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Sem pai nem mãe

O fato mais notável da passagem do ex-presidente Luiz Inácio da Silva na semana passada por Brasília nem foi a mudança brusca do tom do discurso de ataque anterior para a defesa do governo da presidente Dilma Rousseff, apontada como sinal de que ele ficou satisfeito com as críticas dela às investigações da Operação Lava Jato.

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2015 | 03h00

Digno de nota realmente foi o fracasso da tentativa de Lula de retomar a condição de grande liderança política com capacidade inequívoca e inesgotável de fazer amigos, influenciar pessoas, apaziguar contrariedades, aglutinar forças, organizar a tropa, apontar o rumo e restabelecer a ordem unida. 

Pois Lula passou dois dias na capital da República em conversas e articulações com vista a animar os aliados a superar a crise, unir esforços em torno de uma agenda positiva e ninguém deu a menor bola. 

O PDT avisou que queria devolver o Ministério do Trabalho. O ministro da Justiça, cansado da guerra interna, falou reservadamente que está farto e admitiu publicamente que não seja por isso, a um sinal da presidente está pronto para deixar o cargo. O PT precisou explicitar apoio ao ministro em nota depois de tê-lo confrontado no tocante ao legítimo exercício de suas funções e o PMDB simplesmente passou a defender ruptura, enquanto Lula falava em unidade. 

É de se começar a perceber aqui as razões pelas quais a oposição “oficial” não investe no politicamente tortuoso caminho do impeachment da presidente. Primeiro, porque o governo tem dado margem a contestações com base na lei. E, depois, do desgaste no campo político os amigos têm dado conta do recado com muito esmero.

Note-se que a presidente Dilma pode até não deixar o governo antes do término regulamentar de seu mandato como, de resto, nada de concreto no momento indica que esteja no horizonte medianamente próximo. De outro lado há sinais de que o governo – aqui entendido como os integrantes dele – anda querendo “sair” de Dilma Rousseff, distanciar-se dela e de seu um dígito (9%) de avaliação positiva junto à opinião pública.

Algarismo mortal, notadamente se buscarmos na memória o tempo em que o dígito único representava aqueles que avaliavam negativamente o governo do PT. Parcela da população tratada como “resíduo” a ser ignorado, feito de chacota e usado como salvo conduto para o cometimento de quaisquer tipos de barbaridades. “Prova” de que a exigência por condutas corretas era coisa de uma minoria inconformada com a ascensão de um operário ao poder.

Dado o caráter fictício do enunciado, a canoa virou. E virou porque não souberam remar no oceano democrático em que não cabem pais dos pobres nem mães do PAC. Apenas filhos de uma sociedade em busca de qualidade, igualdade, legalidade, civilidade, verdade, transparência, maturidade e educação moral e cívica no melhor e mais democrático dos sentidos. 

Pegadinha. Em meio a tantas e tão atribuladas votações relativas à legislação eleitoral – equivocadamente chamadas de reforma política –, a Câmara dos Deputados decidiu que as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral, referentes a um pleito, terão de ser baixadas com um ano e meio de antecedência.

Já as mudanças nas leis continuam podendo ser feitas até um ano antes. O ex-deputado Arnaldo Madeira desvenda a jogada: com isso, quando os parlamentares considerarem que as decisões do TSE contrariam seus interesses, têm prazo de seis meses para adaptar a legislação e, se for o caso, invalidar a resolução do tribunal.

São muitos os casuísmos da dita reforma, mas esse havia passado despercebido. 

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