Sem partido, Marina diz que torce por Dilma

Depois de se desfiliar do PV, ex-senadora afirma que sociedade deve apoiar presidente se ela mostrar disposição de ir a fundo na luta contra corrupção

Roldão Arruda, de O Estado de S.Paulo, e Daiene Cardoso, da Agência Estado

08 de julho de 2011 | 23h53

Marina Silva parecia tranquila e leve na sexta-feira, 8, pela manhã, no seu primeiro dia fora do PV - e ainda sem nenhuma inclinação por qualquer sigla partidária no atual cenário político. Em entrevista ao Estado, quando indagada sobre o que achava do fato de a presidente Dilma Rousseff ter convidado o senador Blairo Maggi (PR-MT)para o Ministério dos Transportes ela riu e disse: "Ainda bem que não foi para o Meio Ambiente."

 

Na época em era ministra do Meio Ambiente, no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ela andava às turras com o então governador Maggi, que também é empresário na área do agronegócio e a acusava de exagerar nas informações sobre o desmatamento.

 

 

Apesar do riso, Marina disse que torce pelo governo de Dilma. Deixou claro que, embora afastada do guarda-chuva partidário, nem pensa em se distanciará da política. Ela já se prepara para as eleições de 2012, quando deve subir no palanque de candidatos a prefeito identificados com as propostas de sustentabilidade defendidas pelo movimento suprapartidário que irá organizar a partir de agora. Por outro lado, não nega totalmente, a possibilidade de voltar a concorrer à Presidência em 2014.

 

No momento vai se dedicar a conversar com políticos de diferentes partidos sobre o que ela chama de "uma nova forma de fazer política". Seu leque de interlocutores é amplo inclui deputados e senadores do PT, PDT e PSB. Também anda conversando com a ex-senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), que concorreu à Presidência em 2006 e hoje é vereadora em Maceió.

 

A seguir, a íntegra da entrevista:

 

A senhora costuma dizer que é uma pessoa de processo, que leva tempo para se definir. Como foi o processo de saída do PV? Teve algum fato definidor, a chamada gota d'água?

Eu acho que teve uma pororoca, como disse o Ricardo Young (empresário que concorreu a uma cadeira no Senado e se desfiliou do PV com Marina). Foi essa mobilização que a sociedade fez nas eleições e continua fazendo. Tem algo mudando. As pessoas procuram uma forma de envolvimento que é diferente do engajamento da minha geração. Eu compreendo isso como um legado para a democracia brasileira, para o aperfeiçoamento das instituições. Toda essa mobilização, esses quase 20 milhões que votaram em nossas propostas em 2010, deveria ser recebida como um legado, para ser metabolizado pela sociedade, pelos partidos, organizações de governo. Ficou claro que a demanda da sustentabilidade é uma demanda da sociedade brasileira.

 

O PV foi um dos que não conseguiram absorver esse legado?

Lamentavelmente o PV ainda não se dispôs a metabolizar o que nós suscitamos na sociedade. Lamentavelmente, não foi possível permanecer, porque não vou ser incoerente com aquilo que faço e o que falo. Entrei no PV porque o partido estava disposto a passar por um processo de revisão programática e reestruturação. A ideia era transformá-lo num partido atualizado e capaz de dialogar com a sociedade. Me animei com essa propostas, com a expectativa de tirar do papel de mero espectador as pessoas que são militantes, simpatizantes do PV e de outros partidos, com o objetivo de dar-lhes o papel de protagonistas. Eu esperava que o PV pudesse fazer isso, mas ele não fez.

 

Houve algum fato, algum momento no qual a senhor percebeu que as tentativas de negociação com a direção do partido não dariam em nada?

Nós ficamos cinco meses depois das eleições sem uma reunião da Executiva Nacional do PV. Quando ela se reuniu, aconteceu o que vocês já sabem (o mandato da atual direção foi prorrogado). O que fizemos foi apresentar uma proposta, singela, de transição democrática, que incluía a escolha dos diretórios, a limitação dos mandatos de cargos de direção para dois anos, campanhas de filiação, recadastramento de filiados e um congresso para mudar o estatuto. Ao final haveria eleição para escolha de novos dirigentes do partido, deixando para trás a tradição de nomeação de pessoas. Era uma forma de intentar internalizar o legado das eleições.

 

E o que aconteceu?

Após uma espera de quatro meses, eles sinalizaram, de maneira muito forte, que não havia interesse. Então foi preciso dar um desfecho - e ele ocorreu da melhor maneira, na forma de um movimento, que não age de forma abrupta, com rompimentos, mas estabelece pontes. O movimento está aberto para quem é de partido, quem não é de partido, para outros partidos e pessoas.

 

Esse movimento deve desaguar num partido?

Não houve em nenhum momento a intenção de que isso fosse colocado como partido. É preciso tempo para metabolizar, ver se a gente tem densidade política, teórica, de propostas e fundamentos. Não se faz um partido para concorrer às eleições.

 

É uma atitude pragmática?

Não. Pragmático seria ficar num cantinho ali, se acomodar. Pragmático teria sido fazer um partido para já em 2012.

 

Foi mais difícil sair do PV ou do PT?

Seria hipocrisia dizer que não foi mais difícil sair do PT, no qual estou desde a fundação, com trinta anos de relações com pessoas que me são muito caras. Mas também não foi fácil sair do PV. Em que pese ter ficado dois anos, a relação que tenho com algumas pessoas também é de pelo menos vinte anos. Conheci as pessoas do PV pelas mãos do Chico Mendes, que criou o PV do Acre.

 

O que sente ao deixar o partido?

Tenho gratidão, porque graças à compreensão do PV tivemos uma eleição que não se resolveu de forma extemporânea no primeiro turno, percebemos que as pessoas podem participar da política independentemente das estruturas e das alianças e fazer da sua participação algo relevante. Foi bom ver o Brasil integrado aos movimentos que estão acontecendo no mundo. Para mim o que aconteceu na Espanha e no Egito e ainda acontece em vários lugares do mundo estava configurado aqui no processo das eleições. Houve uma mobilização da sociedade. O eleitor não se conformou com o papel de coadjuvante naquela eleição anunciada como um plebiscito entre o governo e a oposição.

 

No ato público em que se desfiliou do PV, a senhora disse que pode apoiar as coisas boas do governo. No pronunciamento no encontro do Partido Verde da Alemanha, em Berlim, dias atrás, destacou boas iniciativas que estariam sendo adotadas no Brasil. A senhora tem alguma simpatia, algum diálogo com a presidente Dilma?

O que fiz agora na Alemanha não é diferente do que tenho feito em todos os momentos em que saí do Brasil na época em que era ministra do Meio Ambiente. Sei separar os interesses do meu País, das coisas mesquinhas da política do cotidiano. Sei fazer isso aqui dentro e lá fora. Claro que não é sem crítica. Eu falei das coisas boas que o Brasil tem feito e que são fruto da nosso trabalho, do empenho da sociedade brasileira. O Brasil tem conseguido reduzir o desmatamento e pode ser uma potência agrícola sem precisar destruir florestas. Quanto à Dilma, também é algo que pratico há anos, ao longo de toda minha vida. Quando o Fernando Henrique era presidente, nunca neguei apoio às coisas que considerava corretas. Na ocasião em que o Adib Jatene fez uma bela exposição no Congresso defendendo a CPMF, eu votei a favor, ao lado do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), mesmo com a forte recomendação do partido para que não fizéssemos isso. Se foi assim com alguém com que eu nem tinha relação, imagina com a Dilma. Nós trabalhamos juntas durante cinco anos e ela é a primeira mulher presidente da República. Vou torcer para que dê certo. Vejo problemas, tenho preocupações com tudo que está acontecendo, como a perda de dois ministros no início do governo, essas denúncias gravíssimas que estão aí. E se ela resistir, é claro que temos de resistir com ela. Eu não aposto no quanto pior melhor.

 

A senhora concorda com a ideia de que esses escândalos são parte da herança maldita que Lula teria deixado para Dilma?

Isso que aconteceu com a Dilma não é diferente do que aconteceu com o Lula, o Fernando Henrique, o Collor. Historicamente falando, isso faz parte da herança maldita da cultura política que se estabeleceu no Brasil. Eu acho que tem um Brasil se movendo fora desse quadro e que, talvez, possa nos ajudar a passar isso a limpo.

 

Num cenário em que políticos fisiológicos trocam de partido como se trocassem de camisa, a senhora não teme a reação de eleitores à sua saída do PV?

Em primeiro lugar, não estou saindo para outro partido. Em segundo, não é para uma reeleição. E, em terceiro, não vou assumir cargo no governo. Estou saindo para ficar sem partido e dar continuidade a um sonho. A sociedade saber fazer essa leitura. Um político que fica no partido porque se tornou dono dele, ou porque se deixou dominar pelo partido, não é um sujeito político.

 

Como viu a indicação do nome de Blairo Maggi para o Ministério dos Transportes?

Melhor do que ter sido indicado para o Meio Ambiente (risos). Brincadeiras à parte, isso não me deixa feliz nem triste. Acho que temos que ficar atentos. Depois de um processo lamentável, como esse que acabamos de ver no Ministério dos Transportes, é preciso olhar duas vezes cada coisas que se faz. Estamos diante de um emaranhado de erros do ponto de vista da gestão pública. A sociedade tem que ficar atenta. Quais são os vínculos, os enraizamentos dessas denúncias de corrupção que estavam acontecendo no ministério? As pessoas envolvidas estavam politicamente ligadas a quem? Essas ramificações precisam ser encontradas.

 

A senhora teve atritos com o Maggi quando era ministra e ele governador.

Tive problemas e também tive momentos em que construímos soluções. Eu disse na campanha que se fosse eleita iria por na internet todos os dados brutos do governo, para que os agentes da sociedade identificassem os problemas quando estivessem acontecendo e não deixassem tudo para o Tribunal de Contas da União apurar mais tarde, quando já aconteceu o dolo. Foi o que fizemos no ministério com o plano de combate ao desmatamento. Os dados nessa área eram quase um tabu, ninguém podia ver. Nós então decidimos por os dados brutos na internet, para as pessoas verem. A Globo criou um sistema de informações sobre o tema que foi acessado por 47 milhões de pessoas em menos de dois meses. As pessoas me advertiam que o governo ia ficar exposto e eu respondia que era para ficar mesmo, porque na mesma época o governador Blairo Maggi e os ministros Reinhold Stephanes e Mangabeira Unger ficavam dizendo que as medidas de proteção eram exageradas, que não estava ocorrendo desmatamento. O Maggi chegou a criar uma secretaria de meio ambiente para desqualificar os dados de monitoramento por satélite que o Inpe vinha realizando há 18 anos. Com a exposição, a sociedade viu o desmatamento, localizou o polígono onde ele corria e reagiu.

 

Se fosse convidada por Dilma para algum ministério, aceitaria?

Eu já dei a minha contribuição. Hoje contribuo mais da forma como estou fazendo. Quero ajudar na criação de uma nova cultura política, um novo consenso político. Eu acho que a sociedade brasileira está fazendo um esforço para sair do atual quadro político. Não devemos duvidar da possibilidade de toda essa situação caótica abrir espaços para grandes mobilizações. Eu acho que seria um sol na nossa realidade, criaria as bases para que o presidente possa ter mais oxigênio para fazer uma gestão voltada para os interesses do País e não ter que ficar voltado para a agenda miúda dos cargos, a agenda miúda dos interesses pequenos.

 

Em 2012 a senhora subirá no palanque dos candidatos comprometidos com as propostas da sustentabilidade?

Da sustentabilidade e da nova forma de fazer política, se for convidada.

 

Se o PV lançar Fernando Gabeira como candidato a prefeito do Rio e o Eduardo Jorge em São Paulo, a senhora vai apoiar?

Vai depender das configurações, de como as candidaturas serão construídas. Eu não separo o resultado do processo. Como pessoas, os dois seriam excelentes prefeitos.

 

Podemos esperar a senhora participando do pleito presidencial de 2014?

Quando digo que não sei é porque não sei mesmo. No momento estou avaliando como posso contribuir mais. É uma discussão que estou fazendo. É na interação com a sociedade.

 

Qual será a primeira missão do movimento suprapartidário que a senhora está ajudando a criar?

O movimento vai trabalhar agora na questão das cidades sustentáveis - para as candidaturas de 2012 que queiram beber dessa fonte, não importa de qual partido sejam. O foco mais importante, porém, deve ser o político, a reflexão sobre a linguagem ou a língua que vai traduzir a nova forma de fazer política.

 

Com quem a senhora tem conversado sobre propostas políticas?

O movimento por novas políticas tem que estar em todos os partidos. Tenho conversado com os deputados Alessandro Molon (PT/RJ) e José Reguffe (PDT-DF), o senador Pedro Taques (PDT-MT), a Heloísa Helena (PSOL-AL). Quero conversar com os senadores e Cristovam Buarque (PDT-DF) e Eduardo Suplicy (PT-SP), com a minha amiga Luiza Erundina (PSB-SP). A Heloísa Helena tem sinalizado muito fortemente que estará junto das propostas do movimento por uma nova política. O princípio das conversas é que a política no Brasil precisa se reinventar.

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