Sem cartaz no mercado,Mantega pode bater recorde no cargo

Escalado como substituto emergencial de Antonio Palocci no comando do Ministério da Fazenda há quase cinco anos, Guido Mantega já cumpriu o segundo mais longo mandato no cargo desde a democratização do país.

ISABEL VERSIANI, REUTERS

24 de novembro de 2010 | 16h12

Sob sua liderança na Fazenda, o país obteve a classificação grau de investimento das agências de risco e cresceu a taxas consistentemente positivas, em processo interrompido apenas temporariamente pela crise financeira global.

O desempenho econômico favorável do país, que levou as taxas de desemprego a mínimas históricas, foi decisivo para garantir a eleição de Dilma Rousseff. Mas não assegurou a Mantega, 61 anos, a preferência de analistas do mercado financeiro.

Considerado de perfil desenvolvimentista, Mantega é criticado por ter tido menor rigor que seu antecessor com as contas públicas, e também pelos aportes milionários feitos ao BNDES no esforço para estimular o financiamento ao investimento.

A avaliação é que o comportamento dos gastos públicos têm limitado a possibilidade de cortes, ou aumentos menores, nos juros.

Nesse contexto, o anúncio de que Mantega seria mantido na Fazenda no governo Dilma, foi recebido com cautela.

"Com o Mantega, espera-se mais do mesmo, nada excelente", afirmou o economista-chefe de um banco brasileiro, sob a condição de anonimato.

"O Palocci tranquilizaria um pouco mais, mas a expectativa é que, independentemente do ministro que vier, haja uma orientação de maior controle fiscal", acrescentou, ressaltando que a questão das contas públicas foi um calcanhar de aquiles da gestão Mantega.

Armando Castelar, do Ibre/FGV, destaca que, como Dilma é economista, espera-se que ela tenha mais ingerência sobre a gestão econômica do que Lula.

"Mas haverá novos desafios, não é só questão de continuar fazendo o que você estava fazendo. A valorização do câmbio, se partindo do patamar atual, é questão muito preocupante", afirma.

Nascido na Itália, Mantega chegou ao Brasil ainda criança. Antes de assumir a Fazenda, foi presidente do BNDES e ministro do Planejamento. Apesar de não ser filiado ao PT, suas ligações com o partido, e com Lula, têm mais de 20 anos.

Economista formado pela USP, com doutorado em Sociologia do Desenvolvimento pela mesma universidade, Mantega foi assessor econômico de Lula entre 1993 e 2002 e um dos coordenadores do programa econômico do PT na campanha de 2002.

Antes disso, já tinha participado da coordenação econômica das campanhas de Lula em 1994 e 1998.

GUERRA GLOBAL

O ministro ganhou destaque global nas últimas semanas após declarar que o mundo vive uma "guerra cambial", desencadeada pelo fato de os Estados Unidos e a China manterem suas moedas excessivamente desvalorizadas.

O tema foi um dos principais assuntos abordados pelos países do G20 em reunião na Coreia do Sul --e tende a ser um dos principais desafios do próximo governo na área econômica.

Medidas recentes tomadas por Mantega na tributação da entrada de recursos externos no país contribuíram para conter o processo de valorização do real. Mas o crescimento da economia doméstica e os juros elevados devem continuar atraindo capitais para o Brasil, em um momento em que algumas das principais economias do mundo ainda lutam para se reativar.

O real valorizado torna as exportações brasileiras menos competitivas e estimula as importações.

Para o economista Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC, Mantega será "útil" no governo Dilma porque tende a atuar se o dólar continuar caindo.

"É claro que isso não vai resolver, mas tem que ter arsenal de medidas para impedir entrada excessiva de dólares no país", afirmou o economista da Confederação Nacional do Comércio, que vê Mantega como um "ministro prático".

Caso se mantenha na Fazenda pelos próximos quatro anos, Mantega baterá o recorde de Pedro Malan, que no governo de Fernando Henrique Cardoso ficou oito anos consecutivos no cargo.

Pai de quatro filhos, Mantega está no segundo casamento. Tem atualmente como hobby ler livros sobre a Segunda Guerra Mundial e biografias de líderes políticos. No final dos anos 1970, em outra fase, coordenou a edição do livro "Sexo & Poder", coletânea de textos sobre sexualidade.

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