Seis sem-terra são indiciados por chacina em Pernambuco

Eles são acusados de homicídio qualificado e co-autoria; Um segurança foi indiciado por porte ilegal de arma

Angela Lacerda, de O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2009 | 17h36

Dois integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) foram indiciados por homicídio qualificado, concurso material, formação de quadrilha e porte ilegal de arma e outros quatro por co-autoria e formação de quadrilha no inquérito concluído nesta terça-feira, 28, pelo delegado de São Joaquim do Monte, a 137 quilômetros do Recife, no agreste, Luciano Francisco Soares. Eles são acusados da execução de quatro seguranças da Fazenda Consulta, naquele município, no dia 21 de fevereiro, um sábado de carnaval.

 

Dos seis, três estão presos. Os três foragidos estão com pedido de prisão preventiva decretada. O inquérito também indiciou o segurança Donizete Oliveira Souza, único sobrevivente, por porte ilegal de arma. Ele não teve, no entanto, pedida a sua prisão.

 

Os seguranças João Arnaldo da Silva, José Wedson da Silva, Rafael Erasmo da Silva e Vágner Luiz da Silva foram baleados na cabeça e no tronco. "As perfurações foram todas em regiões letais, o que indica crime de execução", avalia o delegado. Os presos, apontados como co-autores por terem ajudado os assassinos e dado cobertura na fuga, estão no presídio Juiz Plácido de Souza, em Caruaru, no agreste. São eles: Aluciano Ferreira dos Santos, Paulo Alves Cursino e Severino Alves da Silva.

 

Os foragidos são Antonio Honorato da Silva e Homero Severino da Silva, apontados como os executores, e Luiz Vágner Siqueira, também co-autor. A conclusão do inquérito foi entregue ao Ministério Público de São Joaquim do Monte, que deve oferecer denúncia à justiça.

 

Através da sua assessoria de imprensa, o MST - que assumiu as mortes - disse que só se pronuncia sobre o assunto depois de ter acesso ao inquérito.

 

A chacina

 

A chacina ocorreu duas semanas depois da décima-primeira reintegração de posse da Fazenda Consulta, área reivindicada pelo MST há cerca de 10 anos. Despejados, eles se abrigaram próximo à propriedade, visando a reocupá-la. Os sem-terra haviam tirado fotografias dos cinco seguranças - contratados pela propriedade - armados na operação de despejo. Ao tomarem conhecimento das imagens, os seguranças foram até o acampamento do MST na fazenda vizinha, a Jabuticaba, onde souberam que os sem-terra despejados estavam na Consulta. Eles se dirigiram então à Consulta, onde houve um bate boca. Dois dos cinco seguranças estavam armados, segundo o inquérito.

 

Na sequência, Antonio Honorato da Silva e Homero Severino da Silva dispararam contra os seguranças. Dois deles morreram na hora e três fugiram. Severino Alves da Silva levou Antonio Honorato na sua moto, e Aluciano Ferreira dos Santos fez o mesmo conduzindo Homero (chamado de Romero, que ficou ferido) em outra moto na perseguição aos outros seguranças, que foram mortos em seguida. Somente Donizete conseguiu fugir.

 

Ele estaria desarmado na ocasião, mas identificou as armas usadas pelos colegas e a que ele mesmo usava nas fotos tiradas pelos sem terra que foram entregues à polícia.

 

Luiz Vágner Siqueira deu fuga a Homero, levando-o antes ao hospital da cidade vizinha de Agrestina, em um veículo Corsa azul. Ele também levou as armas usadas no crime. Estas armas até hoje não foram encontradas, de acordo com o delegado de São Joaquim do Monte.

 

Luciano Francisco Soares justificou a demora de dois meses e uma semana para concluir o inquérito porque aguardava um laudo do Instituto de Criminalística para comprovar que os 12 projéteis que foram retirados dos quatro cadáveres não coincidiam com os calibres das armas usadas pelos seguranças. Ontem ele decidiu entregar o inquérito sem o laudo do IC que deverá ser anexado ao inquérito quando ficar pronto.

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