Secretarias retêm papéis de Renan, acusa a PF

Perícia pode não sair no prazo porque órgãos públicos alagoanos estariam retardando entrega de documentos; governo do Estado nega

Vannildo Mendes, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2027 | 00h00

A falta de agilidade dos órgãos públicos de Alagoas em fornecer informações pode impedir a Polícia Federal de concluir o laudo nos documentos do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), no prazo de 20 dias combinado com o Conselho de Ética do Senado, onde o parlamentar responde a processo de quebra de decoro, sob a acusação de ter despesas pessoais pagas pelo lobista Cláudio Gontijo, da Construtora Mendes Júnior. Renan nega as acusações e diz que as contas foram pagas com recursos próprios, obtidos com venda de gado no valor de R$ 1,9 milhão.A entrega de documentos relevantes, conforme a PF, estaria sendo retardada por órgãos públicos alagoanos. O maior volume de documentos em falta é devido pelas secretarias de Finanças e de Agricultura, controladas por aliados de Renan até a deflagração da Operação Navalha, quando alguns deles foram presos. O governo alagoano alega que vem dando total colaboração às investigações, além de ter demitido os envolvidos com a quadrilha que fraudava licitações em obras públicas.O Instituto Nacional de Criminalística (INC), responsável pela perícia, comunicará ao conselho hoje que a ausência desse material poderá atrasar o laudo ou comprometer sua qualidade se a decisão for continuar o trabalho mesmo assim. Nesse caso, alguns quesitos relevantes do conselho poderão não ser respondidos. Ao todo, foram formuladas 30 perguntas sobre a evolução patrimonial de Renan, suas rendas agropecuárias e a autenticidade dos documentos com os quais ele tenta justificar a origem dos recursos usados no pagamento da pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha.Segundo os técnicos do INC, os documentos a serem periciados estão chegando pingados e ainda falta quantidade considerável de papéis prometidos pelo conselho. Ontem, com considerável atraso, chegou o material requisitado há duas semanas à Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária (Adeal), que faz o controle de zoonoses no rebanho alagoano. Entre os documentos estão atestados de vacina e Guias de Trânsito de Animais (GTAs), que precisam ser cruzados com os outros dados.Chegaram também recibos e documentos com os quais o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), irmão de Renan, tenta comprovar que foi um dos compradores do gado. O outro grande comprador teria sido o matadouro frigorífico Mafrial, que no entanto não anexou notas fiscais próprias, mas de um conjunto de empresas fantasmas ou irregulares. Outros oito supostos grandes compradores do gado de Renan não foram encontrados ou não mandaram a documentação das operações.Tanto pelos documentos que faltam, como pelos já entregues, a situação de Renan torna-se cada vez mais complicada. A perícia é aguardada pelo conselho para julgar o processo, que pode resultar na cassação do senador e na suspensão dos seus direitos políticos por oito anos.Além do primeiro lote de documentos, entregue na semana passada pelo conselho, a PF recebeu um segundo, com material de defesa anexado por Renan na última segunda-feira. Do terceiro e mais importante lote só chegaram ontem documentos da Adeal e os recibos de Olavo, denunciado pela Procuradoria-Geral da República como beneficiário do empresário Zuleido Veras, que comandaria a quadrilha desbaratada pela PF.

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