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Eliane Cantanhêde
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Sem essa de impeachment

Discutir o impeachment não é golpe, mas a viabilidade prática e política do impeachment é praticamente nula. Logo, essa discussão ou é diversão da arquibancada, ou é jogo de cena da oposição, ou ambas.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2015 | 02h04

A discussão ou a mera menção não é golpismo, pelo simples fato de que o impeachment é um instrumento legal, previsto pela própria Constituição. Mas a questão não é meramente legal e não há viabilidade porque não há nem dados objetivos nem condições políticas para levar isso a termo.

A presidente Dilma Rousseff está realmente num péssimo momento, com a credibilidade e a popularidade esfarelando. E o PT, que deve amá-la e respeitá-la na alegria e da tristeza, também não está com essa bola toda, nem internamente, nem no Congresso, muito menos na opinião pública. Pior: muito petista não faz a menor questão de ajudá-la. Ou seja: o PT não pode e muitos petistas nem querem salvar Dilma de Dilma.

Então, há uma soma de rejeição à presidente, má avaliação do partido e uma divisão entre lulistas e dilmistas criando o ambiente adequado para que o eleitorado, de mau humor pela derrota ou se sentindo traído pelas mentiras dos palanques, venha com essa de impeachment.

É uma história que apimenta mesas de bar, reuniões familiares, conversas de comerciantes e empresários e, naturalmente, começa a ocupar espaço na mídia. Estivesse na oposição, o PT não perderia a oportunidade de engrossar o coro, como não perdeu quando Fernando Collor entrou na linha de tiro. E ninguém à época sacou o suicídio de Getúlio Vargas nem o golpe contra Jango. Pelo óbvio: eram situações incomparáveis.

Agora, também, um quarto de século depois da volta das eleições diretas para presidente, há uma situação muito particular. A oposição de hoje não se compara à de Getúlio nem à de Jango e não há nenhuma quartelada em gestação, como diz o PT. Mas, do outro lado, qualquer comparação de Dilma com Collor será favorável a ela.

Collor não tinha partido, mas Dilma tem o PT que, apesar dos pesares, é uma das principais siglas do País e uma das mais enraizadas na sociedade. Collor tinha os movimentos sociais contra ele, mas Dilma e o PT têm CUT, UNE, MST e cia. a favor. Collor perdeu sua base popular, mas uma parte significativa da população apoia o PT e, por tabela, Dilma. E... Collor sofreu com o PT na oposição, mas Dilma e o PT têm a sorte de enfrentar PSDB, DEM, PPS. Uma diferença abissal.

Em resumo, Collor era um neófito que caiu de maduro, absolutamente só. Dilma tem biografia sólida, a história do PT, exército, tropa. Um processo de impeachment simplesmente incendiaria o País. E para nada, porque o Congresso pode até esticar a corda, mas suas lideranças sabem muito bem diferenciar atos consequentes de aventuras.

Isso tudo não significa que a coisa não esteja feia e que o grau de insatisfação captado pelas pesquisas - ou seja, pelas pessoas "comuns" - não reflita a irritação e o desânimo que grassam nos meios políticos, empresariais, acadêmicos. Há um enorme cansaço com "tudo isso que está aí". No forte regime presidencialista brasileiro, o "aí" é quase sinônimo de Planalto.

Dilma se reuniu com meia dúzia de sábios do PT dilmista para gritar: Chamem o Lula! Chamem o João Santana! Para... arranjarem um jeito de enganar todo mundo de novo, como na campanha eleitoral.

Pode não ser tão simples, porque os gatos estão escaldados e 54% dos pesquisados pelo Datafolha dizem que Dilma é "falsa". O mais prudente, e útil, seria baixar a crista e reconhecer os erros, para arrumar a economia, a política, a Petrobrás.

Contra fatos, não há argumentos, e marketing é meio mágico, mas não faz milagres nem é capaz, sozinho, de calar o sussurro sobre impeachment. Aliás, o encontro de Dilma com o bruxo João Santana tinha de ser logo numa sexta-feira, 13?

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