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Sem Lula, PT critica Dilma e diz que ela precisa apresentar compromisso sobre 'rumo' do governo

Documento do partido, que ainda será votado e pode sofrer mudanças, traça cenário prevendo absolvição de Dilma pelo Senado

Vera Rosa e Luciana Nunes Leal, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2016 | 13h38

BRASÍLIA - O PT fez nesta terça-feira, 17, uma dura crítica à gestão da presidente afastada Dilma Rousseff. Em resolução política a ser aprovada nesta terça, a cúpula do PT afirma que Dilma precisa apresentar rapidamente um compromisso público sobre "o rumo de seu governo depois de derrotado o golpismo" do impeachment.

Embora, em conversas reservadas, petistas considerem remota a chance de Dilma retornar ao Palácio do Planalto, o documento do partido traça um cenário prevendo a sua absolvição pelo Senado, em até 180 dias. No primeiro encontro do PT após o afastamento de Dilma, sem a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PT também avaliou ter sido "descuidado" com a necessidade de reformar o Estado e impedir a "sabotagem conservadora" em estruturas de mando da Polícia Federal, alegando que a Operação Lava Jato desempenhou papel crucial na "escalada golpista".

A responsabilidade pelo agravamento da crise, porém, é debitada em grande parte na conta de Dilma, que teria ignorado pedidos para mudar a política econômica. "O Partido dos Trabalhadores propõe que a presidenta Dilma Rousseff apresente rapidamente um compromisso público sobre o rumo de seu governo depois de derrotado o golpismo, defendendo uma ampla reforma política e medidas capazes de retomar o desenvolvimento, a distribuição de renda e a geração de empregos", diz a proposta de resolução, que ainda será votada e poderá sofrer mudanças.

Além das críticas ao ajuste fiscal do governo Dilma, o PT também diz ter cometido erros e "equívocos políticos" no comando do País, demorando, por exemplo, a perceber o "progressivo esgotamento" da política econômica vigente entre 2003 e 2010. Os petistas também mostram arrependimento por terem confiado na "governabilidade institucional", a partir de alianças ao centro com o PMDB do presidente em exercício Michel Temer, como "coluna vertebral" para a sustentação de seu projeto.

"Acabamos reféns de acordos tácitos, imperiosos para o manejo do Estado, mas que resultaram num baixo e pouco enraizamento das forças progressistas", diz um trecho da resolução. "Fomos igualmente descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal."

Economia. A resolução aponta erros na economia e classifica de "destrutivo" o ajuste fiscal adotado no segundo mandato de Dilma. O documento faz vários reparos à política econômica levado a cabo pelo ex-ministro da Fazenda de Joaquim Levy. "O ajuste fiscal, além de intensificar a tendência recessiva, foi destrutivo sobre a base social petista, gerando confusão e desânimo nos trabalhadores, na juventude e na intelectualidade progressista, entre os quais se disseminou a sensação, estimulada pelos monopólios da comunicação, de estelionato eleitoral. A popularidade da presidenta rapidamente despencou", diz o texto.

Na resolução, o PT também critica o governo Dilma por não ter dado atenção ao "alerta" feito em junho de 2015, quando o V Congresso do partido considerou "indispensável mudar a política econômica" para recuperar apoio político e social. "O governo prosseguiu no rumo que havia escolhido, levando ao agravamento das dificuldades", argumenta a resolução. "O fato é que o golpismo, velozmente, criava condições para avançar, aglutinando apoio parlamentar e suporte social."

No diagnóstico do PT, diante de tantos problemas no País, as forças conservadoras "sentiram-se animadas para buscar a hegemonia nas ruas, pela primeira vez desde as semanas que antecederam o golpe militar de 1964".

Em uma avaliação sobre os efeitos da vitória apertada de Dilma sobre o tucano Aécio Neves, no segundo turno de 2014, a resolução do PT diz que o resultado eleitoral "alterou a correlação de forças no País, dentro e fora das instituições", o que fez a direita "retomar a ofensiva" e setores de centro próximos ao governo se "afastarem da coalizão presidencial".

Em mais de um parágrafo, o PT pede novas mobilizações para denunciar o "golpe" do impeachment e diz que o processo contra Dilma só foi adiante "depois que o PT rechaçou as chantagens do deputado Eduardo Cunha", presidente afastado da Câmara.

A estratégia durante o afastamento da presidente, segundo o PT, deve ser a de apontar o dedo para a "derrocada do governo ilegítimo que usurpou o poder e rompeu o pacto democrático da Constituição de 1988" e, ao mesmo tempo, "inviabilizar suas medidas antipopulares (..) e impedir sua consolidação no comando do Estado". O PT está orientando seus militantes a integrarem a Frente Brasil Popular, criando comitês para intensificar atividades de combate ao atual governo e recuperação do mandato de Dilma.

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