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O capitão Alfred Dreyfus AFP PHOTO

Sem os jornais, as sombras venceriam

Jornais são objetos passionais, despertam o desejo, a repulsa, a cólera, a vergonha, a admiração ou o amor

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2020 | 03h00

O capitão Dreyfus, na década de 1890, foi acusado de espionagem em favor da Alemanha. Começa um período vergonhoso. A Igreja, a burguesia, os jornalistas uivam, jogam Dreyfus aos cães. Anos depois, um título salva a honra da profissão. O Aurore publica, sob o título Eu acuso, um artigo de Émile Zola: Dreyfus é inocente. Seu único pecado é ser judeu. Após anos de ódio, Dreyfus é salvo, por um jornal, do desprezo e, talvez, mesmo da morte.

Vinte e cinco anos depois, um dos primeiros grandes repórteres, Albert Londres, foi para a Guiana, uma colônia francesa, onde havia uma colônia penal. Albert Londres descerra uma cortina atrás da qual se estende o inferno criado não por Satanás, mas por uma República virtuosa cujo lema é “liberdade, igualdade, fraternidade”. Este artigo gera um eletrochoque. Um ano depois, o governo fechou a prisão. Do fundo de sua morte, Albert Londres, sem dúvida, disse que as palavras dos jornalistas podem ser armas letais e defender a honra da condição humana.

Em 1939, irrompe a guerra com a Alemanha. Os jornais controlados pela censura mentem descaradamente. Eles ficam coléricos: os soldados alemães são sub-humanos, monstros desagradáveis e medrosos. Soldados franceses são maravilhosos. Um grupo de franceses, enojados com essas maldades, criam Le Canard Enchaîné que dirá a verdade: a morte, vômitos, os ratos, o fedor, o desespero, o medo, a ignomínia de certos generais que, para se distinguir, montam um ataque desnecessário, que resultará em centenas de mortes e levará à arrogância de um tolo.

A censura monitora essas pessoas insolentes. Talvez eles sejam anarquistas ou mesmo comunistas, quem sabe! Le Canard inventa truques, trocadilhos, linguagens codificadas, eufemismos para enganar os censores. O sucesso entre os soldados franceses é deslumbrante.

Em 1940, as tropas de Hitler esmagaram os franceses. Hitler divide a França em duas: uma “zona ocupada” no Norte e há uma “zona livre” no Sul (digamos: semilivre). Alguns jornais permanecem em Paris e se adaptam aos alemães. Muitos jornalistas, muitas vezes brilhantes, comemoram as vilezas dos nazistas. Um escritor notável, Robert Brasillach, escreve esta ignomínia: “Será necessário separar-se dos judeus em um quarteirão e sem proteger os pequenos judeus”. A honra da imprensa se refugia nas montanhas, entre os maquis, onde proliferam jornais pobres, mas notáveis. Entre os que escolheram o caminho da coragem, o jovem Albert Camus, que se tornará um dos grandes escritores de seu século.

Jornais são objetos passionais. Eles despertam o desejo, a repulsa, a cólera, a vergonha, a admiração ou o amor. É um sinal de seu poder. Eles se estabelecem solidamente para o bem ou para o mal no coração das nossas cidades, dos nossos sonhos. Temos o direito de criticá-los, às vezes desprezá-los, mas não podemos negligenciá-los, negar a influência que exercem sobre nossas mentes, em nossos hábitos, na história dos homens, animais e coisas. Sem eles, o mundo não seria o mesmo. Seria menos brilhante, menos legível e menos tolerante, menos respeitoso pela pessoa humana, menos brilhante e as sombras lentamente venceriam. (TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO)

*CORRESPONDENTE EM PARIS

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