Sem carlismo, PT e PMDB tomam conta da Bahia

Os dois já têm aliança firmada para reeleger Wagner em 2010 e ampliar ainda mais seu poderio no Estado

Marcelo de Moraes, SALVADOR, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Três meses depois da morte do senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), a política na Bahia já tem definido claramente seu novo núcleo de poder. Enquanto o chamado movimento carlista vem se desidratando com a perda seguida de aliados importantes, PT e PMDB reinam agora absolutos no Estado. Os petistas são liderados pelo governador Jaques Wagner, responsável pela derrota de Paulo Souto (DEM), em 2006, quando disputava a reeleição apoiado por ACM. Seu principal aliado é o PMDB, comandado pelo ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, e agora com a força do recém-filiado prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro. Juntos, os dois partidos já têm aliança firmada para apoiar a reeleição de Wagner em 2010, lançar Geddel para o Senado e ampliar ainda mais seu poderio no Estado, construído depois de verem ACM e seus aliados governarem a Bahia por quatro mandatos seguidos, de 1990 a 2006. PT e PMDB também já controlam a maioria esmagadora dos cargos mais importantes no Estado - seja de âmbito federal, estadual ou municipal. Não foi à toa que se tornaram o novo pólo aglutinador de líderes regionais, fazendo com que a maioria dos políticos baianos abandonasse o antigo grupo carlista. "Depois da derrota do governador Paulo Souto e da fragilização da saúde e do conseqüente falecimento do senador Antonio Carlos Magalhães, aconteceram mudanças que seriam impensáveis na política baiana", observa o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), referindo-se ao avô. "E houve uma desidratação política de nosso grupo, com muitas pessoas procurando guarida no novo governo, que se tornou também extremamente dependente do PMDB por ser sua principal força de sustentação." DEBANDADA E esse movimento de desidratação foi profundo. Antes da derrota para Jaques Wagner em 2006, o carlismo tinha 360 dos 417 prefeitos da Bahia, espalhados em partidos de sua órbita. Agora, um ano depois, a estimativa de ACM Neto é de que tenham sobrado cerca de 150 prefeitos ligados a seu grupo. O número só não foi mais reduzido porque as mudanças na legislação eleitoral fizeram com que muitos políticos tivessem medo de mudar de legenda e acabassem perdendo seus mandatos. O principal destino desses políticos tem sido o PMDB, até pelo maior grau de restrições que o PT impõe para aceitar novas filiações. Com Geddel fortalecido pelo comando da pasta da Integração Nacional, o PMDB praticamente renasceu no Estado. Depois de ser reduzido a cerca de 20 prefeitos no período pré-vitória de Wagner, as contas do próprio Geddel apontam 135 prefeitos peemedebistas, incluindo a adesão de não-carlistas, como João Henrique Carneiro, que era do PDT. "A Bahia sempre foi atavicamente governista", diz o deputado Colbert Martins (PMDB-BA), aliado de Geddel e possível candidato à Prefeitura de Feira de Santana. "O governismo migrou e hoje continua governista. Como o acesso ao PT é mais difícil, o PMDB passou a ser um estuário natural." Algumas dissidências do carlismo acabaram sendo surpreendentes, como a saída do senador César Borges do DEM rumo ao PR. Borges foi governador de 1998 a 2002 lançado justamente com o apoio de ACM. Agora, foi atrás de maiores espaços políticos para si e seu grupo de apoio. Enquanto o DEM faz oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PR integra sua base de sustentação. Na Bahia, a bancada do PR já está também quase toda afinada ao governo de Jaques Wagner. César Borges e o deputado José Rocha, outro ex-carlista, porém, ainda não definiram apoio. "Estamos abertos para conversar com o governador, mas eu e o senador César Borges não estamos alinhados com ele", conta Rocha. "Só troquei de partido, com o senador Antonio Carlos ainda vivo, pela falta de espaço em Brasília. Mas fui ligado ao carlismo durante toda a minha vida política." Rocha avalia que a quantidade de cargos importantes controlados por Geddel e pelo PMDB explicam a enorme força adquirida por ele. "Ele se tornou muito atraente para aquelas pessoas que sempre precisaram do poder para fazer política local." TESTE O primeiro teste de resistência do novo cenário político baiano deverá ocorrer na eleição de 2008. Se Wagner já tem acertada a parceria com Geddel para a reeleição em 2010, a chance de formação de uma chapa com PMDB e PT para a Prefeitura de Salvador é quase nula. O PMDB apoiará a candidatura de João Henrique à reeleição. O problema é que o PT planeja lançar o deputado Nelson Pellegrino para o posto. Mesmo sem confirmar sua pré-candidatura, ACM Neto acompanha esses movimentos que podem lhe abrir o caminho para a prefeitura. "Pela primeira vez, nosso grupo vai entrar numa disputa eleitoral sem a obrigação de vencer", afirma o deputado. "O governo tem a maioria dos agentes políticos da Bahia a seu lado. Mas nas eleições de 2006 tínhamos o governador eleito, 360 dos 417 prefeitos, 25 dos 39 deputados federais e 42 dos 63 deputados estaduais. Tínhamos a grande maioria do exército político. E fomos derrotados. Pode acontecer de novo, só que com eles." FRASES Colbert Martins Deputado (PMDB-BA) "A Bahia sempre foi atavicamente governista. O governismo migrou e continua governista. Como o acesso ao PT é mais difícil, o PMDB passou a ser um estuário natural" ACM Neto Deputado (DEM-BA) "Houve uma desidratação política de nosso grupo, com muitas pessoas procurando guarida no novo governo"

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