''Sem o PMDB hoje ninguém governa''

Michel Temer: deputado federal e presidente nacional do PMDB; Defensor da candidatura própria, presidente do partido diz que o DEM foi mais rápido e que Kassab pode fortalecer legenda

Entrevista com

Clarissa Oliveira, O Estadao de S.Paulo

28 de abril de 2008 | 00h00

O presidente do PMDB, deputado Michel Temer (PMDB-SP), avalia que é cedo para falar sobre qual candidato o partido poderá apoiar em 2010. Na mesma semana em que seu colega Orestes Quércia (PMDB) pregou o apoio ao governador José Serra (PSDB), Temer diz que a tese da candidatura própria está cada vez mais consolidada. Mesmo no campo das "especulações", afirma ele, seria cedo para falar no tema. Para o parlamentar, a aliança PMDB-DEM em São Paulo não foi um recado sobre a insatisfação de Quércia com a coalizão. "Nós não interferimos nos diretórios locais e os diretórios locais não interferem nas decisões nacionais", explica. "Se é Serra, Aécio, Dilma, o futuro é que vai dizer", resume.Como o sr. recebeu a notícia da aliança do PMDB em São Paulo? Não só em São Paulo, como em todo o País, deixamos por conta dos diretórios regionais. O Quércia fez o acordo com o prefeito Kassab e me comunicou na terça-feira. No começo havia muitas conversas com a Marta e ele falou que havia uma tendência, possivelmente, de fazer o acordo com ela. Terça, me ligou dizendo: "Olhe, acabei de fechar com o Kassab."Para o sr., por que isso ocorreu?Acho que o DEM foi mais rápido. Em dar segurança para a história do Senado.O plano pessoal de Quércia se sobrepôs à aliança com Lula? Há cerca de quatro, cinco meses, o presidente sugeriu que fizéssemos uma reunião dos presidentes de partidos da base para discutir eleição. A conclusão foi que seria impossível ter alianças só com a base. E que haveria partidos da base que fariam alianças com a oposição. As realidades locais é que determinam as alianças.A aliança em São Paulo foi feita com o terceiro lugar nas pesquisas. A prioridade foi o Senado?Claro que foi um dos pontos. Mas, em outro, a idéia é que, talvez, o PMDB achou que vai se fortalecer a candidatura do Kassab. Estamos a seis meses ainda da eleição. A base aliada se sustenta independentemente de São Paulo?Hoje (sexta-feira), vim com o presidente de Brasília e ele tocou no assunto. Eu disse, vamos deixar as realidades locais por conta das localidades. Passou a eleição, aí vamos ver qual é o quadro. Mesmo para 2010, na minha opinião, terá pouca significação.A aliança não foi um recado sobre a insatisfação com a coalizão? No plano nacional não há essa conotação. Eu e o Quércia temos uma ótima relação política. Não recebo como recado. Nós não interferimos nos diretórios locais e os diretórios locais não interferem nas decisões nacionais. Se é Serra, Aécio, Dilma, o futuro é que vai dizer. O Quércia chegou a lançar o (Roberto) Requião. Eu disse: "Se ele for o símbolo da candidatura própria, que seja."Então, a presença do PMDB na base não quer dizer que vá apoiar o candidato do Lula em 2010?E a maior possibilidade é o PMDB ter candidato. O ideal é que a base tenha uma única candidatura. É difícil. Mas sendo o PMDB o maior partido, tem o direito de reivindicar a candidatura. E a tese da candidatura própria se reforçou com o fim da verticalização. Acaba o PMDB como partido que não tem presidente, mas sem o qual nenhum presidente governa? É verdade, sem o PMDB hoje ninguém governa. Mas, na última eleição, o PMDB só não lançou candidato por causa dos governadores. Se lançasse, ficava impedido qualquer tipo de aliança. Agora, o PMDB local faz a aliança que quiser.Quem no PMDB poderia hoje disputar a Presidência? Eu vejo o Requião, o Sérgio Cabral. Os governadores em geral, Luiz Henrique, Eduardo Braga, Marcelo Miranda. Mas tudo o que dissermos agora serão especulações. Há um tema importante, que é fazer a reforma política no ano que vem. Tenho proposto o mandato único, eu até gostaria de seis anos. Segundo, que as eleições fossem unificadas.É um apoio à proposta do deputado Devanir Ribeiro?Não, pois toda vez que se fala no Devanir, fala-se em terceiro mandato. A PEC dele fala em cinco anos, pleito único e fim da reeleição.Eu poria uma disposição transitória dizendo: quem tem dois mandatos não pode ter terceiro; quem tem um pode ir para a reeleição. Essa minha afirmação será acusada de casuística. Mas, para fazer um aperfeiçoamento institucional, é preciso verificar se há condições políticas. Isso interessa hoje ao Serra, ao Aécio (Neves) e ao presidente Lula. Há a expectativa da escolha do sr. para a presidência da Câmara. Como caminham as conversas?Será um nome do PMDB. Mas está caminhando muito bem. Fizemos um acordo de que o PMDB abriria mão em favor da candidatura do presidente Arlindo Chinaglia. Líderes do PT a todo momento reiteram o acordo. Acho que não há dúvida de que sairá do PMDB.Se confirmado, o que o sr. planeja?Sempre há o que fazer. Uma coisa é seguir a trilha de prestigiar a atividade legislativa. Outra é democratizar a participação de deputados. E as medidas provisórias? Houve um bom avanço. Quando foi instituída a medida provisória, ela podia versar sobre qualquer matéria e ser reeditada permanentemente. Num segundo passo, impediu-se a reedição permanente com trancamento da pauta. Isso prejudicou atividade legislativa. O próximo passo? Acabar com o trancamento. O PMDB não consegue chegar ao poder. O que falta? O PMDB está fazendo um trabalho extraordinário de formação política dos seus quadros, por meio da Fundação Ulysses Guimarães. Agora, você só consegue levar um programa para o País adiante se tiver uma candidatura presidencial que possa transmitir esse programa. Se não tiver a candidatura, não tenha ilusões, você não consegue. Quem é:Michel Temer Advogado e professor de Direito, é deputado federal em seu sexto mandato e presidente nacional do PMDB Foi escolhido duas vezes presidente da Câmara, entre 1997 e 2000, além de ocupar posições de destaque como o de Procurador-Geral do Estado

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