Sem médicos, famílias ainda recorrem aos 'mágicos'

Seu Chico mantém tradição de benzedores viva no reduto de Santa Maria

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 20h35

Filho de rebeldes da guerra, Francisco Ribeiro dos Santos, 77 anos, o Seu Chico, mantém viva a tradição dos "mágicos", os benzedores do Contestado. Ele é procurado pelos moradores de Calmon, cidade onde o sistema de saúde é precário. Com galhos de arruda, Chico tira "quebranta" e "bicha" (verme) de crianças e alivia dores de dente de adultos. "Eu amaldiçôo os dentes ruins de longe, para não passar a dor para mim. Eu não tenho mais dente, mas pode doer os ossos da minha boca", conta.

 

 

O avô e o pai de Chico, João e Antonio Domingues, viviam no reduto de Santa Maria. Durante os combates com os militares, Antonio perdeu a mulher. Foi quando conheceu Ana, mãe de Chico. João e Antonio teriam sido informados que Adeodato, o chefe rebelde, pretendia matá-los. Então, fugiram do acampamento. "Aí, meu pai passou para o lado da força do governo", conta.

 

Chico aprendeu com o pai a tradição dos "mágicos". Ele recorre a São João Maria para atender as mulheres e crianças que o procuram. "São João Maria é encantado. Ele disse que era para chamar o nome dele que onde estivesse iria escutar", diz. "A medicina está certa, é boa. Mas a gente acredita nas coisas do mato. E porque aqui não aparece médico", ressalta. "Graças a Deus eu tenho livrado muita gente de sofrer."

 

O "mágico" diz que os caboclos só não venceram a guerra porque não tinham canhões como os militares. "Naquele tempo tinha caboclo bom de espada. Não era só de revólver como agora. Era nervoso", afirma Chico. "No começo, os caboclos faziam espada de guamirim, no fogo. Os jagunços entraram no entrevero, era tudo bicho velho bom, e foram tomando armamentos de fogo do Exército", lembra. "Só não venceram porque não tinham canhão."

 

Chico vive de um salário mínimo de aposentadoria. É uma renda considerável na rua onde mora. Uma parte dos vizinhos sobrevive com serviços temporários nas plantações de pinus. Outra de pequenos plantios nos fundos dos quintais e de benefícios como a da Previdência e do Bolsa Família. "São João Maria já falava que o trigo ia sumir, o milho a terra ia negar. E está acontecendo. A gente plantava pouquinho e colhia bastantes. Hoje, planta bastante e colhe pouquinho", diz. "Eu não posso plantar, mas muita gente nova só não pode porque não tem terra para trabalhar."

Tudo o que sabemos sobre:
Contestado

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.