Sem carisma, maior trunfo pessoal de Dilma é a imagem de competência técnica e gerencial

Desde o começo de sua carreira pública, Dilma tem tido essa imagem confirmada por alguns e questionada por outros

Lourival Sant’Anna/SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 19h54

Ao contrário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem emprestou a o apelo popular, a sucessora dele não tem carisma. O maior trunfo pessoal de Dilma Rousseff é a imagem de competência técnica e gerencial. Desde o começo de sua carreira pública, Dilma tem tido essa imagem confirmada por alguns e questionada por outros.

 

Foi esse o alvo do jornalista especializado em economia Políbio Braga, que a sucedeu na Secretaria da Fazenda de Porto Alegre, o primeiro cargo público de Dilma, na época no PDT. Braga gravou depoimento no programa de Serra, no qual afirmou que Dilma foi “incompetente”, e deixou o caixa vazio, ao sair da prefeitura em setembro de 1988 para coordenar a campanha de seu então marido, Carlos Araújo, a prefeito de Porto Alegre.

 

Alceu Collares, o prefeito da época, que continua no PDT e apoia Dilma, nega as afirmações de Braga. “Dilma é competente e capaz”, garante Collares, hoje membro do Conselho de Administração da Usina de Itaipu. “Ele (Braga) é que foi um fracasso. Tinha momentos que achávamos que ele não sabia contar. É um direitista e diz isso por inveja.”

 

Collares foi sucedido na prefeitura por Olívio Dutra, do PT, então rival local do PDT. Os jornais da época registram o desespero de seu secretário da Fazenda, o também petista João Verle, ao encontrar o cofre vazio e débito em caixa de Cz$ 4,97 bilhões (R$ 45,93 milhões em valor de hoje), enquanto a receita do município era de pouco mais de Cz$ 6 bilhões (R$ 55,44 milhões). Olívio, que como Collares faz hoje campanha para Dilma, garante que os problemas foram causados por Braga, não por ela.

 

Em 1993, Collares, já governador do Rio Grande do Sul, nomeou Dilma secretária de Energia, Minas e Comunicações. Olívio Dutra, que sucedeu Collares, manteve-a no cargo. Na época, deficiências na rede de transmissão causavam falta de energia. Dilma reuniu as empresas públicas e privadas do setor e identificou a solução do problema: fechar o anel de transmissão do Estado.

 

“Ela conseguiu uma coisa muito difícil – só não digo impossível porque ela fez”, recorda Paulo Milano, na época coordenador do Grupo Temático de Energia da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul. “Havia dúvidas sobre a quem competia fazer e pagar. Ela disse: ‘Vamos fazer e depois discutimos quem vai pagar.’” Milano acrescenta: “Não concordo necessariamente com ela, mas ela foi líder, fez todos trabalhar.” O prefeito de Uruguaiana, José Sanchotene Felice, ex-presidente do PSDB do Rio Grande do Sul, apoiou Serra. Mas elogia a gestão de Dilma: “Ela foi uma boa secretária.”

 

Não é a impressão da advogada Magda Brossard Iolovitch, que foi diretora jurídica da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) no governo de Germano Rigotto (PMDB), sucessor de Olívio. Filha do ex-ministro da Justiça Paulo Brossard, Magda afirma que um projeto mal concebido, de uma termoelétrica em Montenegro (44 km ao norte de Porto Alegre), nunca tirado do papel, causou prejuízo aos cofres públicos. Documentos mostram que foram compradas duas turbinas, no valor de US$ 100 milhões, que acabaram não sendo usadas, e vendidas a US$ 43 milhões.

 

Magda afirma que não foi feito estudo de viabilidade. A usina, batizada de Termogaúcha, pressupunha o abastecimento de gás pela Argentina, mas o país não tinha o excedente de combustível para atendê-lo. O diretor de Geração da CEEE era Valter Cardeal, hoje diretor de Planejamento e Engenharia da Eletrobrás, acusado de fraude num processo movido por um banco alemão.

 

 Procuradora do Estado aposentada, Magda afirma também que a CEEE, sob a gestão de Olívio e de Dilma, pagou R$ 600 milhões em indenizações trabalhistas sem questionar o cálculo dos valores e sem defender os interesses da empresa estadual. Já Olívio afirma que foi ele que encontrou essa situação e a mudou: “Mexemos num ninho de advogados da CEEE, que não cumpriam prazos e jogavam com pau de dois bicos. Recebemos essa herança do governo anterior (de Antonio Brito, do PMDB), que transferiu o passivo trabalhista para o próximo governo.”

 

O anel de transmissão acabou com os até então frequentes blecautes no Rio Grande do Sul. Mas o Estado continuou não interligado à rede nacional. Isso se tornou vantagem quando veio o “apagão”, em 2001. Dilma convenceu o governo federal de que o Rio Grande do Sul não precisava fazer racionamento. “A grande estiagem ocorreu nos Sistemas Leste e Nordeste, onde estão localizadas as grandes hidrelétricas do país”, recorda Valdir Andres, que a sucedeu na Secretaria de Energia, Minas e Comunicação. “Na região Sul não ocorreu a estiagem, consequentemente a energia pôde ser consumida na nossa região já que seria inócuo não consumir a energia que não poderia ser exportada.”

 

O fato de o Estado ter ficado livre do “apagão” depois de ter sofrido com blecautes impressionou o presidente Lula, que convidou Dilma para participar da equipe de transição, depois de eleito em 2002, e nomeou-a ministra das Minas e Energia. Outro que participou dessa equipe, a convite de Dilma, foi o engenheiro Ildo Sauer, hoje diretor do Instituto de Eletrotécnica e Engenharia da Universidade de São Paulo.

 

Sauer tornou-se diretor de Gás e Energia da Petrobrás, cargo que deixou em setembro de 2007, por discordar das políticas do governo para o setor, que continuaram sob a orientação de Dilma mesmo depois de ela trocar o Ministério das Minas e Energia pela chefia da Casa Civil, em 2005.

 

 Simpatizante do PT, Sauer tem muitas críticas, mas a principal delas é ao fato de o governo ter leiloado 28% dos campos do pré-sal em 2007 seguindo o modelo anterior de contrato, mesmo sabendo desde 2006 das dimensões dessas reservas, cujo risco de exploração era muito menor.

 

Ele afirma que a OGX, empresa que arrematou os blocos do Arco do Cabo Frio, descobriu entre 2,6 e 5,2 bilhões de barris, o que equivale à metade ou ao total da capitalização recente da Petrobrás, no valor de R$ 74,8 bilhões, relativos a 5 bilhões de barris. “Foi  o mais extraordinário enriquecimento privado do capitalismo mundial”, avalia Sauer, que considera que naquele momento já deveriam vigorar contratos de partilha, e não mais de concessões à iniciativa privada. Ele detecta na decisão “incapacidade de ter visão estratégica e de organizar a gestão em favor do futuro dos brasileiros”.

 

Sauer afirma também que o Programa de Aceleração do Crescimento, apresentado pelo presidente Lula como prova da capacidade de gestão de Dilma – por ele batizada “a mãe do PAC” -, não foi criado pela equipe comandada pela ministra da Casa Civil, mas copiado do plano estratégico de 2006 da Petrobrás. A companhia elabora anualmente esses planos, que são ajustados de acordo com mudanças no setor. Ao ser transformado em “compromisso de governo e em promessa política”, o PAC “engessou” a atuação da estatal, observa Sauer.

 

Miriam Belchior, subchefe de Articulação e Monitoramento da Casa Civil, que ficou a cargo do PAC com a saída de Dilma este ano para se lançar à Presidência, admite que os investimentos da Petrobrás incluídos no programa são provenientes do Plano de Negócios da estatal, que por sua vez é parte do seu Plano Estratégico, com um horizonte de 20 anos. Mas nega que haja engessamento, porque os dois planos continuam “baseados na análise das condições de mercado, estratégias de crescimento da companhia e critérios técnicos de avaliação de projetos, sendo aprovados pelos administradores da empresa”.

 

Miriam considera “falsa e infundada” a crítica recorrente de que “o PAC não saiu do papel”. Segundo ela, até 27 de maio, os investimentos executados totalizam R$ 463,9 bilhões, o que equivale a 70,6% dos R$ 656,6 bilhões previstos para o período de 2007 a 2010. “Muitos analisam o PAC somente pelo conjunto de obras, quando, na verdade, o programa compreende uma série de ações que têm impacto direto na geração de emprego e renda, redução das desigualdades sociais e regionais e no acesso a direitos fundamentais para populações que há anos estavam à margem dos investimentos públicos.”

 

 “O PAC a rigor é mais propaganda política do que outra coisa”, diz o economista Mailson da Nóbrega, ministro da Fazenda entre 1987 e 1990, no governo de José Sarney. “Seu orçamento não passa de 0,6%, e mesmo assim a execução é relativamente pobre.” Mailson critica o fato de os investimentos das estatais serem incluídos no programa. “Se uma pessoa compra uma casa popular é computado como PAC.” Para Mailson, “é muito difícil falar em eficiência da gestão se você olha para o PAC”.

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