Segundo mandato está em disputa, diz PT

Rui Falcão afirma que coalizão justifica escolhas ortodoxas de Dilma e que sigla luta por espaço no novo governo 'assim como outros partidos'

RICARDO GALHARDO, ENVIADO ESPECIAL / FORTALEZA, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2014 | 02h03

O presidente do PT, Rui Falcão, disse ontem, em Fortaleza, que o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff é um governo em disputa e as nomeações de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda e Kátia Abreu para a pasta da Agricultura se justificam no modelo de coalizão.

"Um governo de coalizão é um governo de disputa. Nós disputamos espaço assim como outros partidos também disputam espaço. O fundamental é que a presidente da República é filiada ao PT", disse Falcão, durante reunião do diretório nacional da legenda, na capital cearense.

Segundo ele, a presença de Dilma na reunião, anteontem, deixou clara a divisão entre os papéis do governo e do partido. "Costumo brincar que o PT não será jamais a linha auxiliar da oposição, mas também nunca será o beija-mão da situação."

O partido, de acordo com Falcão, interpretou o discurso de Dilma em Fortaleza como uma garantia de que a escolha de Levy não vai mudar o foco do governo em programas sociais e garantia de emprego e renda. "Mais importante que a nomeação de um executivo de banco que já foi secretário do Tesouro do presidente Lula é a reafirmação de uma política econômica que é feita sem delegação nos seus princípios fundamentais."

Sobre a indicação da presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para a Agricultura, Falcão disse que isso pode representar mais uma cadeira no Senado para o PT. O suplente de Kátia Abreu é o ex-presidente do diretório estadual do PT do Tocantins Donizeti Nogueira. "Há gente inclusive contente."

A cúpula petista demonstrou resignação e considerou "coisa feita" as nomeações de Levy e Kátia Abreu. Mas Falcão admitiu que a escolha da senadora ruralista ainda vai repercutir negativamente no PT. "Essas críticas prosseguirão. Os pensamentos são polarizados e nós vamos ter que administrar isso."

Em Fortaleza, Dilma associou a guinada ortodoxa na economia à governabilidade. Ao mesmo tempo, fez um apelo à "maturidade" dos petistas, que reclamam do fato de ela ter sido reeleita com um discurso - contra o corte de gastos - e agora sinalizar com prática oposta.

O discurso e a presença de Dilma no encontro agradaram à sigla. Além de falar por quase uma hora, ela foi a uma festa na Praia do Futuro. Bem-humorada, falou com militantes e pediu ostras ao deputado José Guimarães (PT-CE). "A disposição dela para o diálogo, sinalizada no discurso da vitória (nas eleições), foi materializada e correspondeu às expectativas", disse Falcão.

Corrupção e 'golpismo'. Conforme o Estado antecipou, o diretório nacional do PT aprovou ontem um texto no qual o partido enumera as ações dos governos petistas para o combate à corrupção - uma espécie de resposta ao antipetismo verificado nas eleições deste ano.

O documento, redigido pela corrente Mensagem - que serve de orientação para futuras decisões do partido -, defende a expulsão de filiados comprovadamente envolvidos em casos de corrupção. O texto, porém, não prevê em que momento isso deve ocorrer. A versão original estabelecia que a expulsão seria imediata, mas essa palavra foi retirada da versão aprovada.

Por outro lado, o texto acusa o PSDB de ir na direção oposta, barrando investigações de denúncias desde o governo Fernando Henrique Cardoso até a formação de cartel para obras do metrô de São Paulo e suspeitas de irregularidades na gestão de Aécio Neves em Minas Gerais.

"É uma afronta o PSDB se apresentar como campeão da luta contra a corrupção", diz o documento, que ainda defende as investigações da Operação Lava Jato e punição aos responsáveis, mas "dentro dos marcos legais".

Para Falcão, o escândalo envolvendo a Petrobrás não enfraquece o governo. "Ao contrário, com a postura que o governo vem tomando a presidente sai fortalecida." Segundo ele, não há um golpe em andamento. "Existe uma intolerância muito grande em relação à nossa vitória", disse. "Da semilegitimidade para a ilegitimidade é um passo", disse o presidente do PT.

Anteontem, em seu discurso, Dilma pediu ajuda do partido para "enfrentar os golpistas" que questionam o resultado eleitoral.

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