Segurança na Copa deve treinar policiais amigáveis, diz especialista

Para coordenador-geral do Comitê Organizador da Alemanha no Mundial de 2006, 'a segurança também deve ser um legado'.

Júlia Dias Carneiro, BBC

02 de dezembro de 2011 | 06h33

Assaltos e furtos são o maior risco para o Brasil na Copa, mas o país deve buscar não apenas prevenir crimes, mas também treinar policiais e monitores para lidar com torcedores de maneira amigável, diz Heinz Palme, do Centro Internacional para Segurança no Esporte (ICSS).

Coordenador-geral do Comitê Organizador da Alemanha durante a Copa de 2006, Palme afirma que o planejamento de segurança para o mundial no Brasil envolverá desafios como treinar milhares de monitores para os estádios, transmitir uma filosofia do evento para a polícia e reduzir índices criminais.

"A segurança também deve ser um legado. Ter a Copa do Mundo dentro do país significa que você cria um ambiente positivo, e isso deve permanecer durante os anos seguintes", disse Palme em entrevista à BBC Brasil durante a Soccerex, a Feira de Negócios do Futebol.

O austríaco é diretor de desenvolvimento de negócios do ICSS, organização sem fins lucrativos criada em março deste ano para reunir informações e experiências sobre a segurança em grandes eventos esportivos e prestar consultoria na área.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Quando se pensa no planejamento de segurança, quais os desafios específicos de uma Copa do Mundo?

São a dimensão do evento. Vocês terão 12 cidades-sede espalhadas por todo o país que precisarão desenvolver um conceito que se encaixe em todas as áreas. Nunca antes o Brasil teve tantos estádios modernos, e é preciso criar um conceito de segurança para administrar todos eles, durante e depois da Copa do Mundo, levando em conta as regulações da Fifa e as necessidades de segurança das autoridades nacionais.

Por outro lado, há muitas exigências com relação a pessoal. Vocês precisarão de stewards bem-treinados (espécie de monitor treinado para zelar pela segurança), e isso é uma indústria separada. Pode-se calcular que para cada estádio vocês precisarão de mil stewards. Se não há essa mão de obra, é preciso criar um programa de recrutamento e de treinamento. Isso leva tempo e envolve transmitir uma filosofia.

Na Alemanha, quantas pessoas foram envolvidas nas operações de segurança?

Tivemos cerca de 40 mil stewards e 5 mil voluntários trabalhando na área de segurança para receber os torcedores. E mais ou menos 25 mil policiais.

E o Exército, também participou?

Não tínhamos ninguém do Exército.

Vocês ofereceram algum treinamento especial para preparar os policiais para o contato com torcedores estrangeiros?

Sim, ao longo de dois anos promovemos treinamentos. Cada policial era treinado por cerca de seis meses, sob o slogan a time to make friends (uma época para fazer amigos). Explicávamos essa filosofia e que os policiais, seguranças e stewards tinham a chance de fazer uma diferença, de surpreender os torcedores. Especialmente na Alemanha, onde todos têm a fama se serem rígidos e muito bem organizados.

Os torcedores se surpreendiam se eles estavam sorrindo, se também atuavam como guias turísticos. Alguns policiais falavam diferentes línguas, e uma bandeirinha indicava isso no uniforme deles. Acho que isso foi uma grande contribuição para o sucesso.

É importante conceber uma filosofia para o evento, como foi feito na Alemanha?

É muito importante ter uma visão, uma missão que perpasse todos os setores e pessoas envolvidas, e pensar em qual deve ser o resultado da Copa do Mundo. Na Alemanha, o objetivo era dar boas-vindas aos turistas, ser bons anfitriões, desenvolver bons serviços etc. Mas para o Brasil acho que é fácil pensar em um conceito. Vocês têm todo esse clima, são tão festivos... Convidem o mundo para celebrar.

Cada país sofre mais com determinado tipo de risco. Na Europa há sempre a preocupação com o terrorismo, na África do Sul se temiam agressões corporais contra mulheres. Qual é o maior risco que você vê no Brasil?

Acho que o maior risco aqui seria haver muitos incidentes criminais como assaltos, furtos e ataques durante o campeonato. A imagem do Brasil certamente sofreria. A mídia está sempre coletando informações e expondo os fatos negativos, então eu diria que esse é um risco. Não diria que terrorismo é um grande risco, mas é algo que você nunca deve descartar.

Mas em um grande evento como a Copa, em que medida a segurança é uma responsabilidade pública ou privada?

Dentro dos estádios, é responsabilidade da Fifa e do COL (o Comitê Organizador Local). A Fifa não quer policiais dentro dos estádios. Do lado de fora, claro que você precisa de polícia, aí a responsabilidade é toda das autoridades nacionais. Mas a partir de determinado perímetro do estádio há uma zona de acolhimento onde você não deve nem perceber que há um esquema de segurança, deve ser uma operação muito calma, suave.

No Brasil, temos polícias nos âmbitos federal, estadual e municipal. Na Copa do Mundo, há o COL, o governo e a Fifa. Como integrar tudo?

A polícia e as autoridades devem sempre participar da organização com o COL e a Fifa. Quando você começa a se preparar, elas precisam ser informadas desde o início, deve haver uma cooperação muito próxima. Caso contrário você corre um risco, ou cria um risco, e isso deve ser evitado ao máximo.

Em países como o Brasil e a África do Sul, onde a violência é um problema maior, o planejamento de segurança em torno da Copa pode ser uma forma de reduzir os índices criminais no longo prazo?

Sim, mas o interessante é que, durante esses grandes eventos, os índices criminais têm diminuído. Isso aconteceu na África do Sul, na Alemanha e também na Áustria e na Suíça, durante a Eurocopa de 2008. É até bastante lógico: as pessoas sabem que os esquemas de segurança estão fortíssimos e que nunca houve tantos policiais e seguranças bem treinados nas ruas. Por que criminosos agiriam exatamente neste período? Isso já ajuda o evento em si.

Mas a outra coisa, claro, é que você tem que se precaver para o longo prazo. A segurança também deve ser um legado. Ter a Copa do Mundo dentro do país-sede significa que você cria um ambiente positivo, e isso deve permanecer durante os anos seguintes. As pessoas vão falar sobre essa Copa do Mundo durante os próximos 50 anos no Brasil. Cada pessoa vai lembrar, vai contar para seus filhos, seus netos. E isso também pode ajudar o país a se desenvolver. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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