confrontam quando necessário, compõem quando convém? Aliás, cadê os especialistas em suas áreas, como os economistas Roberto Campos e Delfim Netto?

A resposta é desoladora: eles desistiram de eleições e sumiram do Congresso, deixando um vazio que vem sendo preenchido, legislatura após legislatura, por aventureiros que saem de minutos de glória para mandatos nos quais o que parece importar menos é o bem público.

A confirmação desse movimento explodiu, com toda a sua dimensão, quando o inqualificável Severino Cavalcanti se elegeu presidente da Câmara. Foi aí que a mídia e a opinião pública abriram os olhos e descobriram, atordoadas, que os líderes dos principais partidos eram desconhecidos e espertos e que o chamado “baixo clero” estava no comando.

Para o agora ministro Roberto Freire (PPS), experiente parlamentar, essa renovação da fauna política tem um lado positivo. Com a redemocratização, as novas mídias e o crescente ativismo popular, ele acha natural que a representação política deixe de ser quase que exclusividade das elites e atinja um raio muito maior de atores e setores da sociedade.

Será que é só isso? E a imagem negativa dos políticos e da própria política, a percepção de que “são todos iguais”? Pergunte-se numa turma de Direito, Ciências Sociais, Jornalismo, Medicina... quantos ali têm interesse pela carreira política. Se um responder sim, já será um alívio. E, como eles não se interessam, outros certamente entram no vácuo, inclusive com o sopro das novas igrejas evangélicas. Onde isso vai parar?

Afora os forasteiros, quem ocupa o Congresso, governos e prefeituras são, por exemplo, os filhos, mulheres, sobrinhos, netos e bisnetos de sobrenomes tradicionais da política, como os próprios Aécio Neves, neto de Tancredo, e o ex-governador de Alagoas Teotônio Vilela Filho. E há muitos outros, como ACM Neto e Jutahy Magalhães na Bahia, a ex e a atual mulher de Jader Barbalho no Pará, os Sarney e os Lobão no Maranhão...

Com a Lava Jato pairando sobre mais de uma centena de políticos, o TSE se preparando para condenar 26 dos 29 partidos por mau uso do fundo partidário e uma guerra com ares de o “bem” contra o “mal”, que jovem idealista vai pular nesse barco que faz água por todos os lados?

É por essa e outras que os juristas Modesto Carvalhosa, Flavio Bierrenbach e José Carlos Dias lançaram no Estado um Manifesto à Nação propondo uma assembleia de notáveis para fazer a reforma política. Quando o então ministro Tarso Genro teve a mesma ideia, ela foi abafada porque “usurparia poder do Legislativo”.

A crítica fazia sentido à época, mas não faz mais. Qualquer reforma política sugerida hoje no Congresso já nasce sob uma suspeição proporcional à suspeição dos próprios deputados e senadores. Eles que aceitem essa realidade. Há hora de demonstrar força e hora de admitir fragilidade e o Congresso nunca esteve tão frágil em tempos de democracia.

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