Seguranças do conflito com MST tinham armas, diz testemunha

Segundo promotor, todos os testemunhos levam a essa conclusão e deixam mais claras ocorrências do dia

Angela Lacerda, de O Estado de S. Paulo,

02 de março de 2009 | 18h26

O promotor agrário estadual Édson Guerra afirmou nesta segunda-feira, 2, que se tornaram mais fortes os indícios de que dos cinco seguranças envolvidos no conflito com trabalhadores sem-terra, no dia 21, quando quatro deles foram mortos a tiros por integrantes do MST, dois estariam armados. Os outros três não estariam portando armas na ocasião. O conflito ocorreu na Fazenda Consulta, em São Joaquim do Monte, no agreste, a 137 quilômetros do Recife. Veja também:Incra visita área de conflito após morte de segurançasMST teme represália após morte de seguranças em PEJustificativa do MST para mortes em PE é inaceitável, diz Lula Mendes critica repasse a invasores de terra O promotor acompanhou o depoimento, sob reserva, de uma nova testemunha do caso ao delegado de São Joaquim do Monte, Luciano Francisco Soares, que consolidaram as versões dadas anteriormente por dois outros depoentes - uma pessoa que também assistiu à chacina e o quinto segurança que se encontrava no local, Donizete de Oliveira Souza, 24 anos, que conseguiu fugir. Segundo o promotor, todos os testemunhos levam a essa conclusão e deixam mais clara a forma como teria ocorrido o assassinato dos quatro seguranças na chacina que teria sido motivada porque os seguranças tentaram reaver fotos em que apareciam portando armas, tiradas pelos sem-terra. O MST afirma que os crimes foram em legítima defesa e que estavam sendo ameaçados por "pistoleiros" armados contratados pelos proprietários Perícia No domingo, 1, policiais militares acharam três armas - duas espingardas 12 e um revólver calibre 38 - e munição dentro de sacos plásticos, enterrados em área da fazenda Jabuticaba, também reivindicada pelo MST e localizada em São Joaquim do Monte. A presunção é de que pertençam aos seguranças mortos. O segurança sobrevivente, Donizete Souza, seria chamado ainda nesta segunda-feira, 2, para fazer o reconhecimento das armas, que serão encaminhadas para perícia no Instituto de Criminalística (IC), no Recife. "Com a perícia poderemos saber se elas foram disparadas e se as balas que mataram as vítimas coincidem com estas armas", observou o delegado responsável pelas investigações, Luciano Francisco Soares. Mesmo sem concluir o inquérito, ele o encaminhou nesta segunda-feira, 2, à justiça de São Joaquim do Monte para cumprir o prazo legal de entrega, de 10 dias. "Vamos continuar as diligências e concluir o inquérito em autos complementares", explicou. No mesmo dia da chacina, dois sem-terra foram autuados em flagrante e presos - Aluciano Ferreira dos Santos, 31 anos, e Paulo Alves Cursino, 62. Resultado de exame residuográfico feito nesta segunda-feira, 2, pelo Instituto de Criminalística deu negativo para disparo de arma por Aluciano. O laudo faz a ressalva de que o exame não é conclusivo, ou seja, o fato de ter dado negativo não significa que ele não usou arma. O delegado não tinha conhecimento do exame. Já o promotor agrário não se mostrou surpreso, pois destacou que Aluciano não seria apontado como executor, mas como colaborador. Ele teria levado um dos assassinos, na garupa de uma moto, na captura dos seguranças que fugiram e foram mortos. Testemunhos De acordo com o delegado, os testemunhos indicam que houve desentendimento entre o segurança da propriedade, João Arnaldo da Silva, 40 anos, e o líder do acampamento dos sem-terra, Aluciano Ferreira dos Santos. Neste momento, outros - supostamente dois - sem-terra dispararam dois tiros contra João Arnaldo e um tiro contra Rafael Erasmo da Silva, 20 anos. Logo depois, deram mais dois tiros em João Arnaldo e três em Rafael. Este último teria tido tempo de reagir e feriu o sem-terra Romero Severino da Silva, que está foragido e é suspeito de ser um dos autores dos disparos. Os sem-terra teriam, então, recolhido as armas dos seguranças e ido, de moto, no encalço dos outros três seguranças que correram e estariam desarmados. Eles atiraram e mataram José Wedson da Silva, 26 anos, e Wagner Luiz da Silva, 25. Donizete escapou. Os sem-terra reivindicam as fazendas Consulta e Jabuticaba, em São Joaquim do Monte, alvo de nove reintegrações de posse. Dois dias antes da chacina, eles haviam sido despejados da Jabuticaba, mas a reocuparam. O líder do MST em Pernambuco, Jaime Amorim, afirmou que cerca de 80 famílias de sem-terra continuam acampados dentro da fazenda Jabuticaba. O trato com o Incra, segundo ele, é de só deixarem a propriedade depois que o proprietário autorizar vistoria. Segundo o Incra, o proprietário diz que a área não chega a 250 hectares. O MST afirma que a área é improdutiva e tem em torno de 800 hectares. Na terça-feira, 3, o ouvidor agrário nacional, Gercino Filho, se reúne com o superintendente regional do Incra, Abelardo Siqueira, integrantes do MST e o promotor agrário estadual para discutir a situação na área.

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