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Segredos de polichinelo

Ao admitir o caixa 2 de pai para filho, tentam fugir dos crimes mais cabeludos

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2017 | 03h00

O empreiteiro Emílio Odebrecht foi de uma clareza machadiana ao admitir para o juiz Sérgio Moro o que todo mundo, ou pelo menos todo o mundo político, já sabia: o caixa 2 para campanhas políticas passa de pai para filho, de Norberto para Emílio e de Emílio para Marcelo Odebrecht, preso desde junho de 2015.

“Sempre foi o modelo reinante”, disse Emílio, certamente orientado por excelentes advogados e recorrendo à mesma tática de Lula, ao tentar transformar o mensalão em “simples caixa 2”, de Fernando Henrique, ao admitir que caixa 2 é delito a ser punido, mas é diferente de crime de corrupção, e de dez entre dez políticos com mandato, ou seja, que já fizeram campanha.

Emílio Odebrecht, Lula, FHC e parlamentares têm razão quando escancaram um segredo de polichinelo, porque as “doações por fora” eram da cultura política e todos faziam. Mas isso não significa que os crimes da Odebrecht e de muitos políticos se resumam a caixa 2 e só em anos eleitorais. Senão, por que criar um “departamento de propinas”  permanente?

Os tentáculos incríveis da maior empreiteira e antiga maior doadora de campanhas fizeram a glória e hoje fazem a desgraça de atuais e ex-presidentes mundo afora, no Brasil, no resto das Américas, no Caribe, na África. Não dá para limitar tamanha ousadia a um “caixadoiszinho” que era o “modelo reinante”.

É por isso que Brasília parou à espera da “lista do Janot”, que na verdade é um portentoso pacote com as delações de 78 executivos sobre as relações promíscuas da Odebrecht com os poderosos. Desde sexta-feira, Executivo, Legislativo e Judiciário estão em suspenso e a aflição deve terminar hoje à tarde, quando o procurador-geral Rodrigo Janot envia para o Supremo esse oceano de revelações. Mas isso é só o começo.

Muita gente acha que tudo estará automaticamente aberto, transparente, claro. Não é assim. Num passo a passo bem resumido, Janot entrega ao STF, a Secretaria Judiciária cataloga todo o material em alguns dias e envia para o relator Edson Fachin, que distribui os que não têm foro privilegiado para outras instâncias, assume os que têm, lista os crimes atribuídos a cada um e define o que fica em sigilo.

É praticamente impossível isso estar pronto antes de dez dias e a grande preocupação é com os vazamentos pontuais de nomes, crimes citados, providências pedidas, enquanto a mídia estará com seus HDs engatilhados para copiar os vídeos intermináveis dos delatores. Lembrando que os advogados tentam garantir o sigilo de imagem e voz, para “preservar” seus clientes.

Antes mesmo do “pacote do Janot”, o Supremo já tem quatro ações penais e 38 inquéritos ligados à Lava Jato, sendo réus os senadores Gleisi Hoffmann e Valdir Raupp e os deputados Aníbal Gomes e Nelson Meurer, que devem receber muitas companhias, não se sabe quantas, nem quando. Em paralelo, os acordos de leniência com as empresas endurecem.

Até agora, há suposições e segredos de polichinelo aos borbotões. Quanto mais políticos no “pacote do Janot”, mais os culpados se diluem. E quanto mais a opinião pública se preocupa com o caixa 2, “que todo mundo fazia”, menos foco se dá aos crimes mais cabeludos, que nem todos faziam. Os reais bandidos, que corromperam, foram corrompidos e roubaram dinheiro público estão loucos para reduzir tudo a um grande caixa 2. Pode satisfazer a sociedade, mas não a cúpula da Lava Jato.

Crime organizado. O general Sérgio Etchegoyen (GSI) vai na quinta-feira a Tóquio, sede da próxima Olimpíada e interessada nas operações conjuntas de Defesa, Justiça e Inteligência aplicadas no Rio. Aliás, o governo criou ontem um comitê integrado de combate ao crime organizado, com base na experiência.

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