Sem ACM, carlismo dialoga com PT

A ala mais ortodoxa dos herdeiros políticos do senador procura um novo lugar no cenário político baiano

Christiane Samarco, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2020 | 00h00

Quando desembarcou em Brasília, na semana passada, para discutir projetos de interesse da Bahia com a bancada federal, o governador Jaques Wagner (PT) não imaginou que uma reunião de rotina ganharia contornos de fato inusitado. Para surpresa geral, além dos aliados do PT, PMDB, PSB e PC do B, compareceram ao encontro o deputado ACM Neto (DEM-BA) e o senador Antonio Carlos Júnior (DEM-BA), entre outros representantes do chamado carlismo ortodoxo, que sempre viveu às turras com o PT."Isto é novidade. Jamais participei de uma reunião desse tipo, nem como deputado do PT", admitiu o governador baiano. Passado o espanto, adversários e militantes carlistas, entre os quais o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), também presente à reunião, concordaram em pelo menos um ponto: a participação de Júnior, filho e suplente do senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), inaugura um novo cenário político.Bastou um mês de ausência de ACM, morto no dia 20 de julho, aos 79 anos de idade e 50 de política e mando na Bahia, para que fosse aberto um diálogo inédito entre petistas e carlistas. "A ausência física de um líder com o peso de ACM descontraiu o ambiente político e produziu um cenário diferente. Não se faz mais política na Bahia sendo contra ou a favor de quem quer que seja", comentou Wagner.ACM Neto também acredita que está em curso uma nova dinâmica. "O desaparecimento do senador muda, sim, a dinâmica da política baiana, que nos últimos 30 anos foi forjada em uma bipolarização entre carlistas e anticarlistas", observou.CIÚMESMas nem tudo é paz na política baiana. Ao mesmo tempo em que baixa a tensão entre petistas e carlistas, aumentam os atritos na aliança PT-PMDB, que derrotou o governador Paulo Souto (DEM-BA) e elegeu Wagner.Neste momento de reorganização das forças locais, os dois grupos correm para engordar as legendas. Aproveitam-se do fato de os dois principais pólos da política baiana - o governador Wagner e o ministro Geddel - serem, ao mesmo tempo, integrantes da coalizão nacional PT-PMDB e detentores de poder e prestígio nos palácios de Ondina e do Planalto.A contabilidade inicial aponta um crescimento maior do PMDB, que quadruplicou suas prefeituras no interior e ainda filiou o prefeito da capital, João Henrique Carneiro (ex-PDT). Isso criou ciúmes no PT e acirrou o clima de competição."Quem é grande é mais visto, atrai novas adesões. É natural que quem está do lado de cá (do PT) comece a enxergar o PMDB como um projeto perigoso", admite o vice-líder do governo, o deputado Walter Pinheiro (PT-BA). Ele adverte, no entanto, que o PT não pode se dar ao luxo de apenas olhar o ministro Geddel e o PMDB: "Temos que focar no caminho próprio. Ou então vamos morrer de raiva ou de ciúmes."Pesquisas encomendadas por partidos aliados e também pelos adversários, para avaliar o governo Wagner, têm servido para fermentar intrigas. Elas indicam que a imagem pessoal do governador petista, como gestor, não é boa. Nas pesquisas qualitativas, ele é visto como desorganizado e inapetente."Wagner pegou um governo com muitos problemas", defendeu Geddel. "O Estado estava inadimplente, e ele tem que organizar a casa. É isso o que causa certo desgaste, além da falta de uma máquina de propaganda como a que o PFL tinha."Mas o prefeito João Henrique também não vai bem. Segundo relato de um dirigente do PSDB, pesquisa encomendada pelo DEM mostra que 48% dos soteropolitanos consideram o prefeito ruim ou péssimo. O tucano guardou bem o levantamento porque, nele, o nome do ex-prefeito Antonio Imbassahy (PSDB) aparecia como favorito numa futura disputa.Nada, porém, é seguro neste cenário. De acordo com outra pesquisa, também encomendada pelo DEM, quem apareceu em primeiro lugar como favorito na disputa pela prefeitura foi o radialista Raimundo Varela (sem partido). Ele estava 14 pontos à frente de ACM Neto e Imbassahy, empatados em segundo lugar.SOBREVIVÊNCIAO grupo ligado ao ex-senador ACM aposta nesse cenário de polarização para tentar sobreviver à morte do líder. Enquanto carlistas do PR e PP, apontados como representantes da ala mais pragmática e adesista, negociam com o governador Jaques Wagner, em busca de um porto seguro para o desembarque, os ortodoxos se esforçam para manter o grupo unido. A candidatura de ACM Neto à prefeitura seria um dos fatores de unidade."O PP e o PR estão tentando se acomodar, e isto não é segredo", contou o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA). "Vão acontecer novos desenhos na composição política local", confirmou ACM Neto.Para quem apostou no fim do carlismo após a morte de seu líder, ACM Neto disse que as coisas vão mudar, mas apenas no estilo: "O senador é ?irrepetível?, mesmo porque o contexto histórico mudou. Mas ele deixou uma herança importante, que é o modelo de atuação baseado em dois pilares: a luta em defesa da Bahia e a boa gestão administrativa."

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