Helvio Romero/Estadão
Retomada. Kazuo Hama voltou à academia atingida por queda de avião Helvio Romero/Estadão

Sem indenização, bairro retoma rotina

Moradora e empresário de academia se queixam de falta de pagamento; dirigente do PSB diz que depende de decisão judicial

Ricardo Chapola, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 19h00

SANTOS - Quase um ano após a queda do avião que matou o ex-governador Eduardo Campos (PSB), em Santos, no litoral paulista, os aposentados Carlos Diniz Moreira Sampaio, de 71 anos, e Kazuo Hama, de 63 anos, voltaram a se exercitar na mesma academia que viram ser destruída no acidente com o jato que levava o então presidenciável e sua comitiva, no dia 13 de agosto de 2014. 

O Estado retornou à academia Mahatma na segunda-feira, dia 3 de agosto, às 10h – horário em que ocorreu o acidente. Encontrou os dois homens treinando no local, reaberto na semana passada. “A sensação que tive naquele dia foi de morte. Hoje, voltando ao mesmo lugar, a gente sente alegria por continuar vendo seus amigos, do seu lado, na academia”, disse Sampaio, que é dentista aposentado. “Foi um susto muito grande no dia. O barulho, o estrondo, o calor. Hoje parece que renascemos. Nascemos de novo”, afirmou Hama, pedalando uma bicicleta ergométrica. 

A academia ainda não está totalmente recuperada da destruição provocada pela queda do jatinho. Por ora, o proprietário, Benedito Juarez Câmara, de 70 anos, conseguiu reconstruir apenas o salão onde ficam os aparelhos de ginástica. As duas piscinas, localizadas no andar de baixo da academia, estão desativadas. Uma delas, inclusive, está sem azulejos e tem dois andaimes dentro dela. 

“Ganhei telha, ganhei cimento de pessoas que me conhecem. 80% da piscina foram reaproveitados. Eu perdi as duas piscinas, a parte hidráulica”, disse o empresário, ao enumerar os prejuízos que teve após o acidente que matou Campos. “Num universo de 750 alunos, nós caímos para nem 100 alunos. Porque eu não tinha local para trabalhar. A gente também teve que mandar dez funcionários embora. Antes, tinha 16, hoje só tenho 6.”

Indenizações. O empresário manifestou insatisfação com o PSB e o vice-governador de São Paulo, Márcio França, que teriam se prontificado a pagar as indenizações dos moradores afetados pelo acidente – além da academia, 13 residências sofreram algum tipo de dano, segundo o Corpo de Bombeiros. “É tentativa de obstrução da Justiça. É muito absurdo, muito desrespeitoso. O PSB tem obrigação moral e ética de dizer pelo menos quem são os responsáveis pela queda do avião”, disse Câmara.

Outra moradora da vizinhança, Marlene Rodrigues Martinez, de 65 anos, também criticou o vice-governador, que é presidente do diretório paulista do PSB, depois de ser questionada sobre o pagamento de indenizações às pessoas cujas casas foram destruídas no acidente. “Em época de eleição, todo mundo promete tudo. O Márcio França não vale nada”, desabafou a aposentada.

O vice-governador afirmou ao Estado que prestou assistência aos moradores e que o PSB não pode honrar com os prejuízos sem uma decisão judicial transitada em julgado sobre o caso. Várias pessoas afetadas pelo acidente processaram o PSB, pedindo que o partido arcasse com as indenizações. “Sou solidário a eles. Se houver sentença a favor deles, podemos pagar com o dinheiro do partido”, disse França.

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Sem Campos, PSB cria polo de poder em São Paulo

Um ano após a morte do ex-governador, comando do partido está sob nova influência

Pedro Venceslau , O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 19h00

A crise política e o clima conflagrado entre governo e oposição terão uma pequena trégua nesta semana, quando se completa o primeiro aniversário da morte do ex-governador pernambucano Eduardo Campos. A próxima quinta-feira, dia 13, marca um ano do acidente fatal com o avião em Santos, no litoral paulista. Campos morreu em plena campanha presidencial e desde então o PSB, partido que ele comandava de forma centralizadora, enfrenta um processo de disputas internas, perdeu a unidade e tem atuação difusa no Congresso.

Embora mantenham um centro de poder em Pernambuco – onde estão à frente do governo do Estado e da prefeitura da capital – os afilhados políticos do ex-governador estão atualmente isolados na máquina partidária. O núcleo de comando da sigla se deslocou do Recife para São Paulo e hoje seu nome mais influente é o vice-governador paulista Márcio França. A casa da viúva de Campos, Renata Campos, no bairro Dois Irmãos, no Recife, se tornou uma parada obrigatória de todos os debates políticos nacionais da sigla, mas o pessebista mais influente hoje na estrutura da legenda é mesmo França. 

O governador pernambucano, Paulo Câmara, e o prefeito da capital, Geraldo Julio, acabaram isolados no partido depois que o senador Fernando Bezerra Coelho (PE) e o presidente nacional, Carlos Siqueira, se alinharam com ele. Na prática, isso significa que o PSB nacional está mais afinado com o projeto de poder do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Se o tucano conseguir ser o candidato à Presidência pelo PSDB em 2018, França assumirá o governo do Estado e poderá tentar a reeleição. 

Não foi por acaso que o partido adotou um tom moderado em relação ao impeachment da presidente Dilma Rousseff e não embarcou na defesa de uma nova eleição presidencial, como querem os tucanos ligados ao senador Aécio Neves (PSDB-MG). Um novo pleito antes de 2018 faria do senador mineiro o candidato natural e frustraria os planos de Alckmin.

O vácuo deixado por Campos pode ser notado também no Congresso. Segundo análise das votações em plenário da Câmara feita pelo Estadão Dados, o partido é, hoje, o terceiro colocado no ranking da legendas mais “dispersas” da Casa. Ou seja: as menos coesas na hora votar. Em primeiro e segundo lugar estão respectivamente o PP e o PTB. 

Com 33 deputados, a bancada do PSB não costuma seguir a orientação do seu líder. Questionados sobre o fenômeno, os quadros da legenda reconhecem que isso decorre da falta de uma referência nacional que unifique o discurso e defina a estratégia. “O PSB tem, hoje, duas posições. Uma mais histórica, que defende a aproximação com o governo federal, e outra mais moderna, que é de oposição. Com Eduardo, a postura era mais unificada. Da Luiza Erundina (SP) ao Heráclito Fortes (PI), todos respeitavam a posição dele”, avalia o vice-governador de São Paulo, Márcio França. “Não há no PSB uma liderança nacional. Isso não se fabrica, mas se forja na luta política”, concorda o presidente nacional do partido, Carlos Siqueira. 

Depois de apoiar a eleição de Dilma Rousseff em 2010, o PSB desembarcou do governo em 2013, quando se consolidou a candidatura de Campos à Presidência. Após a morte dele no ano passado, a sigla articulou uma frágil aliança interna para dar sustentação à campanha de Marina Silva, que herdou a candidatura. A composição se desfez logo depois do primeiro turno, quando o partido decidiu apoiar Aécio. 

Herdeiros. Nas eleições municipais do ano que vem, o único integrante da família Campos que tentará a sorte nas urnas será o irmão do ex-governador, o advogado Antonio Campos. Em sua estreia na política, ele disputará a prefeitura de Olinda. A principal aposta do clã, entretanto, é o filho do ex-governador João Campos, de 21 anos. Nomeado ano passado para um cargo na direção da Executiva do PSB pernambucano, ele foi pressionado a disputar uma vaga na Câmara Municipal do Recife em 2016. João Campos se animou com a ideia, mas a mãe vetou o projeto: candidatura só depois de terminar a faculdade de engenharia. No plano traçado pelo partido, o primogênito atuará na militância da juventude do PSB até 2018, quando disputará a vaga de deputado federal. “A candidatura dele a deputado federal já tinha sido cogitada em 2014, mas Renata não permitiu”, disse Siqueira. 

Campos completaria amanhã 50 anos de idade e a data dará início às homenagens. Além do Recife, o ex-governador será lembrado em eventos em Brasília e em vários Estados. / COLABOROU RODRIGO BURGARELLI

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