Sem emprego, Ana diz que benefício faz falta

Mas ela não sabe por que parou de receber os R$ 190

Silvia Amorim e Moacir Assunção, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2008 | 00h00

A vida da faxineira desempregada Ana Araújo Bernardo, de 53 anos, encerra um paradoxo. Quando trabalhava no Hospital Geral de Taipas, em São Paulo, ela era beneficiária do Bolsa-Família. Agora, desempregada há cinco meses, não recebe mais o dinheiro e afirma que faz muita falta.A casa simples, com paredes sem reboco e muito ainda por fazer, atesta que os R$ 190 que deixou de ganhar do governo federal há um ano realmente ajudavam a tocar a vida, na Vila Brasilândia, extremo norte da capital paulista."Espero um dia voltar a receber. No mês passado, retirei a última parcela do salário-desemprego e ainda não tenho idéia do que fazer para sobreviver", lamenta. Aninha, como é conhecida essa piauiense, sempre muito sorridente apesar das dificuldades, diz que já mandou "mais de 20 currículos", mas ninguém dá emprego para pessoas que passaram dos 50 anos. "Parece que o cinqüentão não precisa comer ou pagar as contas."O dinheiro da Bolsa-Família, conta ela, permitiu fazer um muro em volta da casa e acrescentar mais dois cômodos à construção original, de outros dois, que serve de casa para a filha mais velha, também desempregada.Ana recebeu o benefício por nove meses, mas depois simplesmente o dinheiro deixou de chegar. Na casa, em que moram as quatro filhas e duas netas, somente uma tem trabalho fixo. Os demais sobrevivem de bicos.ATUALIZAÇÃOAna diz que tentou, por várias vezes, descobrir porque o benefício tinha sido bloqueado. Pelo telefone, segundo ela, a única informação era de que o dinheiro voltaria a chegar. "A água, a luz, e os impostos da prefeitura estão todos atrasados", afirma. Por sorte, a prestação da casa, construída em regime de mutirão, custa somente R$ 62 por mês.O Ministério de Desenvolvimento Social informou que o valor foi cancelado por falta de atualização dos dados do beneficiário. Assim, Ana deve comparecer ao local em que se cadastrou para prestar as informações. Avisada pela reportagem sobre a resposta do ministério, a faxineira comemorou e disse que vai hoje mesmo regularizar o cadastro.Já Maria do Socorro de Oliveira Santos, de 46 anos, reza todos os dias para que seu benefício não seja suspenso. Desempregada, conta que seu último registro na carteira de trabalho foi em 1995, como copeira em uma firma em São Paulo.Ela chora ao falar dos R$ 76 mensais que entram em sua casa pelo Bolsa-Família. "Ninguém fica feliz por precisar desse dinheiro, mas vou te dizer que, sem ele, o mês é longo", diz, mostrando a conta de luz já vencida. "Estou esperando o dinheiro que vou receber no fim do mês." Com o saque, no dia 24, ela vai pagar a conta e o fiado na mercearia.Para sustentar o filho Rubens, de 9 anos, e a casa, Maria do Socorro conta com o Bolsa-Família, que recebe há um ano, e mais R$ 350, prestando serviços voluntários na Associação de Moradores da Favela Paraisópolis, na zona sul.

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